diff --git a/config.toml b/config.toml index fc6120b..fd52135 100644 --- a/config.toml +++ b/config.toml @@ -5,5 +5,8 @@ build_search_index = true default_language = "pt" +[slugify] +paths_keep_dates = true + [markdown] highlight_code = false diff --git a/content/poesia/8951.md b/content/poesia/2018-07-28-B.md similarity index 100% rename from content/poesia/8951.md rename to content/poesia/2018-07-28-B.md diff --git a/content/poesia/2019-01-07.md b/content/poesia/2019-01-07.md new file mode 100644 index 0000000..79deaa5 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-01-07.md @@ -0,0 +1,6 @@ ++++ +title = "água furtada" +date = 2019-01-07 ++++ + +minhas pernas, suas fibras e cordas, apertadas na almofada preta. Seus riscos, suas duras costuras na minha pele queimada; afundam-se contra meu corpo; meu peso, debaixo da janela, entre os vidros o vento vem adentrar na camiseta, feito um balão branco e gelado, meu corpo, no frescor por dentro do algodão se esquecendo, da tela dos vesgos fios de luz chegando por minha íris meu corpo no frio -- seus nervos ligados, meus dedos às vezes duros e difíceis, não sabem falar; minha língua, como um nó entre as patas da vaca; o filme à frente desliza, no tapete duas varetas esfumaçam-se assim é que em verdade há uma clareza que carece ser desconhecida. algo que se precisa interessar ou se perde com facilidade, assim, a atenção é onde se aloja tudo, e num movimento sempre passageiro são as palavras mais duras nas quais vou me deter; a luz na tela dança sozinha, seus sons articulados com cuidado, encadeiam, como uma pedra de gelo deslizando devagar -- como acordar, viver, tomar a vida por si ou; adiar alguma coisa que não se admite; como se a dignidade ofertada, para a qual se precisa verter o corpo inteiro em outra coisa, fosse ela própria não o encontro e a expiação com a morte mas a própria morte já antecipada, ali assim, dizendo, que não há coisa nenhuma que importe além deste consenso; e ter então suas mãos e seus cabelos, e ter suas pernas e seu sexo, e tê-los não para alguma coisa que seja outra, ou para o mundo das conversas humanas, seu descuido; porque você nasceu para ter sua sensibilidade agredida e para entreter e beneficiar os demais, e você será sacrificado. é porque seus pulmões se enchem tão devagar e suas mãos parecem sempre tão leves e quentes. o que chamei frio é só contraste com um calor autônomo, extraordinário, vibrando na paisagem gélida, a terra desolada à sorte do sol. você procurou nisto um sentido ordenado... foi assim que você foi escorrendo, sumindo, você como um líquido, foi sendo bebido, não pôde evitar que entendessem; você agora de pé frente a frente consigo se pergunta e agora? alguém se levanta do tapete, a tela parada me envigora e estico minhas pernas, onde perto das canelas as listras do tecido se carimbam no meu corpo, e assim é que de repente sentindo a ardência de tê-lo esquecido é que me tomo conta, me estico, e a dor repuxa por tudo até que me levanto e penso, no silêncio com que se move uma anta ou uma capivara, mas assim também, lentamente se desfazem. São... sim... os seus olhos no espelho. Por que a pergunta? De repente você deseja que o mundo faça sentido, quer as ideias encadeadas. Mas é assim mesmo que o espelho se volta; impreciso, agramático, um cílio solto que ninguém percebeu cair, carne de coelho, café forte demais, os dias feito uma esteira esquecida ligada, onde o cachorro tenta brincar sem sucesso. A máquina de colorir pixels não respira. Suas projeções estão determinadas de acordo com a série de fotografias que estão dentro de seu código dantesco. Em verdade está morta. Esta máquina é um ente bizarro, frio, com que me sento e no qual toco. É como um ciclope com seu único olho, sobre a boca por onde cospe-me tudo. Que você dirá das plantas, e dos gatos que passaram? E nos quais se precisou deixar alguma marca de cuidado, e para os quais se precisou ter alguma medida de amor, e talvez tenham sido os únicos que se conseguiu entender, assim, sem muito medo do que dissessem, já que sempre estiveram calados e pacientes, bebendo a água que lhes ofereceram, e morrendo calados quando não? Você teria pensado, que por um instante em sua vida estava só, e depois, que isto sempre teria sido um engano. Que todos precisavam crer-se felizes e bem sucedidos, com senso de valor pessoal, de boas decisões, como você também, e que para isso precisavam crer na infelicidade e na inferioridade daqueles ao redor... Na janela o dia ainda é branco. Mesmo o sol sendo peculiar, mesmo as árvores e os macacos sendo outros, mesmo com tudo que se disse, os prédios da capital são brancos, e é justamente este sol que arde nos olhos batendo nesta cor, branca, como agride os olhos neste sol daqui, branca, por todo lado, toda parede, as maiores, desta cor \[...\] no lustre as canaletas se derretem. tanta gente ao meu redor se pergunta sobre o valor das coisas criadas, assim, uma aflição que vai indagando ao sujeito, se está levando tudo a sério, se está agindo bem, de acordo com a sua maturidade. Pede-se que o pensamento seja ordenado, e é justamente assim que criam seus loucos fascistas, assim os chamam, eles próprios se espantam com as cristas das ondas; se estão crendo, implicitamente, que alguma forma de verdade terá de ser imposta, como posso ir lá oferecer-me também à pira funerária, como alguém que não está de posse das próprias tíbias e ombros, como alguém que não sabe das formas todas que já tomou seu cabelo, ou de como ficam as roupas em si; como posso agir assim, como me pedem, especialmente quando por qualquer motivo me desejam, e numa coisa me refazem, e nisto se eludem e me eludem como faço, para primeiro não ter vergonha de dar vazão ao gotejo irreparável disto tudo; e depois, para andar com as plantas dos pés, assim, firmes sobre Abya Yala, como se pudessem subir e descer os Andes, apesar da estranheza, do tema universal de sua capitulação, seu _tatemae_, e mesmo assim, por que o envolve em tantas palavras, e não o liberta, assim, deixando; pelo menos para que sua arte fosse de alguma leveza; mas não -- nesta era não há lugar para a leveza, esta era na qual estamos congelados, e onde riscam-se linhas de números, de anos e dias, neste tempo, corrente, como algo que assiste sempre passando, o olho disforme da janela dispara, na roda de olhos a ciranda vira, seus melhores sorrisos são sempre furtivos, as emoções que importam sempre à paisana; sua vida intensa crescendo, raízes fartas e grossas, chamando animais; ali ao mesmo tempo, fundindo-se no ambiente, ensinando línguas desconhecidas sem grandes complicações. diff --git a/content/poesia/2019-01-24.md b/content/poesia/2019-01-24.md new file mode 100644 index 0000000..e342031 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-01-24.md @@ -0,0 +1,43 @@ ++++ +date = 2019-01-24 ++++ + + na água gelada + o suor como um óleo + se espalha fazendo + formas sem cor, sem rastro + + distante do ralo + de novo + meu peito decola + caindo pela grade + o cheiro do mijo + alguém está com medo e chora + você não quer saber notícias ruins + não quer saber de coisas grandes e graves + não quer saber das vaidades do mundo + da tristeza você não quer + + o que é você + sob o jato de água + rindo + tomando tudo nas mãos + as memórias dos castelos + ainda vivificadas + como um musgo que arde nos olhos + enchendo o nariz de água e de terra + elas estão + vívidas + as galerias, as escadarias, os quadros na parede, + mas sob o jato de água + rindo + que fazer com as palavras que chegam nos ouvidos + por dentro e por fora + você não sabe mas está + dentro do jato de água + rindo + mesmo gelada nunca é o bastante você sabe + há algo enlouquecedor em todo o restante + mas você está rindo + dentro da água + está rindo diff --git a/content/poesia/2019-01-26.md b/content/poesia/2019-01-26.md new file mode 100644 index 0000000..54a5956 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-01-26.md @@ -0,0 +1,7 @@ ++++ +date = 2019-01-26 ++++ + +![Foto em preto e branco de um muro de tijolos baianos com uma viga de madeira atravessada à frente. Uma luminária de bambu está fincada no chão e há vasos com plantas próximos do muro.](/images/cachoeira_2018-11-03-07.27.10.jpg) + +_Cachoeira, outubro de 2018_ diff --git a/content/poesia/2019-01-27-B.md b/content/poesia/2019-01-27-B.md new file mode 100644 index 0000000..d855e7d --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-01-27-B.md @@ -0,0 +1,5 @@ ++++ +date = 2019-01-27 ++++ + +![Arte digital com uma linha cortando a imagem da direita para o canto inferior esquerdo. Uma sombra se forma sob a linha, que gradualmente fica mais suave na parte superior. Sob a imagem, a palavra "Allwera" aparece em letra de estilo manuscrito.](/images/allwera.png) diff --git a/content/poesia/2019-01-27.md b/content/poesia/2019-01-27.md new file mode 100644 index 0000000..044a8c2 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-01-27.md @@ -0,0 +1,17 @@ ++++ +date = 2019-01-27 ++++ + + acolhe-te em si mesmo + deita no teu + próprio colo abriga-te + sejais tua própria lâmpada + aninha-te na luz das paredes + dobra teu corpo num + origami tecendo teias + abraça e respira, no refugo, + ressurja, revigore, com apetite + no olho de novo, sem escolta + sem culpa sem crimes + retorne pêndulo incólume + deita-te, acolhe-me, recolhe-se diff --git a/content/poesia/2019-02-10.md b/content/poesia/2019-02-10.md new file mode 100644 index 0000000..4169ddd --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-02-10.md @@ -0,0 +1,5 @@ ++++ +date = 2019-02-10 ++++ + +De noite a pele se azula e tudo se amontoa numa esfera sonolenta, como uma fumaça de cores sempre frias, mas que nunca se precisam, e cada tipo de dor, e também toda paranoia e coisa comum como essa, vai misturando-se conforme dormem todas as coisas e a noite dobra-se devagar sobre minha cabeça, o tempo alarga-se e as paredes somem, de noite é como uma floresta, e lá fora um campo, uma praia, minhas mãos são como garras pendendo pra fora dos galhos, segurando, com cautela mas também firmes por sua natureza mesmo, de ter alguma segurança nas coisas, de ter alguma necessidade de vida e de encontrar-se com o caos para pelo menos sabê-lo. Quando, de todos os lados a hostilidade se esquece no incógnito, no escuro alto mistério, estou de posse de toda a capacidade que existe, nesse instante me parece afinal, que não era do amor como tinham dele falado que sentia falta. Pois as noites sempre assim estavam, se não com esse brilho tal como o de um rio do Norte, que mistura o verde e o azul igual penas de pássaros, então com um brilho mais amarelado, que vai a amornar as luzes, dando a elas algo de quente, de calor, igual ao fogo quando derrama no papel como se fosse feito para ele, também esse brilho turquesa, deita nos meus olhos nessa noite. São duas coisas bem distintas. É difícil chegar nessa hora, a de ver a chama de uma vela caindo no papel, ver que, mesmo sem que as palavras perturbem a visão, uma coisa é ver e logo converter em observação ou em surpresa, em cima de uma escrivaninha, a chama de uma vela só queima e apaga, mas contra o papel parece esquentar meus próprios olhos, parece esquentá-los, e é como se eles mesmos ficassem amarelos por dentro e por fora. São duas coisas bem distintas. Estão assim. Essa luz turquesa, deixo e amorno, vejo… Gosto dela quando está calma… e na esfera do escuro, é ela quem recorta um rosto, apoiado na própria mão, exausto e inquieto, imerso em sonhos, não posso evitar olhar e achar lindo, as pintas e as cores, as linhas, e com isso ainda, uma disposição a ser verdadeiramente aquele rosto somente… ou as costas, quando o rosto algo murmura e se vira, dormindo as costas agitadas enchem e esvaziam. Há dores e pensamentos, tantos, vejo e ouço passando, gerando no corpo conforme passam, suspiros e outros barulhos que faz, como se fosse um aerofone de sua psique, sensível o corpo transmite, tal como o meu, que suspenso naquelas mãos, que ladeiam o corpo em ângulos tortos, e onde a luz turquesa também desliza, meu corpo é como uma flauta soltando gemidos, e eu queria ser algo como uma esponja disto tudo mas é o ar quando passa, carregando tudo que franze o rosto que vejo, é nele que não posso escolher o que trará, pois trouxe, trouxe ânsias e oásis, camas de pano e luvas de linho, trouxe, livros sobre a Patagônia sobre, os tesouros do senhor de Sipán! Sobre ouro pré-colombiano… Nós nos refrescamos e também nos cobrimos… Sobre essas mãos, contra esses dedos, a luz não me revela nenhum segredo. Olho ao meu redor e tudo está ocorrendo naturalmente. As madrugadas são precisamente assim. É como pensar que a onça descansa durante o dia para caçar à noite. diff --git a/content/poesia/2019-02-19.md b/content/poesia/2019-02-19.md new file mode 100644 index 0000000..1584e64 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-02-19.md @@ -0,0 +1,147 @@ ++++ +date = 2019-02-19 ++++ + + casebre bom é feito disso + tempo escasso + todos os lados + ao escrever as minhas roupas + dão calor excessivo + mesmo que tire insiste que vista + mesmo que ponha há quem insista + que troque e mesmo que troque + há quem + insista que insista + + algo no peito isola e comanda + vem de baixo + e ali + de todos os lados + as letras do lado de fora são duras + são pedras com as quais só se fazem + muros e treliças + + não portais + nem estilingues + ou catapultas + só represas + torres de tiro… + + olho para cima sorvendo + as gotas despencam sobre tudo e mesmo assim + minha pele é um pararraios no escuro + espero e ouço nas horas + o barulho dos gatos por cima dos muros + as voltas da história e as batidas no peito + as flores de Angola aparecendo caladas + nos leds, nas folhas dos livros + num mapa Isla Grande de Tierra del Fuego e também + alguém querendo que me abaixe, + que corte os cabelos, que me cale, que entregue… + + é um herege + xingando no escuro + inseguro + desgovernado o corpo violento se exime + brandindo bandeiras + quantas vezes nessa cara o mesmo tapa + exigindo + e vindo + do mesmo lado do muro, + atesta inocências + quer que carregue culpa + vai dançando + a sua dança de cristo + querendo que eu sinta suas chamas sem luz + não quero + teu drama + é meu cotidiano tinto + tua ficção + na minha janela desperta + teu reclame + é a minha moleira que nunca se fecha + + arredia + fraca e roliça massa de pizza + se abre redonda até a borda + quebradiça + você não acha poética + a calabresa + lenta dobrando crocante pra dentro + não está vendo + no forno o preto, o amarelo + tremendo e morrendo + mas espera + nos sons do poema de novo a careta + incerta + olha e me empresta, + tua mente completa + deserta, + na qual imprime, + e repete + como alguém que espera no ponto + sempre corriqueiro um crime hediondo + comendo do mesmo pão e bebendo + da mesma água me empreste + tuas mãos teus olhos e ouvidos + me perceba e me beba afinal + sou eu que engole com os olhos + a luz laranja no poste da travessa + tingindo nos fios os picotes de sacola + são rabiolas + presas pra sempre só servem mesmo + de alimento pros olhos e de placas aos pássaros + sim, sou eu, + + olhando, esperando, + no silêncio uma vida de novo + querendo aprender a ser tola pedindo + que me ensine a ter cada vez mais carinho pois sinto, + preciso, + não tornar-me em algo bom ou mesmo limpo + mas poder dar contornos de cuidado + fazer + com a palha um pequeno e caótico ninho + escolha-me + na palheta de sombras, nas gavetas redondas, + no cemitério de pontas, me ache + no cinzeiro, no fundo, da caixa de costelas, + nos buracos dos rios, + nas buchas faltando por entre os parafusos me escolha + à espreita, ali, sempre à paisana + me ache e me leve + enerve + me imprima e depois me recarregue + + toma tua lança, tua máscara de guerra + quebre a catraca, inverta a cancela + reverta a rosa preta de volta ao botão + enterre-a com sonhos e promessas no chão + não mais um cético um cínico, não faz assim + fazendo poesias como um fantasma não + envigora-me com teus erros + seja + imperfeita, voraz + joga-me + brinca imatura, enverga, recua + na tela pintando as cores da rua + é assim que vai me ensinando + a não ter medo das letras, + das crias, das rugas, dos fluidos + e ter + até hoje lágrimas de não + orgulhar-me de ter crescido, é isso + teus sons na madrugada é que o dizem + todas as coisas já estão feitas + insisto + não preciso dizer nada, deixar cair + nem um único cílio + já está + tudo perfeitamente escrito + e dito + desde sempre + ainda que possa + dizer e dizer, sem limite, sem grosso, sem fino + já está + tudo perfeitamente escrito + e dito diff --git a/content/poesia/2019-04-18.md b/content/poesia/2019-04-18.md new file mode 100644 index 0000000..6fd503c --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-04-18.md @@ -0,0 +1,5 @@ ++++ +date = 2019-04-18 ++++ + +No meu próprio tempo também devoro. Quero abrir a boca até soltarem-se os côndilos, num ângulo negativo, lentamente como um monstro marinho, imenso, inevitável... Neste meu próprio tempo procuro coisas preciosas que só encontro nele. E lá encontro por vezes algo tão raro, tão grande que consigo suster uma respiração só por horas e horas, ou mesmo dias. São coisas muito pequenas que nos atravessam. No outro tempo. O tempo que passa zunindo e que elege presidentes mas não derruba-os, que faz saírem moedas e notas da caixinha, neste tempo, onde há perfeição, e uma felicidade nostálgica, estranhamente perfeita, cheia de sombras e acidentes bizarros, mas ainda assim algo como uma outra infância, uma exploração do fascínio, uma entrega pelo que é não somente bom como o concebem nas igrejas mas, muito antes disso, _curioso_, uma exploração do caminho a que a vida naturalmente leva quando assim vivida, e como te carrega na direção que você caiu, como se não dependesse mais de alguém te aceitar ou não porque te aceitam de verdade e você não precisa ter coragem o tempo todo... Não basta se realizar e sorrir, sendo feliz, sem este revés. Sem isso, não passa de euforia. Você não pode acreditar em um espetáculo. Ou desejar uma felicidade maior do que aquela que possui quando está só. É como não querer envolver-se com os outros por desejo de conhecer a si. É um desengano. Mas quem está neste tempo? neste tempo estou só: quase ninguém me visita nele. Tenho que ser tudo isso, ser, ser um corpo assim, vivo, e como é forte a pressão que vem quando pega-se o corpo e o coloca no mundo... Como se exige de cada corpo só por estar presente, é visível a tensão na qual vive quase todo corpo, sempre tenso e confuso, ainda que convicto, é difícil, ter que suster uma tranquilidade tão rara e difícil para poder demonstrar na prática que seu corpo não merece ser menos do que isto, este corpo no mundo, nem produtor, nem produto (...) diff --git a/content/poesia/2019-07-05.md b/content/poesia/2019-07-05.md new file mode 100644 index 0000000..929a4d8 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-07-05.md @@ -0,0 +1,71 @@ ++++ +date = 2019-07-05 ++++ + + onde + vai beber de onde? + vai deitar na fonte + vai cantar + vai comer + + onde? + vai subir nos montes + vai encher estantes + ver o rio subir + descer + + onde? + por qual cristo, ou conde + na veia fechada, as pontes + no cabelo, o parecer + + onde? + no meu corpo afronte + quantas casas onde + esqueci-me de dizer + + onde? + vai fazer por onde + não o que se esconde + é viver ou viver + + dance + ou então cante + nesse tempo, alcance + corra pra correr + me ataque, afronte + mas me descanse + pra água descer + dance + quando os portais num transe + feito um rastro, volante + vierem de novo me comer + me alçar ao fronte + ao momento, instante + arranhe + pelo poço estranhe + não espere + não clame + não me ajude a apodrecer + + onde? + é o tempo estanque + eu me preparo + remonto + não consigo arrefecer + + dance + no meu olho falante + na minha língua arranque + eu não vim para dizer + + dance + esqueça o tempo, palanque + o relógio, o pequeno, o grande + o parar e o correr + + dance + contra o concreto, e o vacilante + contra o terror e o prometer + + dance diff --git a/content/poesia/2019-07-22.md b/content/poesia/2019-07-22.md new file mode 100644 index 0000000..9c8fc3b --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-07-22.md @@ -0,0 +1,97 @@ ++++ +date = 2019-07-22 ++++ + + o rosto na foto + o rosto ausente + um rosto no colo + rosto presente + o rosto no copo + rosto não mente + o rosto futuro + rosto crescente + o rosto na moto + rostos em frente + o rosto em foco + rosto potente + o rosto na tela + é displicente + o rosto passado + rosto sem dentes + o rosto lavado + impaciente + o rosto no tempo + tempo presente + um rosto na foto + ou rosto quente + é um rosto com tudo + passado o pente + o rosto sem furos + rosto decente + o rosto encerado + rosto de gente + um rosto delgado + sem precedentes + não rosto marcado + é um rosto crente + o rosto sem pele + rosto contente + um rosto em paz + ou que intente + o rosto que quer + ser transparente + o rosto sem olhos + rosto silente + o rosto que crê + e repreende + + descolonizar a América + descolonizar + descolonizar + descolonizar a América + + te repreende + o rosto que crê + o rosto silente + rosto sem olhos + sem trans presentes + o rosto quer mais + que você tente + rosto em paz + rosto contente + um rosto sem pele + rosto dormente + é rosto marcado + de precedentes + um rosto delgado + rosto doente + esse rosto acabado + não é decente + o rosto e seus furos + abrindo a corrente + é um rosto com tudo + escondendo os dentes + o rosto na foto + nunca é inocente + rosto machucado + impaciente + não foi lavado + é comida pra lente + rosto escaneado + I.A. doente + o rosto na tela + rosto potente + o rosto em foco + os rostos em frente + um rosto na moto + muitas patente + o rosto futuro + no corpo na mente + o rosto aprendiz + rosto presente + um rosto no colo + o outro ausente + na foto sem rosto + o rosto não mente + um rosto é no tempo + o tempo presente diff --git a/content/poesia/2019-09-25.md b/content/poesia/2019-09-25.md new file mode 100644 index 0000000..aa10bd0 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-09-25.md @@ -0,0 +1,11 @@ ++++ +date = 2019-09-25 ++++ + + + + mesmo sem terem nome + você encontra os portões + de novo e de novo + + diff --git a/content/poesia/2019-10-08.md b/content/poesia/2019-10-08.md new file mode 100644 index 0000000..6f65c4f --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-10-08.md @@ -0,0 +1,5 @@ ++++ +date = 2019-10-08 ++++ + +![Fotografia de um rosto com filtro. É possível ver apenas uma silhueta, com sombras para cima e para baixo do rosto formando um formato de vaso.](/images/duna-ii.jpeg) diff --git a/content/poesia/2019-11-13.md b/content/poesia/2019-11-13.md new file mode 100644 index 0000000..f45311c --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-11-13.md @@ -0,0 +1,32 @@ ++++ +date = 2019-11-13 ++++ + + um spot de luz quadrado + grande + fixado ao teto + e outros três menores + paredes revestidas com papel de parede + painel/cabeceira em L na cor cinza + com + uma tomada dupla + uma caixinha para antena + + uma cama box de solteiro com quatro almofadas + uma escrivaninha na cor + cinza + com uma cadeira estofada com pés de madeira + um abajur de madeira + janela veneziana de correr + com tela de proteção na cor branca + persiana de rolo + em bom estado + um armário na parte superior + com duas portas + uma caixinha para telefone + tomada simples + um interruptor duplo com tomada + guarda-roupa com três portas + de correr + sendo uma delas + espelhada. diff --git a/content/poesia/2019-12-16.md b/content/poesia/2019-12-16.md new file mode 100644 index 0000000..9ef6d94 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-12-16.md @@ -0,0 +1,22 @@ ++++ +date = 2019-12-16 ++++ + +eu conecto \ +lembro \ +_me_ lembro \ +eu mesma anoto \ +retorno \ +e invoco \ +retomo \ +essa concentração \ +cem mil vezes se necessário \ +amarro os cadernos \ +como âncoras titânicas \ +toneladas nesse Oceano forte \ +é onda do leste \ +estou aqui \ +de pé \ +eis o convite \ +quem está pronta \ +a reentravar esse mundo? diff --git a/content/poesia/2019-12-18.md b/content/poesia/2019-12-18.md new file mode 100644 index 0000000..f75d815 --- /dev/null +++ b/content/poesia/2019-12-18.md @@ -0,0 +1,11 @@ ++++ +date = 2019-12-18 ++++ + + + + cuidado + que o piso + é liso + + diff --git a/content/poesia/a-passagem-secreta.md b/content/poesia/a-passagem-secreta.md new file mode 100644 index 0000000..bb00d40 --- /dev/null +++ b/content/poesia/a-passagem-secreta.md @@ -0,0 +1,12 @@ ++++ +title = "A Passagem Secreta" +date = 2019-11-24 ++++ + +
meu refúgio é a poesia
+ +você me disse algo confuso, não me lembro bem o que tinha sido, parecia algo muito diferente dessa escritoterapia que me une os fios do tempo e da vida. o que faço eu com tuas ferramentas cristianas, o limo e o cheiro que nelas tem, se não observar e esmiuçar também, pô-las na lupa, ver seu desenho, descobrir para que são e como me afetam. é o que você tem , o que herdou, posso entendê-lo, mas para mim são como instrumentos de tortura. + +
os ovos carregam a vida
+ +testo as águas dizendo ou ouvindo algo, qualquer coisa, quero ver se me aflige, e aflige — está na sua mente este deus pesado, e você busca encontrá-lo, no mundo ou na morte, mas busca — já me haviam ensinado, mas você sempre quer que eu esqueça, entre teus instrumentos vejo, o que, para apagar e contorcer as memórias, entortá-las, fazer parecer que teria sido eu — eu, você aos poucos ensina, faz a linha, me risca, para que seja eu, e tenha de insistir em sê-la, e defendê-la, esta eu, na beira da rodovia ou no lixo, a deixa, eis-me aqui, desfeita — bebe-me, come-me, nunca se dá por satisfeita... diff --git a/content/poesia/angelica-215.md b/content/poesia/angelica-215.md new file mode 100644 index 0000000..8019955 --- /dev/null +++ b/content/poesia/angelica-215.md @@ -0,0 +1,52 @@ ++++ +title = "Angélica 215" +date = 2019-11-09 ++++ + + de novo no rastro e na sombra + meus tiros todos em cheio + e ali + vejo falsas soldados + no parapeito + atirando na contramão + + eu luto e desafio fantasmas + meus seios vazios de novo + se enchem de esperança de graça + de força e fogo desordeiro + + as crianças juntam as mãos + oram e agradecem + é assim que une-se a elas + a mão quente do deus da guerra + + e o Tempo + e o rio de lama vermelha + e a gota de chuva ácida na telha + são soda ardente + na minha garganta que azia + + depois + os olhos se vão + como fendas no campo de centeio + eu + sempre no meio + fazendo a cerveja com as mãos + + entro na água e ligo as bolhas + seu corpo é como o maior dos guardiões + me esconde + e estapeia + num acordo eu acordo de novo + é a tua íris brilhando no escuro + assim + nem preciso ver + nem preciso dizer + explicar + só o sorriso mesmo + é você que me arranca + daqui + deste mundo pequeno + falando + finalmente + a única língua que eu aprendi diff --git a/content/poesia/consultorio.md b/content/poesia/consultorio.md new file mode 100644 index 0000000..aefb43f --- /dev/null +++ b/content/poesia/consultorio.md @@ -0,0 +1,56 @@ ++++ +title = "Consultório" +date = 2019-12-16 ++++ + + animais raros na encosta sentem-se perdidos + chegam e vivem quase em silêncio + incomoda-lhes a verdade alheia + ou o desejo + todo senso egoísta + mais ou menos preciso + quem está sozinha + concentrada + refinando + pondo brilho no fio desta faca + com a qual defende um pequeno território + sacos de areia + paredes de madeira + meia rima + rima inteira + sou + parapeito + extrema unção + verdade fácil + excesso de doutrinação + + soltas as pirilampos + brincam em ser fadas + fadas + incendiárias + prendendo a respiração + + olhando para o outro lado + espero o Sol no ocidente ocupado + vejo + fogo nas caravelas + bandeirantes em pânico + memoriais + desconhecidos + + estou no plantão com o Fogo Vermelho + vejo chegar + vejo partir-se em três + + são nove peças finais + um freio + um leque de metal + uma viola, mizinha arrebentada + uma cortina de juta + duas casas de terra + dois lembretes em forma de estatueta + uma roda de olhos tranquilos + girando como areia + redemoinho + poeira velha + fraco rastro dos caminhos diff --git a/content/poesia/declamacao-na-prateleira-preta.md b/content/poesia/declamacao-na-prateleira-preta.md new file mode 100644 index 0000000..1f12534 --- /dev/null +++ b/content/poesia/declamacao-na-prateleira-preta.md @@ -0,0 +1,68 @@ ++++ +title = "Declamação na prateleira preta" +date = 2019-08-07 ++++ + + o verbo + contra o verbo + a técnica + contra a técnica + a guerra + contra a terra + a vida contra a vida + é muito pouco ainda + estar do lado certo da história + fazer o justo dizer o correto + muito pouco ainda + pois não é questão de justiça + de dentro + do lado de dentro + do esqueleto na cela + na quarta parede + fechada + há redenção e não justiça + justiça terrível desgraça + a justiça julga a justiça + busquemos justiça mas + é justiça terrível justiça + que justiça, quem justiça + + e a quem justiça + mas justiça + + invariavelmente justiça + a alguém, quase sempre quem? + justiça sem enganos, justiça. + + as manchas de tinta + são lindas + fazendo tons dos mais estranhos, se juntando + a parede + transpira + andam por todo o mundo, em todas as direções, + ratos, cachorros, gatos, baratas, onças, formigas + o dia todo um barulho de água + caindo da laje aqui dentro tudo está seco + mas úmido + + – sem janelas – + num silêncio assim + como que numa caixa + admito minha carência de remédios + minha tensão + as dores no corpo + e as premonições + vejo meus olhos são periscópios sou toda + ultravioleta minhas mãos são + feitas para dosar letras meus ouvidos engolem e devolvem + duas roxas canaletas não importa ter escrito senão lembrado + da beleza, tê-la visto, procurado, e descartado a transcendê-la + sou + agora desanuviadamente + uma parede fria que a luz quente acende + se apaga no escuro dorme + enrijece + treme + se estica + como um canto que chega aos tiros + e termina lento diff --git a/content/poesia/diarios-da-casa-dobrada-002.md b/content/poesia/diarios-da-casa-dobrada-002.md new file mode 100644 index 0000000..84173da --- /dev/null +++ b/content/poesia/diarios-da-casa-dobrada-002.md @@ -0,0 +1,6 @@ ++++ +title = "Diários da casa dobrada 002" +date = 2019-11-19 ++++ + +Tudo está em tradução. Sem subestimar você nunca teria um mercado de estudantes pra explorar. Estamos sempre vertendo. É preciso. Vamos fazendo a língua — eles correm atrás. Nós estamos sempre ouvindo e refazendo esse pão que querem tirar. Preservamos e tiramos o pó. Há quem queira colocar mais pressão, mas tudo está dizendo que o caminho é o de arrancar essas fronteiras do chão e dar de todo o coração até que se extingua esta medicina que o havia separado do restante do meu corpo e o desejado para apartar seu desejo reprimido. Estou só tentando firmar meus pés de novo. Eu já estou formada, todo este corpo já foi e já voltou, sempre torna-se assim mas é tanto para um só corpo, como se o espaço fosse pouco, e se não posso escrever, de fato escapo. Vou sempre tentando pagar a conta dessa letra escrita, é ela no fim que eu busco. Quero ouvi-la ser dita, cantada, quero lambê-la, vê-la ser escrita, e lida, sentir o cheiro dela quando faz cheiro, e se ela dança quero ser sua bailarina. Os olhos fixam-se sempre no corpo mas não é por isso que somos importantes. É lindo tornar até mesmo o corpo poderoso, mas é no desajuste que alguém se fixa e aí nasce todo o restante. Você quer empoderar-se mas isso exige um cuidado que a dor da culpa ensina mal. Se o poder que você conhece é o deste deus da morte que nas igrejas se cultua, quem irá segurar a sua ira? Em tudo estará o diabo, como se pudesse também possuí-la? Não queria explicar-me de novo e de novo. Se alguém se fixa demais nisso então a carne vira um objeto. A carne é uma continuidade, uma ligação imediata com o todo, não existe lá _a carne_ e então uma outra coisa. Não há pecado. Olho o corpo e vejo isso. Se ele engana ou fere, é natural que se corrige mas o que eu faço com o invisível? Se sou eu também só véu tênue de censura na tua ecologia — Como posso viver com você se sinto que quando me ver perder o controle vai partir para cima como se fosse sua oportunidade de atacar e punir feito polícia? O corpo que quer ser outra coisa é que complica-se. Não conhece o amor, então também o separa e faz em outra coisa, um conjunto de demonstrações. E as procura. Faz isso também com a mente. Assim considera a inteligência como separada da sabedoria, externa, mística, para ser alcançada na distância. Antes e depois de topar com um dos dois já está aflito. Retêm o saber e crê ser sua transmissão impossível. Isto nulifica o sujeito, ele torna-se nada, então preenche este nada com os objetos já que sobre eles não se esperava que pudesse ter aprendido... Diz ter sido separado e se acomoda na busca por ser reunido. Este movimento é eterno, e não posso perder um segundo dessa vida, nem colocar ela em nada. Ou sou ela toda ou estou perdida. Se alguém insinua que sou complicada demais é porque está preparando-se para me trucidar. Já assisti todos os filmes. Você não pode olhar a carne e querer dela mais do que é. Não pode sonhar com a pureza e depois querer o prazer. Não pode. Querer rebelar-se e depois impor-se. Não quero repetir, ser pessoa, personalidade, só isso, quando sinto inchando na caixa torácica que minha sobrevivência está ameaçada, e que só não o digo porque a sobrevivência me foi tirada como palavra, porque quiseram garanti-la, quiseram fornecê-la, torná-la em propriedade quantificada, isso já é palavra cantada desse coral de superegas implantadas, mas é de um tédio enorme ter de adequar-se a esta cultura e suas tanatocracias quando eu poderia, poderia, não posso ter outro poder que não o meu, outra cara que não a minha, outra experiência e outra fome de criação que a minha. Olho este oceano inteiro e sei que não é para alguém tão mesquinho quanto um deus que se deveria entregar essa vida. Às vezes alguém tenta me pressionar com as armas que eu mesma aprendi a usar para defender-me. Preciso olhar por muito tempo para entender. Mas uma hora eu sempre chego. diff --git a/content/poesia/fogo-na-vigilia.md b/content/poesia/fogo-na-vigilia.md new file mode 100644 index 0000000..4096de6 --- /dev/null +++ b/content/poesia/fogo-na-vigilia.md @@ -0,0 +1,122 @@ ++++ +title = "Fogo na Vigília" +date = 2019-10-25 ++++ + + grávida + e de madeira + foi quebrada em Roma + e jogada no Tibre + da Igreja de Santa Maria + Transpontina + isso mesmo + Maria + era dia de Sínodo + de ouvir, de ouvido + assim são os bispos + católicos ou autoincumbidos + fazem parecer + mas têm os tímpanos rígidos + fecham-se e regurgitam + vivendo do próprio vômito + comendo da própria carne + vendendo seu próprio mito + do próprio suor + querem ser vida + bebe o sangue + pois tornou-o no Cristo + não foi isso? + que altiva + sua ética capitalista + nem protestante, nem socialista + mas uma só hóstia + eucarística + não mata minha fome + demoníaca + foi assim que erigiram + alimentaram + século após século + demônios de quem ninguém tinha falado + criaram + quando exorcizaram + só libertaram-me + não foi? + para fora do teu corpo então + já que quer ser divina criação + outra + coisa pura sem pecado + todo mal originado + deixa-me ver + nunca consegui me esquivar de fato + das tuas exigências angelicais + sempre que ficou do lado do bem e da pureza + deixei + fique então + este é o teu lugar + teu púlpito urdido + você se cega perto de estetas + tantas imagens de santos + louvores e glórias + glória + laica, religiosa, legalista + na tua formalidade binária + como uma cachoeira inteira + caindo no ralo da pia + + mas e aqui + neste Mundo enorme + abandonado para a chegada de Vênus + fazer a criação + depois do caos + dos Padres da Igreja + e seus enganos + do seu apocalipse + sua guerra de destruição + a Era de Javé + o deus da guerra + no fim + pra mim + é a era de ouro + a Terra Prometida + a paz que não seria + trazida pela polícia + nunca entendi + quando você falou de família + + vão logo para o céu + daqui os santos cuidarão + levem seus históricos intactos + os passados nostálgicos + seu apego ao trabalho + sua ordem de palavras + dizeres, letras no papel fino + coisa morta para um Corpo tão vivo + nunca caíram seres + somente elevaram-se alguns + subiram, foram-se + este é o movimento para os céus + o do abandono + do desejo pelo não-desejo + vão + subam então + no altar ou no palco + o que lhes aguarda? + a dúvida + para quem quer + vida eterna + fica a eterna questão + do tempo + do depois + da continuidade + de nunca ter sabido o que se era + ou o que era isso + tua vida + e a minha + nossa linha tão fina + que a gente cortou + você partindo pro paraíso + ou guardando-se nas paredes do templo + com reis sábios + e velhos profetas + andando com os pés juntos + somente nas linhas retas diff --git a/content/poesia/princesa-isabel-303.md b/content/poesia/princesa-isabel-303.md new file mode 100644 index 0000000..4a73f29 --- /dev/null +++ b/content/poesia/princesa-isabel-303.md @@ -0,0 +1,47 @@ ++++ +title = "Princesa Isabel 303" +date = 2019-01-25 ++++ + + quem viver, viverá + quem tiver um nome, terá + contatos no telefone, porá + que pra caso te procure ou chame + irá + + aquele que ver, verá + quem tiver de vir, + virá + quem for de ouvir + ouvirá + e quem não for + será + + mas quem viver + tendo olhos + tendo rins + e trovões presos atrás dos olhos + quem em silêncio souber + as línguas desconhecidas… + quem tiver + tripas, fluidos, + dejetos, quem tiver + bílis, muco, quem tiver suor quem tiver cheiro quem tiver + lágrimas quem tiver pus quem tiver saudade quem tiver + medo quem tiver gordura quem tiver saliva vômito urina quem tiver sangue + as marcas todas na cara + saberá + + estará + recolhendo-se para dentro + em paz mesmo sabendo + que os demônios é que cuidam deste mundo + e os anjos vão só os deuses convencendo + de que o paraíso está tranquilo + que seus poderes são temidos + e de que o povo está feliz + não para cuidar do povo, + que cuida-se muito bem sozinho + mas para cuidar dos deuses + que enfurecem-se com facilidade + e vão causando destruição... diff --git a/content/poesia/vapor-mestico-ii.md b/content/poesia/vapor-mestico-ii.md index b1b312d..a4b8f55 100644 --- a/content/poesia/vapor-mestico-ii.md +++ b/content/poesia/vapor-mestico-ii.md @@ -1,8 +1,6 @@ ---- -title: "Vapor Mestiço II" -date: 2019-11-16 -categories: - - "poetica" ---- ++++ +title = "Vapor Mestiço II" +date = 2019-11-16 ++++ -_Ali olho conforme a lente da câmera filma. É o olho do mundo inteiro de fato, mas também o olho da máquina fria, de toda tecnologia. É assim que ela devolve, no seu vidro imóvel, na máscara rígida. Nela estão inscritas todas as fabricações, de uma nova estética, todo o sintético, todo o plástico e o vidro, ele mesmo, feito e vindo do petróleo e do cristal fino, que são toda outra coisa, são base, chão, vida vertida, feito o filme que me compõe e constitui o entorno vivo, e ainda que rápido ou devagar se cante ou dance, só se ouvirá um timbre, e mesmo que tudo aponte para sua totalidade a lente usa-se somente para celebrar a separação, fazer parecer que é verdadeira divisão; por isso ela também traz em si mesma já a tela, olha e já cospe, em cada uma das quatro linhas escrito o limite, e no limite de cores também está dado o restrito, assim é que as letras são outras que deixam de ter sua função, e a palavra não é mais fruição nem ideia capaz de causar um tilt, o olho na tela se cala e a luz acaba sendo tudo — mesmo que do Sol nenhum farol ainda ganhe, mesmo que o fogo ainda confunda qualquer câmara que abre-se e fecha-se em um milésimo de segundo mas não sabe o que fazer com o fogo, seu contorno descontorno, ou com a folha se a leva o vento, ou com a areia se a molha a água, assim como gramáticos olhando pronomes, viram limite, limítrofe muro fino de prisão, viram significado avesso, nunca refletem um único raio torto ou mesmo tingido, não é nada que se possa apanhar com a mão, dado ou distribuído para a população, é voo revoada, óleo na água, golpe em Chuquiago, assim toda foto torna-se desejo íntimo de ter vivido o não-vivido, toda informação torna-se desejo íntimo de ter sabido o não-sabido, não há mais erótico não há mais poético poetise poetisa poetiso, não há mais sentido, corpo, porque não se sabe mais — do alimento, da água que antes bebia a mesma língua que hoje se mordia mais do que nunca como as beiradas da boca e das bochechas por dentro comendo como se procurando uma saída, ouvindo e vendo, tudo está escrito desde o começo eu já dizia, que havia sido anunciada a verdade ela sabia, ensinava e pregava desde então já a seguia, há dez ou seis mil anos atrás preste atenção está atenta e viva, nua correndo na via, de toda posse todo reboliço, sempre coberta de cinzas ela mesma você sabe e não precisa… esfumada a palavra solta está caótica. Ela pede que parem todos os semáforos e avenidas para ser ouvida e lida, escoa rápido demais, não há o que segure a torrente individida, entra como fogo vermelho queimando a parede e sobe sem ventilação, fumaça preta chamuscando a cidade inteira, não há corretor automático cancela ou corrimão, rolinho ou jato de compressão, que a segure, ela passa por cima deslizando com a prancha ou com a bunda, está perfeitamente louca como veio ao mundo, recusando-se a ser educada ou a ceder até menos que um dízimo da sua mente que opera, opera o caixa opera corrigindo os erros do seu programa ambicioso opera — opera empilhadeiras e servidores, opera, são essas mesmas mãos que teriam dito não serem mais necessárias, pois creram que tinham inventado mentes, inventado nova inteligência, mera supercalculadora supertrabalhadora superamplificadora supercontroladora o dicionário automático sugere sugere sugere mas falta neologismo para uma vida tão breve num mundo nesse ritmo, o oceano está levando e as torres erguem-se e caem-me cantando músicas de amor e daquela vontade antiga e violenta de criar uma multidão capaz de defender-se sem medo ou compromisso, que tivesse reconhecido seus semelhantes e esquecido das promessas e mentiras das quais hoje se depende, dizendo, dizendo, com esta mesma máquina, no mesmo lugar de sempre se escondendo, lá na multidão, na vinte-e-cinco entre aquela e aquela outra, ninguém vê, ninguém pressente ou retorna, assim é que se observa o tempo que de fato corre, e toda poça de amanhã que está presa sob o sol esperando para virar chuva, e cada gota que abraça cada larva de mosquito também, e de todo ódio e doença, e da guerra biológica e técnica contra o terceiro-mundismo, ficam as memórias de ódio e de resistência mas você tinha também que enfrentar esta batalha sozinha, segurar nas mãos de alguém mas também soltá-las se ficassem frias, você ia, era o ônibus e o trem que no chão de lata pisaria, para não ir no teto ou lembrar se pela janela surfaria, era a vontade, o risco e a transmissão, repetindo para lembrar-se, não esquecer-se da missão, de ter vindo, de estar indo, da sua memória, seu próprio sertão, sua falta de água, falta de carga, metal leve ou pesado, no sangue, na caixa, nos venenos do garimpo, era seu único corpo para o qual não se tinha inventado perdão, contenção, linha reta, linha torta, qualquer meio, forma, arreio feito de intenção, pedra dobrada, parede pintada, nuvens de pó, voando na contramão, sujando de novo sua roupa tão carinhosamente urdida, limpa girando numa máquina redonda e calada, tomada ligada, elétrica vassoura de piaçaba, é isso, você não ouvia mas ela falava, segura palavra cantada, coqueiro japeraçaba, a nuvem era multidão, suja voz feminina na contramão, contrafeita contravenção, contrassexo contratempo contraponto contração, contra o arreio contraluta, a tua saúde no limite de um ministro que a ajuste, que se ajuste, injuste império, leviatã, contra a gente, contra o certo, contra o prometido e todo o seu desenvolvimentismo, ao mesmo tempo legalista e ilícito, contra, contra, contracontramão..._ +Ali olho conforme a lente da câmera filma. É o olho do mundo inteiro de fato, mas também o olho da máquina fria, de toda tecnologia. É assim que ela devolve, no seu vidro imóvel, na máscara rígida. Nela estão inscritas todas as fabricações, de uma nova estética, todo o sintético, todo o plástico e o vidro, ele mesmo, feito e vindo do petróleo e do cristal fino, que são toda outra coisa, são base, chão, vida vertida, feito o filme que me compõe e constitui o entorno vivo, e ainda que rápido ou devagar se cante ou dance, só se ouvirá um timbre, e mesmo que tudo aponte para sua totalidade a lente usa-se somente para celebrar a separação, fazer parecer que é verdadeira divisão; por isso ela também traz em si mesma já a tela, olha e já cospe, em cada uma das quatro linhas escrito o limite, e no limite de cores também está dado o restrito, assim é que as letras são outras que deixam de ter sua função, e a palavra não é mais fruição nem ideia capaz de causar um tilt, o olho na tela se cala e a luz acaba sendo tudo — mesmo que do Sol nenhum farol ainda ganhe, mesmo que o fogo ainda confunda qualquer câmara que abre-se e fecha-se em um milésimo de segundo mas não sabe o que fazer com o fogo, seu contorno descontorno, ou com a folha se a leva o vento, ou com a areia se a molha a água, assim como gramáticos olhando pronomes, viram limite, limítrofe muro fino de prisão, viram significado avesso, nunca refletem um único raio torto ou mesmo tingido, não é nada que se possa apanhar com a mão, dado ou distribuído para a população, é voo revoada, óleo na água, golpe em Chuquiago, assim toda foto torna-se desejo íntimo de ter vivido o não-vivido, toda informação torna-se desejo íntimo de ter sabido o não-sabido, não há mais erótico não há mais poético poetise poetisa poetiso, não há mais sentido, corpo, porque não se sabe mais — do alimento, da água que antes bebia a mesma língua que hoje se mordia mais do que nunca como as beiradas da boca e das bochechas por dentro comendo como se procurando uma saída, ouvindo e vendo, tudo está escrito desde o começo eu já dizia, que havia sido anunciada a verdade ela sabia, ensinava e pregava desde então já a seguia, há dez ou seis mil anos atrás preste atenção está atenta e viva, nua correndo na via, de toda posse todo reboliço, sempre coberta de cinzas ela mesma você sabe e não precisa… esfumada a palavra solta está caótica. Ela pede que parem todos os semáforos e avenidas para ser ouvida e lida, escoa rápido demais, não há o que segure a torrente individida, entra como fogo vermelho queimando a parede e sobe sem ventilação, fumaça preta chamuscando a cidade inteira, não há corretor automático cancela ou corrimão, rolinho ou jato de compressão, que a segure, ela passa por cima deslizando com a prancha ou com a bunda, está perfeitamente louca como veio ao mundo, recusando-se a ser educada ou a ceder até menos que um dízimo da sua mente que opera, opera o caixa opera corrigindo os erros do seu programa ambicioso opera — opera empilhadeiras e servidores, opera, são essas mesmas mãos que teriam dito não serem mais necessárias, pois creram que tinham inventado mentes, inventado nova inteligência, mera supercalculadora supertrabalhadora superamplificadora supercontroladora o dicionário automático sugere sugere sugere mas falta neologismo para uma vida tão breve num mundo nesse ritmo, o oceano está levando e as torres erguem-se e caem-me cantando músicas de amor e daquela vontade antiga e violenta de criar uma multidão capaz de defender-se sem medo ou compromisso, que tivesse reconhecido seus semelhantes e esquecido das promessas e mentiras das quais hoje se depende, dizendo, dizendo, com esta mesma máquina, no mesmo lugar de sempre se escondendo, lá na multidão, na vinte-e-cinco entre aquela e aquela outra, ninguém vê, ninguém pressente ou retorna, assim é que se observa o tempo que de fato corre, e toda poça de amanhã que está presa sob o sol esperando para virar chuva, e cada gota que abraça cada larva de mosquito também, e de todo ódio e doença, e da guerra biológica e técnica contra o terceiro-mundismo, ficam as memórias de ódio e de resistência mas você tinha também que enfrentar esta batalha sozinha, segurar nas mãos de alguém mas também soltá-las se ficassem frias, você ia, era o ônibus e o trem que no chão de lata pisaria, para não ir no teto ou lembrar se pela janela surfaria, era a vontade, o risco e a transmissão, repetindo para lembrar-se, não esquecer-se da missão, de ter vindo, de estar indo, da sua memória, seu próprio sertão, sua falta de água, falta de carga, metal leve ou pesado, no sangue, na caixa, nos venenos do garimpo, era seu único corpo para o qual não se tinha inventado perdão, contenção, linha reta, linha torta, qualquer meio, forma, arreio feito de intenção, pedra dobrada, parede pintada, nuvens de pó, voando na contramão, sujando de novo sua roupa tão carinhosamente urdida, limpa girando numa máquina redonda e calada, tomada ligada, elétrica vassoura de piaçaba, é isso, você não ouvia mas ela falava, segura palavra cantada, coqueiro japeraçaba, a nuvem era multidão, suja voz feminina na contramão, contrafeita contravenção, contrassexo contratempo contraponto contração, contra o arreio contraluta, a tua saúde no limite de um ministro que a ajuste, que se ajuste, injuste império, leviatã, contra a gente, contra o certo, contra o prometido e todo o seu desenvolvimentismo, ao mesmo tempo legalista e ilícito, contra, contra, contracontramão... diff --git a/static/images/allwera.png b/static/images/allwera.png new file mode 100644 index 0000000..0d267e2 Binary files /dev/null and b/static/images/allwera.png differ diff --git a/static/images/cachoeira_2018-11-03-07.27.10.jpg b/static/images/cachoeira_2018-11-03-07.27.10.jpg new file mode 100644 index 0000000..3b913d6 Binary files /dev/null and b/static/images/cachoeira_2018-11-03-07.27.10.jpg differ diff --git a/static/images/duna-ii.jpeg b/static/images/duna-ii.jpeg new file mode 100644 index 0000000..a4e84ce Binary files /dev/null and b/static/images/duna-ii.jpeg differ