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Juno Takano 2025-09-21 20:32:26 -03:00
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date = 2018-03-21
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de repente a neve num fôlego, depressa cobrindo os telhados em V. as pontas e as retas num branco aguado, as pretas linhas sólidas da casa a morrer. me agacho e olho as curvas fazendo, descendo sem olhos no ar onde sopro, engulo em vão sem nada a sentir, somente este enjoo de vinte e dois anos, e um luto crescendo do mundo daqui.
os corvos também assustados gorjeiam, tais como patos aflitos de frio, voando no meio da guerra de flocos, bombas sutis no concreto molhado, nos cantos dos muros o vento se prende, vai num só mergulho ao chão como um jato, alvos confetes - besouros de pano, cruas e fortes ondas do sul.
na calha de ferro defronte aos meus pés, a água calada escorre à paisana, tão parca e silente, de uma discrição solitária, indo embora na terra pra deitar-se no rio.
e as flores do lado de fora esperam, imóveis de cores no surdo do gelo, deixando-se vestir por completo ao avesso, ainda que numa angústia dos graus, segurando em si a primavera infantil, como se dissessem adeus num suspiro, olhando-lhe os fios, suas espirais tortuosas, seu sadismo inato e com a morte seus laços, o seu saber que assim, cheia dela seria, do último dia a paisagem de sal.
a terra coberta de uma noite sem lua, sem poetas ou budas, sem ouro ou marfim... somente o zunido, o inaudível barulho perdido, o fundo do fundo do escuro, como um gigantesco navio pouco a pouco se enchendo, de águas polares sem luzes, sem sombras, num gole sumindo nos beiços do mar, sem fogo, sem formas, sem nada, nem um único canto distante e medonho, de uma imensa baleia ancestral, a nadar por mil anos sozinha, procurando na invernia das águas de linho, companhias ou filhas, navios esquadrilhas, morosa arrastando-se sem mais nostalgias, ouvindo o eco repetido mil vezes, no seu infinito e vazio radar.

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date = 2018-03-22
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_Já viveste desgraças e pestes, e sabe por isso ver nas palavras crédulas dos Homens as adolescências que em ti já morreram. Mesmo assim, não te enganes com a doçura de crer, num engano, que terias deixado de ser inocente, e que poderias agora olhá-los com dó, e dizê-los que não sabem como é este mundo. Guarda em ti uma certeza somente: a de que mesmo o mais tolo dos seres tem em si raízes e pétalas, memórias e cores, que te são tão estranhas como a mais estrangeira das naus, dentro da qual há coisas que nem tua imensa alma de poeta pode imaginar. Se não a guardares, te afundará numa seca verdade, privada e familiar, que jamais poderá oferecer aos teus encontros e amores, e que te servirá talvez como espada ou escudo, mas nunca como os olhos cheios de água que ainda carregas com uma coragem cálida e desconhecida. Leve somente uma candura infantil e primitiva, que te tem pertencido desde antes de todos os deuses e profetas. Não a cubra de palavras ou sensos morais: banhe-se nela e entregue-a ao mundo. Tendo A conhecido, logo A reconhecerá do tempo das eras, e Ela lhe será natural, no meio de todos, ou no meio do nada._

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date = 2018-03-25
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mas eu
não venço pela força nem pelo cansaço
venço
pelo carinho
pela delícia
furo devagar a parede
tijolos de areia seca
se soltando
como um sorriso na água do rio

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date = 2019-04-09
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catástrofes e mortes virão
coisas terríveis virão
dores enormes
vejo que virão
do tempo,
a sorte pouca, virá
a rédea solta virá
a queda fera
será
mas eu olho
teu rosto um portal
você como alguém que sonha
que me ajuda a matar os céticos
faz
matar a vontade de solidão
a vontade da ordem
causar caos
fazer nascer
pela destruição
faz destruir
pega-me por aqui
não acho triste ter que transformar
largar de novo
mudar tudo como tudo muda mesmo
tudo que eu tivesse querido, sonhado
dizer adeus
não acho triste
nascer de novo, e de novo
seria nada mais que destino
toma-me o corpo e degluta-me então
os sais
mudam de sabores
quem deterá
a pedra
virando areia, perdendo as retas
quem a deterá?
os temperos...
mudam de sabores
quem os deterá?
poemas épicos pra quê?

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date = 2020-01-13
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pra que sentir
ser demais
se sempre é
o bastante
austeridade seletiva
visão ampla é sempre abrasiva
origem é uma só
ninguém precisa dizer nada
se nasceu no meio da ferida
o resto comunica
tentativa
sempre essa cara de poucas amigas
olho
para a cabeça deste deus de guerra
e minha boca cospe véus em chamas
ele se enfurece
mas é enorme o olho que o observa
subo
assim mesmo
da defensiva ao deboche cuspo
quer me ver amável e pronta
para ser abatida
não de dar a palavra e o afeto direto
dar pra suportar
o insuportável
tão desnecessário romântico engano
de sentir-se viva
por necessidade
sonho
que já acordei
piso
sobre a cabeça deste deus de guerra
e minha boca cospe véus em chamas
porque ele pede o amor em sacrifícios
pede o amor sacrificado
pede que o amor seja sacrifício
então toma
toma para ti então
e guarda consigo
deusa força libertadora
deusa desveladora
Deusa das Águas, Deusa das Folhas
divindades caladas
camisa de força
eu vejo
em tudo o incômodo
preciso
viver sendo chamada ao mesmo tempo
violenta e sensível
que cismo
olha-me o olho que exige sempre um pedido
perdão
perdão!
não era como
deveria ter sido...
e pior sensação ainda sinto
quando disto participo
e vou cobrar meus débitos
dos crimes contra mim cometidos
saldo na conta do inimigo
The Great Guilt Cassino
assim no fim transfiro
para o padre e o pastor
a força que teria tido
porque é demais ser a si
é por demais excessivo
e para manter tudo no mesmo ritmo
é preciso ter olhos em todos os umbigos
para que não se libertem
e criem laços
por demais conectivos
entre os dois lados perdidos
deste prisma
muito mais que quântico muito
muito mais que místico
pura natureza simples

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title = "Estrela da Manhã"
date = 2020-03-23
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Estado monoteísta
meu peito arde
ansiedade
queimando pergunta
onde está
Khembalung
onde está
Shambhala
as ideias eregem
Hōrai
desde ali
ansiedade monoteísta
ascese catarista
conceito passageiro
sou
aluna curiosa sou
olhar atento
sobrancelha por fazer
papel de parede,
desafio constante
se eu invoco e chamo
me desfaço
eu viro
me transformo em letras e aí
estou voando
ritos de lua nova
adaptação eterna
recusa
falsa modéstia
amizade tóxica
cara fechada
expressão mórbida
alguém que cobra
empunha o porrete
contra o olho atento
está com sede
dizendo:
não cresço
quero
saber seu preço
que fácil
a cada provocação
deixo cair
mais um pedaço
e se você diz
que é exagero
se sugere pra mim
um pouco menos
rio um rio
o truque é não se demorar
rápida cura do chão direto ao sorriso
deixe-se pra trás
no cerne do caminho
cuspo num papel de poesia
está anotado, pronto
é isso
cresça se mexa
assim falaram
até ficar reta
depois dobrar e entortar
setenta vezes setenta
dinheiro é necessário
e é só um baralho
aprenda por onde
quem é que preenche
os vãos por entre
onde não chega a mão
da polícia
onde não vê
o olho que está lendo a bíblia
fala
com a língua cansada são
meus olhos que carregam
a raiva calada são
essas mãos que resolvem
colocam não ordem
nem pureza
é
reforma constante
revolução im
per
manente
estrela cadente
Toda Poesia
sem medo
de errar de cantar
desafinar
tão tão
desafinada
fora da batida
não pode
ser escondida
disformes elipses
rodando sem pressa
não posso parar eu tenho
onde chegar você sabe
estava me olhando
esperando
pra me ver gritar queria
que eu perdesse a cabeça mas
agora eu estou inteira quem vai
me segurar?
eu quero
ver a fogueira
hipnotizada por nada
não tenho
mais medo de usar
joelhos e coxas
os punhos
firmes e para cima
cerrados
quem mais trabalha será
sempre chamada vadia
você
enaltece calado
o trabalho forçado
o olhar alienado
vou
puxar seu tapete
romper seu telhado
furar a parede
escrever um recado
espera
eu estou chegando
fique de pé
e bem treinado
estou conversando
com meu outro lado
preciso tirar
mais um pedaço
você tem raiva de tudo
que é emotivo
sinto muito te digo
também a raiva vem nesse mesmo trilho
ouça o seu corpo
ouça
o ardor do seu peito
algo pulsando nos teus braços
estou
entrando e saindo da água
vento na barriga amarga
e também de repente
inspiração renovada
nada nada me para
nada
vou
furar pela brecha
e soltar um bocado
cuidado
cuidado dobrado
quando acrescento
não minto
há muito mais pra dizer do que
ficar garantindo
do que você tem medo?
do que você tem medo?
há dois tipos de medo
o ódio e o receio
quando alguém explica
já te subestima
é melhor
pisar em ovos
do que em espinhos
eu faço
ovos de ferro
de palha bambu
pra você andar
estou
desde os treze andando no vidro
olhe ao redor
estamos vivas e
qual é o motivo?
o sorriso não é
uma forma de passar
despercebida
saber é ar que nos enche
e que não se prende
nos pulmões de um deus
veja
a humanidade sufocada
podando suas próprias asas
esqueça
essa coisa de tudo bem
quero saber
como andam elas
não as santidades
quero saber de você
que está o tempo todo
cantando e sempre diz
que não canta
que está o tempo todo
dançando e sempre diz
que não dança
que está o tempo todo
falando e sempre diz
que é calada demais
sempre dizendo
que não está aprendendo
e aprendendo sem parar
a não deixar
seu corpo parado
ou sua mente
sair do lugar
se ela quer
dançar sem ninguém
poder acompanhar
até ficar cansada
se ele quer
fazer e criar
riquezas e mundos
mundos profundos
quem mais vai te motivar
se nem esse deus levantar
da sua cova mental
imaterial
e se manifestar?
tudo que queria
era me ver livre
dessa referência
incontente
acho uma pena
viver narrando
em cada ação da mão uma culpa
não quero
fazer sacrifícios
quero
que você escreva comigo
preciso
sou
só um degrau explosivo
de novo
eu digo
cuidado
muito cuidado contigo

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title = "Magnolia, Grandiflora"
date = 2020-04-09
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não reviver
deixar morrer humores
sem medo
sem tabu
sem cultuar a morte
para tentar ganhá-la
sem preservar
ou salvar sua alma
sem tentar
aprisioná-la
deixando ela como
em sua própria casa
cultuando a vida cultuando
não a palavra mas a coisa manifestada
não quero dizer
mais nada sobre
prioridades
assistir o mundo
sem fazer nada
ou retornar
para o caderno, folha dobrada
preparar,
soprar em vida
e lançar na malha
24 de março de 2020

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title = "O Pequeno Príncipe"
date = 2018-08-12
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eis o molho de chaves
tudo está aberto
caso precisar
a trava
a janela
a cortina
peça
por peça
de repente
completa
nudez no quarto escuro
escuto
hoje a noite refeita
fantasmas na lâmpada acesa
ainda sonhos de amor
quem nega não sabe
num livro
vozes me dizem coisas que você
ensina
foram invernos inteiros
agora estou assim
olhando a montanha dos pés
teus pés
abrindo que nem origamis
adoro
você concreta me fazendo ser
uma poeta medíocre
absorta e brincando
com os sentimentos do mundo
volto-me para as coisas grandes
coisas grandes de poetas grandes
encarnadas no teu mundo divino
hesitante
adoro
ser tua poeta medíocre
querendo tão cedo ser aplaudida
mas viva
eis aí meu triunfo estou viva
um ás de cada naipe
na palma da mão
o id e o id
na hecatombe final...
por qualquer motivo sou aquela
mortal que se entrega ao vampiro
que faço
quando você hesita um centésimo faço
como se fosse selecionada
sou alguém que do Éden
recusou-se a ser expelida
tenho a fome de cem mil demônios
e nisto também a alma
de fileiras tantas de anjos
tantas fileiras de anjos
mil centilhões para cada
pelo no teu corpo branco
sorria
te olho chegando de carro
sou a tinta sobrando pra fora da tela
O Pequeno Príncipe
na guilhotina
cadela
de madrugada num carro
desliza
moletom preto
pequena cidade uma cela
e dela
poemas entrando na porta do meu quarto
sentando na cama
espera
as cruzes e os santos
os punhais
vontades de pureza
desejos de heresia
réguas, pesos, esquadros, e os pais
caixas de papelão
no escuro do maleiro
a roda de olhos na ciranda vira
e perspira
mais nenhuma carta a escrever pra ninguém
só a roda
de olhos brilhantes
titânicos
na janela do carro
o rosto não lembro
a janela do carro
tudo escorre vão
os quereres
também qualquer par
todo lugar
da janela
na roda
a cortina
leva na brisa
paulatina
medos passados
ânsias de vômito
gulas de amor
olho de novo no livro
me exalta
e humilha
assinto
ao mundo o meu coração para o tiro
dispara
um respiro
meu corpo de novo
e
do outro lado o som
tranquilo

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title = "Terra Amorfa"
date = 2019-08-15
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Assim, como uma terra amorfa, minhas vontades estão todas nulas, as próprias folhas caem desde o alto, onde não é paisagem, onde não são pensamento, onde alimentam o mesmo chão do qual se come, sem separação, sem dúvidas sobre seu proceder, sem nenhuma ideia de culpa ou inocência, débito ou crédito, vão fazendo folhas para beber luz solar e depois dividem, como uma grande divindade sem contornos, que não está separada, não é criadora da natureza, mas algo muito anterior e posterior a isso, elas vertem sim, luz em alimento, e distribuem para o chão e todas as criaturas que nele vivem, fazem isso, e nesse mesmo chão suas raízes são abrigos e esconderijo, são camuflagem, não artigo decorativo, não são bonitas ou feias, são assim como o ar entre uma e outra, ou eu e ela, que sou esta terra amorfa, sim, repito estou comendo, pisaram e do pior fizeram sobre mim e também das coisas mais gloriosas fui testemunha, de ideias de posse e de libertação fui sujeita e objeto, mas permaneceram ideias, ideias nas quais conceberam minha inocência, minha importância, e para isso, conceberam também, alguma culpa, alguma irrelevância que não havia — jamais olharam como me olham os seres que de mim mesma são feitos, muito embora sejam — e por isso precisam sempre achar um entre os seus para ser dividido, como se nesse sacrifício provassem algo para si mesmos. Optar entre fazer o bem sete ou oito vezes e três ou duas o mal, não conseguir, simplesmente, proceder de um só golpe nesta vida, onde tudo é como um carro que se coloca nesta ou noutra pista, e força-se assim, tenta-se ser sísifo, ser cristo, ser mitólogo, ou mito, ou também conquistar, ser idólatra, ou ídolo, mas ideias de sucesso são feitas de lixo. Não querem ser consciência exposta, de vaidade comum e passível de riso — preferem ser gênero, ser produção, ser algo rígido, uma forma feita, bem definida, que ao morrer torna-se pedra com o nome escrito... Não sou este corpo com nome e documento, com direito, emprego, pai, mãe, marido, sou o grande corpo solto na cidade, sou o risco, a transmissão, sou o gênero humano, diverso e nativo.

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title = "Verso para melodia 6"
date = 2019-09-27
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pão, paz e terra
amor, harmonia
sonharam
sonhos de guerra
sonhos de ordem e folia
alguns andam de lado
furaram o filtro que tinha
o tempo todo um quadrado
tentando fechar a linha
mas o olho é calado
a boca come e adivinha
se a mente deixa um rastro
o corpo invisível ensina
sem tempo pra vícios
e idolatrias
enquanto os frontes se formam
eles pedem saída
[...]
sempre exposta ao relevo
meu tempo é o Tempo mesmo
não arrumo relógios
não sei fazer consertos
olho e revogo
eu devoro e festejo
não tenho pontos de amarra
não me servem coleiras
é hora do ataque
eu não suporto a leseira
se quer tente me mate
não sou feita de aço
sou água da seca
não há nada que quebre
que ao queimar me derreta
sempre retorno
mantenho a pareia
aprendo o senão
e engulo a certeza
mas são unhas de vidro
abrindo a soleira
pr'uma vida inteira
uma vida inteira