diff --git a/content/poesia/2017-07-27.md b/content/poesia/2017-07-27.md index 263f676..56b67b9 100644 --- a/content/poesia/2017-07-27.md +++ b/content/poesia/2017-07-27.md @@ -2,8 +2,7 @@ date = 2017-07-27 +++ -``` -só um corpo sem nome -feito de barro e pedras azuis -nadando afoito no oceano -``` + só um corpo sem nome + feito de barro + e pedras azuis + nadando afoito no oceano diff --git a/content/poesia/2018-03-03.md b/content/poesia/2018-03-03.md new file mode 100644 index 0000000..a0364ae --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-03-03.md @@ -0,0 +1,33 @@ ++++ +date = 2018-03-03 ++++ + + eu + que desta palavra eu + já não mais conheço nada + nem o avesso ou o verso + que decidi esquecer + meus nomes do meio + que já não sei mais vestir jeans + mas que não caibo sem dores + nestes quimonos azuis + que me preciso carregar aos açudes do mundo + que tenho que decidir + entre três onze e doze + eu + que vou chorar indo ou ficando + de quem não sei mais o que sobrei + que nasci sem chorar nem gritar nem nada + que olho as bandeiras e vejo desenhos + eu + neste corpo de fibras abertas e finas + que mora no rio, debaixo da escada + + me morda + até que derreta em cordas fracas + e escorra + com vontades e dores sem riscos de facas + sem nada no mundo que emudeça meus pés + seus latidos + minhas lágrimas + meus amores... diff --git a/content/poesia/2018-03-09.md b/content/poesia/2018-03-09.md new file mode 100644 index 0000000..f2954c5 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-03-09.md @@ -0,0 +1,52 @@ ++++ +date = 2018-03-09 ++++ + + carregada à deriva + os sete lados da terra + sonhei + subi a montanha + não achei + quadros + nos museus + não achei + na grama + filmes de guerra + flores + na casa não achei + saudades, mãos serenas + nos meus olhos + culpa ou perdão + não achei + na vala + Deus + não achei + rosários e quimonos + no frio e na ordem + balas de ferro + não achei + + deitei minha vida ao lado + e calcei estas sandálias de fio + andei até aqui sem nada para ver ou beber + nem uma gota d'água + por que me esmaguei + tão insistentemente + se meu peito ia voltar-se + sempre + à mesma criança + que sempre aqui viveu? + + d'Ele + sobraram as cinzas + o ódio + e a doçura + + abre meu rosto ao meio + e por dentro da máscara fria + escreve teu nome de novo + como um suspiro + num horizonte esfumado + de pura nuvem + que não se vê + que não se toca diff --git a/content/poesia/2018-03-20.md b/content/poesia/2018-03-20.md new file mode 100644 index 0000000..7e39368 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-03-20.md @@ -0,0 +1,22 @@ ++++ +date = 2018-03-20 ++++ + + nua + a pedra da rua + descansa + + inflama + minha febre num teso + acende + + de frio + esquartejo + um sorriso no meio + + eu vejo + + nua + + a pedra da rua + descansa diff --git a/content/poesia/2018-03-24.md b/content/poesia/2018-03-24.md new file mode 100644 index 0000000..fda9446 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-03-24.md @@ -0,0 +1,7 @@ ++++ +date = 2018-03-24 ++++ + + no altar cheio de poeira + o Meu Nome está escrito + em todas as coisas diff --git a/content/poesia/2018-07-12.md b/content/poesia/2018-07-12.md new file mode 100644 index 0000000..8ba2e5c --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-07-12.md @@ -0,0 +1,23 @@ ++++ +date = 2018-07-12 ++++ + + está tudo pronto de novo + há algo pra beber? + provocações + na mesa da sala sente + por favor + tenho + tudo quebrado + há pedaços + provocações + ao lado + por todo lado + pequenos cacos + e a cereja + brilhante no topo + estrela + alguém indo embora + na surdina + feito um feixe de + provocações diff --git a/content/poesia/8948.md b/content/poesia/2018-07-28.md similarity index 100% rename from content/poesia/8948.md rename to content/poesia/2018-07-28.md diff --git a/content/poesia/2018-07-29.md b/content/poesia/2018-07-29.md new file mode 100644 index 0000000..9bec418 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-07-29.md @@ -0,0 +1,15 @@ ++++ +date = 2018-07-29 ++++ + +![Foto de uma folha de caderno com uma poesia manuscrita com o texto que segue esta imagem. Na foto, a palavra "mergulho" tem antes dela a palavra "fundo" riscada.](/images/wp-1532847990956.jpg) + + o ciclope na montanha + nomes de Deus + minha nudez no quarto escuro + mergulho no mar aberto + + nada para mostrar + mais nada para dizer + tateio no escuro + um braço de Kannon diff --git a/content/poesia/2018-08-29.md b/content/poesia/2018-08-29.md new file mode 100644 index 0000000..fd5c78d --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-08-29.md @@ -0,0 +1,34 @@ ++++ +title = "Vapor Mestiço" +date = 2018-08-29 ++++ + + para o cético, só uma esteta fazendo linhas de cor + para o teórico, uma mística copérnica na paisagem + para o inocente, a mestre de hipnose dizendo mentiras + para o idealista, a vibrante tendência fascista + + para o herege, um querubim na mais alta falange + para o artista, Narciso esculpindo a si mesmo + para o purista, a criança matando formigas + para o espectador, só alguém na poltrona do lado + + para o curioso, a assassina e o assassinado + para o parente, cada síndrome do livro didático + para o amante, rochas raras na areia da Barra + para o poeta, só uma boca que não fica calada + + para o cristão, o rio descendo ao contrário + para o impulsivo, o aviso na lateral do cigarro + para o homem, a bicha tremendo na fila do CAPS + para o monge, o gás chiando nas bombas do Estado + + para o menino, o coelho procurando o buraco + para o profeta, o amor insistente nos vinte + para o crítico, a ironia sutil do palhaço + para o adulto, gloriosa em busca de glória + + para o pragmata, o próprio sonho da ordem + para o incendiário, a velha a caminho da igreja + para o predador, a ovelha desgarrada no pasto + para o magnata, a menina brincando de espada diff --git a/content/poesia/2018-08-30.md b/content/poesia/2018-08-30.md new file mode 100644 index 0000000..8219cc7 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-08-30.md @@ -0,0 +1,6 @@ ++++ +date = 2018-08-30 ++++ + + vamos filmar + esse filme diff --git a/content/poesia/2018-11-01.md b/content/poesia/2018-11-01.md new file mode 100644 index 0000000..f1fe0cf --- /dev/null +++ b/content/poesia/2018-11-01.md @@ -0,0 +1,64 @@ ++++ +date = 2018-11-01 ++++ + + a chuva rara + na ladeira de pedra + já são quatro horas + no ritmo + aflito + dias de sol + caveiras de açúcar + e as horas + + mas já não são chuvas raras + na pedra + disforme + da pele + do morro + + porta adentro + na terra do quintal + a pedra seca + desponta + esfarela + o morro e as mangueiras nas mãos + o vermelho goteja + de fruta no seu dorso + da casa os meus olhos + são como madeira + sem verniz + sem tintura + disparam para o céu + recôncavo + + na grama rasteira + sou a formiga e o formigueiro + ninguém de novo + entre o falo e a faca + + quisera + a cruz e a espada + com a clareza da história + + sou eu de novo — + como um fantasma + vertebrado por acaso + olhos no prêmio + memórias de mitos + + encartes em chamas + na minha virilha vazia + ralas lembranças + natais em família + + teria já + deixado este mundo? + + de novo + no rastro fácil da cobra + o vício me fecunda + e desova + são dobras curvas e fracas + no cimento impreciso + sob o falso piso de ardósia diff --git a/content/poesia/8881.md b/content/poesia/8881.md deleted file mode 100644 index c5cd4a9..0000000 --- a/content/poesia/8881.md +++ /dev/null @@ -1,7 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-03-03 -+++ - -eu que desta palavra eu já não mais conheço nada nem o avesso ou o verso que decidi esquecer meus nomes do meio que já não sei mais vestir jeans mas que não caibo sem dores nestes quimonos azuis que me preciso carregar aos açudes do mundo que tenho que decidir entre três onze e doze eu que vou chorar indo ou ficando de quem não sei mais o que sobrei que nasci sem chorar nem gritar nem nada que olho as bandeiras e vejo desenhos eu neste corpo de fibras abertas e finas que mora no rio, debaixo da escada - -me morda até que derreta em cordas fracas e escorra com vontades e dores sem riscos de facas sem nada no mundo que emudeça meus pés seus latidos minhas lágrimas meus amores... diff --git a/content/poesia/8883.md b/content/poesia/8883.md deleted file mode 100644 index 5bcaaa7..0000000 --- a/content/poesia/8883.md +++ /dev/null @@ -1,11 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-03-09 -+++ - -carregado à deriva os sete lados da terra sonhei subi a montanha não achei quadros nos museus não achei na grama filmes de guerra flores na casa não achei saudades, mãos serenas nos meus olhos culpa ou perdão não achei na vala Deus não achei rosários e quimonos no frio e na ordem balas de ferro não achei - -deitei minha vida ao lado e calcei estas sandálias de fio andei até aqui sem nada para ver ou beber nem uma gota d'água por que me esmaguei tão insistentemente se meu peito ia voltar-se sempre à mesma criança que sempre aqui viveu? - -d'Ele sobraram as cinzas o ódio e a doçura - -abre meu rosto ao meio e por dentro da máscara fria escreve teu nome de novo como um suspiro num horizonte esfumado de pura nuvem que não se vê que não se toca diff --git a/content/poesia/8885.md b/content/poesia/8885.md deleted file mode 100644 index 39b817f..0000000 --- a/content/poesia/8885.md +++ /dev/null @@ -1,15 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-03-20 -+++ - -nua a pedra da rua descansa - -inflama minha febre num teso acende - -de frio esquartejo um sorriso no meio - -eu vejo - -nua - -a pedra da rua descansa diff --git a/content/poesia/8891.md b/content/poesia/8891.md deleted file mode 100644 index 282930a..0000000 --- a/content/poesia/8891.md +++ /dev/null @@ -1,5 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-03-24 -+++ - -no altar cheio de poeira o Meu Nome está escrito em todas as coisas diff --git a/content/poesia/8942.md b/content/poesia/8942.md deleted file mode 100644 index 9eada36..0000000 --- a/content/poesia/8942.md +++ /dev/null @@ -1,5 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-07-12 -+++ - -_está tudo pronto de novo há algo pra beber?_ _provocações na mesa da sala sente por favor tenho tudo quebrado há pedaços provocações ao lado por todo lado pequenos cacos e a cereja brilhante no topo estrela alguém indo embora na surdina feito um feixe de provocações_ diff --git a/content/poesia/8951.md b/content/poesia/8951.md index 258818e..748ab53 100644 --- a/content/poesia/8951.md +++ b/content/poesia/8951.md @@ -2,4 +2,7 @@ date = 2018-07-28 +++ -vênus sobre uma árvore campo de bois olhos titânicos na janela do carro + vênus sobre uma árvore + campo de bois + olhos titânicos + na janela do carro diff --git a/content/poesia/8967.md b/content/poesia/8967.md deleted file mode 100644 index 8e2f769..0000000 --- a/content/poesia/8967.md +++ /dev/null @@ -1,5 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-07-29 -+++ - -![](images/wp-1532847990956.jpg) diff --git a/content/poesia/9195.md b/content/poesia/9195.md deleted file mode 100644 index 1d00261..0000000 --- a/content/poesia/9195.md +++ /dev/null @@ -1,16 +0,0 @@ -+++ -title = "Vapor Mestiço" -date = 2018-08-29 -+++ - -para o cético, só uma esteta fazendo linhas de cor para o teórico, uma mística copérnica na paisagem para o inocente, a mestre de hipnose dizendo mentiras para o idealista, a vibrante tendência fascista - -para o herege, um querubim na mais alta falange para o artista, Narciso esculpindo a si mesmo para o purista, a criança matando formigas para o espectador, só alguém na poltrona do lado - -para o curioso, a assassina e o assassinado para o parente, cada síndrome do livro didático para o amante, rochas raras na areia da Barra para o poeta, só uma boca que não fica calada - -para o cristão, o rio descendo ao contrário para o impulsivo, o aviso na lateral do cigarro para o homem, a bicha tremendo na fila do CAPS para o monge, o gás chiando nas bombas do Estado - -para o menino, o coelho procurando o buraco para o profeta, o amor insistente nos vinte para o crítico, a ironia sutil do palhaço para o adulto, gloriosa em busca de glória - -para o pragmata, o próprio sonho da ordem para o incendiário, a velha a caminho da igreja para o predador, a ovelha desgarrada no pasto para o magnata, a menina brincando de espada diff --git a/content/poesia/9202.md b/content/poesia/9202.md deleted file mode 100644 index 59e66b9..0000000 --- a/content/poesia/9202.md +++ /dev/null @@ -1,5 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-08-30 -+++ - -vamos filmar esse filme diff --git a/content/poesia/9225.md b/content/poesia/9225.md deleted file mode 100644 index f9d30b4..0000000 --- a/content/poesia/9225.md +++ /dev/null @@ -1,21 +0,0 @@ -+++ -date = 2018-11-01 -+++ - -a chuva rara na ladeira de pedra já são quatro horas no ritmo aflito dias de sol caveiras de açúcar e as horas - -mas já não são chuvas raras na pedra disforme da pele do morro - -porta adentro na terra do quintal a pedra seca desponta esfarela o morro e as mangueiras nas mãos o vermelho goteja de fruta no seu dorso da casa os meus olhos são como madeira sem verniz sem tintura disparam para o céu recôncavo - -na grama rasteira sou a formiga e o formigueiro ninguém de novo entre o falo e a faca - -quisera a cruz e a espada com a clareza da história - -sou eu de novo -- como um fantasma vertebrado por acaso olhos no prêmio memórias de mitos - -encartes em chamas na minha virilha vazia ralas lembranças natais em família - -teria já deixado este mundo? - -de novo no rastro fácil da cobra o vício me fecunda e desova são dobras curvas e fracas no cimento impreciso sob o falso piso de ardósia diff --git a/content/poesia/abrupcao.md b/content/poesia/abrupcao.md index c725838..576ed4f 100644 --- a/content/poesia/abrupcao.md +++ b/content/poesia/abrupcao.md @@ -2,10 +2,16 @@ date = 2018-08-09 +++ -a máquina colhendo cana violenta, inevitável + a máquina colhendo cana + violenta, inevitável -e de repente sempre de repente a represa no imenso da ponte contida, imóvel, para a tristeza da Terra + e de repente + sempre de repente + a represa no imenso da ponte + contida, imóvel, + para a tristeza da Terra -garças dormindo na árvore são frutas vestidas de branco + garças dormindo na árvore + são frutas vestidas de branco (agosto de 2017) diff --git a/content/poesia/agosto.md b/content/poesia/agosto.md index fbddd24..c3c4c46 100644 --- a/content/poesia/agosto.md +++ b/content/poesia/agosto.md @@ -3,20 +3,40 @@ title = "Colunas" date = 2018-08-04 +++ -Haimi de repente em agosto + Haimi + de repente em agosto -\-- +--- -viajar para longe de toda certeza todo conselho toda inteligência toda sabedoria viajar para longe de toda certeza todo conselho toda inteligência toda sabedoria + viajar para longe + de toda certeza + todo conselho + toda inteligência + toda sabedoria + viajar para longe + de toda certeza + todo conselho + toda inteligência + toda sabedoria -\-- +--- -velas de aniversário na penteadeira + velas de aniversário + na penteadeira -\-- +--- -vontade de potência livros de Nietzsche fogueira apagada + vontade de potência + livros de Nietzsche + fogueira apagada -\-- +--- -solta no pretume a lâmpada calada notícias de câncer maca no corredor adictos, aflitos vontade de vida ao ponto de morte + solta no pretume + a lâmpada calada + notícias de câncer + maca no corredor + adictos, + aflitos + vontade de vida + ao ponto de morte diff --git a/content/poesia/images/wp-1532847990956.jpg b/content/poesia/images/wp-1532847990956.jpg deleted file mode 100644 index db5d312..0000000 Binary files a/content/poesia/images/wp-1532847990956.jpg and /dev/null differ diff --git a/content/poesia/tarde-de-novembro.md b/content/poesia/tarde-de-novembro.md index 2fc0944..da03e1a 100644 --- a/content/poesia/tarde-de-novembro.md +++ b/content/poesia/tarde-de-novembro.md @@ -3,8 +3,12 @@ title = "Tarde de Novembro" date = 2018-08-09 +++ -_burying these rings -I'm like all others -murdered and murderer_ + + + burying these rings + I'm like all others + murdered and murderer + + (10/2016) diff --git a/content/poesia/vapor-mestico-ii.md b/content/poesia/vapor-mestico-ii.md new file mode 100644 index 0000000..b1b312d --- /dev/null +++ b/content/poesia/vapor-mestico-ii.md @@ -0,0 +1,8 @@ +--- +title: "Vapor Mestiço II" +date: 2019-11-16 +categories: + - "poetica" +--- + +_Ali olho conforme a lente da câmera filma. É o olho do mundo inteiro de fato, mas também o olho da máquina fria, de toda tecnologia. É assim que ela devolve, no seu vidro imóvel, na máscara rígida. Nela estão inscritas todas as fabricações, de uma nova estética, todo o sintético, todo o plástico e o vidro, ele mesmo, feito e vindo do petróleo e do cristal fino, que são toda outra coisa, são base, chão, vida vertida, feito o filme que me compõe e constitui o entorno vivo, e ainda que rápido ou devagar se cante ou dance, só se ouvirá um timbre, e mesmo que tudo aponte para sua totalidade a lente usa-se somente para celebrar a separação, fazer parecer que é verdadeira divisão; por isso ela também traz em si mesma já a tela, olha e já cospe, em cada uma das quatro linhas escrito o limite, e no limite de cores também está dado o restrito, assim é que as letras são outras que deixam de ter sua função, e a palavra não é mais fruição nem ideia capaz de causar um tilt, o olho na tela se cala e a luz acaba sendo tudo — mesmo que do Sol nenhum farol ainda ganhe, mesmo que o fogo ainda confunda qualquer câmara que abre-se e fecha-se em um milésimo de segundo mas não sabe o que fazer com o fogo, seu contorno descontorno, ou com a folha se a leva o vento, ou com a areia se a molha a água, assim como gramáticos olhando pronomes, viram limite, limítrofe muro fino de prisão, viram significado avesso, nunca refletem um único raio torto ou mesmo tingido, não é nada que se possa apanhar com a mão, dado ou distribuído para a população, é voo revoada, óleo na água, golpe em Chuquiago, assim toda foto torna-se desejo íntimo de ter vivido o não-vivido, toda informação torna-se desejo íntimo de ter sabido o não-sabido, não há mais erótico não há mais poético poetise poetisa poetiso, não há mais sentido, corpo, porque não se sabe mais — do alimento, da água que antes bebia a mesma língua que hoje se mordia mais do que nunca como as beiradas da boca e das bochechas por dentro comendo como se procurando uma saída, ouvindo e vendo, tudo está escrito desde o começo eu já dizia, que havia sido anunciada a verdade ela sabia, ensinava e pregava desde então já a seguia, há dez ou seis mil anos atrás preste atenção está atenta e viva, nua correndo na via, de toda posse todo reboliço, sempre coberta de cinzas ela mesma você sabe e não precisa… esfumada a palavra solta está caótica. Ela pede que parem todos os semáforos e avenidas para ser ouvida e lida, escoa rápido demais, não há o que segure a torrente individida, entra como fogo vermelho queimando a parede e sobe sem ventilação, fumaça preta chamuscando a cidade inteira, não há corretor automático cancela ou corrimão, rolinho ou jato de compressão, que a segure, ela passa por cima deslizando com a prancha ou com a bunda, está perfeitamente louca como veio ao mundo, recusando-se a ser educada ou a ceder até menos que um dízimo da sua mente que opera, opera o caixa opera corrigindo os erros do seu programa ambicioso opera — opera empilhadeiras e servidores, opera, são essas mesmas mãos que teriam dito não serem mais necessárias, pois creram que tinham inventado mentes, inventado nova inteligência, mera supercalculadora supertrabalhadora superamplificadora supercontroladora o dicionário automático sugere sugere sugere mas falta neologismo para uma vida tão breve num mundo nesse ritmo, o oceano está levando e as torres erguem-se e caem-me cantando músicas de amor e daquela vontade antiga e violenta de criar uma multidão capaz de defender-se sem medo ou compromisso, que tivesse reconhecido seus semelhantes e esquecido das promessas e mentiras das quais hoje se depende, dizendo, dizendo, com esta mesma máquina, no mesmo lugar de sempre se escondendo, lá na multidão, na vinte-e-cinco entre aquela e aquela outra, ninguém vê, ninguém pressente ou retorna, assim é que se observa o tempo que de fato corre, e toda poça de amanhã que está presa sob o sol esperando para virar chuva, e cada gota que abraça cada larva de mosquito também, e de todo ódio e doença, e da guerra biológica e técnica contra o terceiro-mundismo, ficam as memórias de ódio e de resistência mas você tinha também que enfrentar esta batalha sozinha, segurar nas mãos de alguém mas também soltá-las se ficassem frias, você ia, era o ônibus e o trem que no chão de lata pisaria, para não ir no teto ou lembrar se pela janela surfaria, era a vontade, o risco e a transmissão, repetindo para lembrar-se, não esquecer-se da missão, de ter vindo, de estar indo, da sua memória, seu próprio sertão, sua falta de água, falta de carga, metal leve ou pesado, no sangue, na caixa, nos venenos do garimpo, era seu único corpo para o qual não se tinha inventado perdão, contenção, linha reta, linha torta, qualquer meio, forma, arreio feito de intenção, pedra dobrada, parede pintada, nuvens de pó, voando na contramão, sujando de novo sua roupa tão carinhosamente urdida, limpa girando numa máquina redonda e calada, tomada ligada, elétrica vassoura de piaçaba, é isso, você não ouvia mas ela falava, segura palavra cantada, coqueiro japeraçaba, a nuvem era multidão, suja voz feminina na contramão, contrafeita contravenção, contrassexo contratempo contraponto contração, contra o arreio contraluta, a tua saúde no limite de um ministro que a ajuste, que se ajuste, injuste império, leviatã, contra a gente, contra o certo, contra o prometido e todo o seu desenvolvimentismo, ao mesmo tempo legalista e ilícito, contra, contra, contracontramão..._ diff --git a/static/images/wp-1532847990956.jpg b/static/images/wp-1532847990956.jpg new file mode 100644 index 0000000..3f1550f Binary files /dev/null and b/static/images/wp-1532847990956.jpg differ