+++ title = "Cachoeiras" date = 2020-01-18 +++ depois da meia-noite \ sugo as letras até o silêncio \ expulso os anjos e santos \ exorcizo de deuses e espíritos a terra \ e dela nasce a morte de novo \ a morte morna \ a morte presente \ morte com a qual \ sabe-se fazer parte \ morte que não \ se traduz em ansiedade \ a morte próxima \ a morte ao lado \ e vendo \ sempre sendo reexposta \ à dualidade \ ideia podre de pecado \ é o entrave \ queria não ver pastores \ não falar ou reclamar de igrejas \ preferia \ mas quando estão te ateando fogo \ e você arde em gasolina \ quando seu som e o seu papo \ é considerado por demais _pesado_ \ quem diria... \ é triste saber que não querem ouvir \ uma mensagem tão tardia \ e preferem portanto \ que alguma história seja repetida \ preferem crer \ no formato já dado ou algum mero reparo para fins de convívio diário mas nada que realmente derrube os portões \ estoure cadeados \ foi esta morte ansiosa \ que matou a poesia \ a botou a discorrer \ sobre as notícias do dia \ mas as guardiãs se lembram \ e acordam todo dia \ repetindo \ pra que a aresta da faca \ sempre fique fina \ é \ alguma luz \ luz que atravessa \ escreve e recita \ dizendo: _tudo bem ter medo_ \ fazendo o ninho de espetos \ que por dentro de fato aninha \ dizendo: _é bom ter um meio_ \ _de poder se defender \ escreva para alguém mas \ escreva pra você_ \ eu \ sempre me desfaço \ mas por ser necessário \ infelizmente é caro \ mas porque quem cobra é ela \ a morte senhora \ e para ela \ o fio é um só \ pague todo o preço não deixe \ se perder contando as bolas de um terço \ não deixe \ sobrar nem um pedaço porque vai se arrepender \ olhe no rio não são espíritos soprando no teu ouvido são \ os olhos da vida olhos da morte dizendo-te pra quê \ escolha por entre os fios confusos e ache o final \ quem está lá \ pra dividir contigo \ na vida real \ o peito cheio de ar e então \ saber disso, pronto \ diziam assim: _pronto_ \ lembro e lembrar é onde começa \ é real \ só nota de fato \ diga que eu falo \ não perca a memória \ que a língua é que aprende \ coloca e consome \ o quanto de sal \