+++ date = 2016-10-09 +++ eu me lembro dos casulos vazios das cigarras no pátio depois da mureta azulejada, na casca da árvore da cor da sirene presa no topo do pilar azul e o barulho dos carros na rua como um chocalho, como um mero efeito de som de não saber te explicar nada, de nunca tê-lo feito dos buracos que ficaram nas paredes os parafusos calados, cheios de um profundo tédio como se fosse agora, me lembro de tudo que se considerou bonito e como parecia já não ter mais forma alguma de quando nasci, devagar e de repente, chorei tanto, lembro-me do teu colo também um abraço confuso, onde não se sabia bem o propósito da audácia, do relaxamento, lembro-me de escrever de olhos fechados de prender o ar e privar com sons esses medos o pavor imenso de estar do seu lado e como você puxava alguém para tão perto como dividíamos a mesma miséria, sem rédea e o caderno sempre ao lado como um cachorro e aquela música que você ouvia com fome e com raiva como uma fascinação sutil, como uma fumaça, que se engancha desde os fios mais finos do fundo do estômago e nos traz pra cima, feito uma ânsia de vômito me lembro da explosão debaixo das árvores e de como era frio no meio da rua, como era cinza e branco quando atravessávamos as pontes e nos beijávamos e corríamos dentro do grito de um medo eufórico, desejoso lembro-me dos tapetes coloridos e suas peles de algodão do cheiro familiar do quarto, ali mesmo onde me deitava de nunca ter podido dizer nada, e ainda assim, ter morrido de uma profunda nostalgia.