+++ date = 2016-10-22 +++ tão sensível como a carne como o rosto de um rio e ainda assim nada faz mover-se contraiu-se como um gato no inverno sem cheiro nem medo nem repulsa imóvel, bebendo dos venenos do oceano com uma tal fome imensa, insaciada mas calada em jejum feito um anel de fumaça frágil e lento sumindo sem receio olha o vento e o beija sem sonhos com doces dores no peito barulhos plásticos que comovem não mais novela não mais tragédia nenhuma piedade lembro-me de aguardar resignada o tombar de uma araucária sem nenhuma nostalgia um só toque e ouço de novo tudo o que cantou-se cada passo da bailarina devagar escorrem os licores e por si mesma a língua enjoa os olhos cantam abertos e pela primeira vez a verdade escapa pelo portão como um cão afoito como óleo num funil para nunca mais assim cresce uma incerteza sem água, sem terra, sem amores e a dúvida tudo engole deixando só esta nudez esta fragilidade irrestrita este vácuo duro e indomável de uma vontade imensa de deixar esse imenso e irrevogável sim este sorriso a flutuar no olho de uma melancolia o broto imbatível de uma coragem monstruosa sem retas, sem curvas pronta a devorar este mundo