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date = 2021-01-15
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Inspira e respira \
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penso e penso e penso e a penseira às vezes é \
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uma poça de julgamento onde só nadei e não joguei para fora \
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mas agora \
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tantas prometidas formas de quebrar o ciclo dessa roda \
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que demora \
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esperar a idade ou a maldade não é nada \
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saudades são coisas rasas quando sei da importância trocada e destrocada \
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Obrigada? \
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quantas poesias destravadas \
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pra cada palavra que de azeda ou amarga amadurece até que caia \
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é terra pisada ou o chão \
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onde queima a chama de uma vela que chama \
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chama chama \
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raio trovão mas chuva de bençãos nas mãos dessas corpas sem paradas \
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sempre indo e voltando \
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mando e mana \
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a poesia toda manda: \
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Envia a chama \
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_e chama_
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content/poesia/10144.md
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date = 2021-01-22
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não passo,
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atraverso
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piso e cada passo é um reverso
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a pisada pesada
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ou apressada
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me lembra de reverter esse deslize
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respira de novo
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como no outro poema
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lembra?
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sem linha de chegada
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pisando na rua sempre chego
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na mesma cidade ocupada e volto
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com uma só pedra no meu pescoço que brilha
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brilhos
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que só nesses quatro olhos se acham
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então não passo
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atravesso
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lembrando
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que era lenta caminhada
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de quem quer chegar mais longe
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do que anda um carro
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ou sua carcaça toda enferrujada
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no tempo futuro vejo:
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ela sobre a cabeça desse deus de guerra
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piso
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e a minha boca cospe
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véus em chamas
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onde acendo
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incensos para Verde Tara, A Mais Rápida
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que plana
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desliza achando
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suas chaves na grama
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mesmo que estoura
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são chinelos e óperas de arame
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falsete, alto contralto
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alguém olhando
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sorrindo ou chorando
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deste ou daquele lado
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168
content/poesia/eterno-retorno.md
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title = "Eterno Retorno"
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date = 2021-06-05
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<center>
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**一**
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</center>
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O Tempo, Senhora, são as falas mornas
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nem quentes, nem frias, nem chocas
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O Tempo, Senhora, é também o silêncio
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é o Espaço Calado
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impreenchível
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irreversível
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passando do passado ao passado
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O Tempo, Senhora
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não aguarda
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não se demora
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não conhece inocência nem perdão nem justiça nem verdades
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não tem valores
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cria e destrói sem grandes sentimentos
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sem palavras
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O Tempo, Senhora
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desconhece análises
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concretas ou psíquicas
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abstratas ou científicas
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O Tempo, Senhora
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não lê poesias, não faz filosofia
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passa como uma onda, e como uma onda se desdobra
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não tem intenções
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não sonha com revoluções
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não assimila nem liberta
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está passando,
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O Tempo, Senhora
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da linha de lá até o agora
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não posso vacilar...
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nunca vou te alcançar
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e não posso
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<center>
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**二**
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</center>
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Já faz um tempo que as palavras foram refeitas, e eu não tenho mais a intenção de retornar. Eu já morri, e quando morri da primeira vez, me lembro, já tinha que abandonar a ideia do retorno. Não há nada de especial ou de particular nesta vida, e não há também outra vida além desta. Ela é única, mas para ser vivida como única é preciso um esforço comum, neurótico, recalcado.
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Detesto o intelectual iluminado. Místico, distante, psicológico, ausente do seu próprio corpo, sempre cuspindo vinte livros de distância de cima dos quais te olha falando, falando, falando, falando, falando, falando...
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Quem lê tanto assim? E até quando?
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O Tempo, Senhora, acabou
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começou a correr, sem parar
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e não parou mais
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Eu já senti tanta vergonha que ela começou a me dar asias. Mas foram anos de asias até que finalmente começasse a conseguir vomitar. Não terminei ainda. Eu não quero escrever como quem se desculpa, porque tudo está explícito em cada linha. Se não estiver, do que adiantou tê-las colocado no papel? Toda poesia é um nu. Nu é o retrato do corpo só corpo, e se for mais ou menos do que isso, será mística.
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Nudez, nudez absoluta...
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Contra todo mistério, essa poesia serve para mostrar que nada há de verdadeiro, nada há de belo nem de duradouro. Não há nenhum valor ao qual se ater. Não há nenhuma liderança ou processo ou coletividade organizada, raciocinada, que irá vir salvar e dar solução ou resposta. Tudo isso é vício texano, são drogas exportadas em açúcar e revertidas como pequenas drágeas de sexo em pó, que pela lente da câmera eu vendo sem agonia. São olhos gringos cheirando a minha cocaína.
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Eu não escrevo mais avisos, não estou mais conseguindo. Cada músculo que mexo dispara um outro gatilho. Eu tenho vivido. Vivido no limite, entre uma narrativa e outra, eu estou lutando pra acreditar que sei o que eu mesma vivi e o que eu mesma sinto, mas até hoje se for dizer a verdade, a verdade é que não consigo.
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Odeio desígnios de vítima. Quem vitima, quem vitimiza? Quem vai decidir onde riscar a linha?
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Muito ajuda quem não analisa.
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Isso não é sobre
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a expectativa neurotípica
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sempre buscando
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o meio da pista...
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<center>
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**三**
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</center>
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O Tempo, Senhora, é uma carta para o nada. Perdida. É o medo de falar, que mesmo rompido, não leva a resposta alguma. É a dura punição de solidão por não ser expressiva o suficiente. É alguém dizendo que sua timidez ou insociabilidade são compreensíveis na lente externa mas ainda carentes, carentes de alguém que lhe traduza Freud ou algum outro homem morto. Minha história é a desta linha solta no labirinto, que está amarrada a um prego na parede, lembrando-me, dos parafusos calados em cada casa que deixei pra trás pra acreditar em quê, na imortalidade, na ressurreição, no renascimento.
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Sabe, queria muito entender. Ou ouvir que o poético ainda está vivo e pode ser trocado. Seria profundamente poético ouvir que isso é uma nostalgia barata que merece e deve ser esmagada. Mas nada é pior do que sentir-se ao mesmo tempo amada e sozinha. Nada nessa vida nos basta. Nem deveria. Tudo é sobre ter sua linguagem reconhecida, e nenhuma dignidade disso escapa. Não é sobre respeito, mas sobre libertações outras, que nenhuma teoria poderia guardar nos seus bolsos.
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Ninguém pode representar ou ter sua realidade representada
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A representação é o inverso de qualquer realidade
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A realidade é única, e mil vezes única vai sendo multiplicada
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impossível
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não dizer nada
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impossível
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dizer o que basta
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Eu tenho fogo
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tenho
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fogo
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para acender fogões
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órbitas solares, daimaru
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no vento a bandeira parada
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São,
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memórias...
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Eu posso
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explicar os convites
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poderia
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me sentar e dizer por que
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estou triste
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mas nada trará alegria enquanto
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a poesia não puder ser plantada
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ainda que uma só linha trocada
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deixar ser
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coisa viva que escape
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à sua história cristã de batalhas
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batalhas batalhas batalhas
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arte meritocrática
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poeira estelar
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uma mentira vendida
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é uma mentira comprada
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<center>
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**四**
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</center>
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Autenticamente o quê? Autêntica é a binária. Autêntica é a ponta fixa da linha rígida, forma triangularizada. Ser hoje autêntica e amanhã me liquefazer em um suco de ambrósias douradas, sou essa espinheira que nasce e dá em tudo quanto é lugar sem querer nem assinar o papel onde cuspo minha bile amarelada. Não tenho o que expressar, sou a negação da negação no conjunto irreal a quadrática. Estou riscando nas paredes, entupindo cápsulas. São só ensaias, ensaias que talvez entravem a anglofonia, monotônica cacofonia onde uma ludista faz sensores e placas.
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O Tempo, Senhora, não vai do um ao dois e do três ao quatro. Cinco ainda é um número binário. Não há ciclos perfeitos, nem quadrados equiláteros. Nada é preciso, nada é exato, e o que eu digo hoje já foi mais que atestado; mas o problema está mesmo entre as orelhas e as ondas que encontram respaldo. Tudo está sendo multiplicado. Hoje não posso mais escrever tanto porque estou recebendo junto a vinte e nove pares o que foi a antes demais trinta já passado.
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Percebe a espiral se abrindo sem nenhum tato?
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Poema verborrágico, prosa do diabo.
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<center>
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**五**
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</center>
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Deixo de dizer. Eu leio e logo me canso. Faço esboços e me decido sempre ao combate. Era preciso muito mais tempo, algo como quarenta horas em um dia talvez chegasse.
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Otimistas, produtivistas, psiquistas, toda sorte de quem seja que tente travar guerra com seus onis. Eu me pergunto sobre suas neuroses e recalques, quem é que analisa? Não faz sentido que façam sua própria análise, precisavam de um espelho niilista onde o reflexo se riria. Recuso seu otimismo, a vergonha de ser egoísta, acho de um tédio profundo a sua repetição. Como chamam isso de saúde? Para mim são dependentes de uma imersão religiosa profunda.
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Planta antiga
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précolombina
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semente preta,
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nítida, límpida, lúcida
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não se comove com salvadores
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não espera pela vinda não escuta promessas não quer ter dons de línguas
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nasce e frutifica
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sempre selvagem
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nunca juíza
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aparta
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aproxima
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nos rios que nos ligam
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não tenho medo do que é sagrado
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não reconheço o divino
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no que é limitado
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olho
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para o encontro
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e agradeço por ter te encontrado
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192
content/poesia/ranco.md
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title: "Ranço"
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date: 2021-03-07
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categories:
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- "poetica"
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Ranço eu também tenho
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da máscara
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como me desgasta...
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Ranço tenho
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da indiferença
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da insensibilidade
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da colonialidade
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da branca
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cômoda
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hipertípica
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hiperpsi
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psiquiátrica normalidade
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repito
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que tenho direito
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à identidade
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à dignidade
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a acessar epistemes
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fora deste legado raso
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quando falo deste meu
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e não do teu
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acho que curo
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me curo
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procuro
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repensar com quem falo
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quem no futuro também como eu
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se ler
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sentirá como alcançar-lhe?
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medo?
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do medo
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só do medo
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do pânico
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da dúvida
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do engano
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||||
de passar muito mais que pano
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pagar o preço
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sem medo
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corpo nu
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solto
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e do avesso
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todo olhar é estranho
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todo dia uma puberdade inteira eu cresço
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atacar é bom
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é bom subir o tom
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defesa passiva
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empatia lisa
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não me ativa
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eu não entendo brincadeira
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minha malícia é reversa
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nadando contra cheguei numa encosta que é longe
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se espante
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me olhe estou tensa
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ansiosa espremida
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estava apagada a luz da minha vida
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mas aqui colocada tenho cada chave da minha própria saída
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entre uma tela e outra tento ler sutras na janela
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escrevo na parede
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e vaza
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respinga a tinta amarela
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não ando sozinha nunca estou
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sozinha
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minha vida é a sua vida
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você terá que mudar recuso-me a te atacar vou queimar livros pra estourar pipoca pra saltear ervilhas
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bicha duvida?
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faço vacinas com um veneno que não achei alguém que aguente se explica
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então aqui fica
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me evita
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tudo me indica
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que devo pensar não só acredita: a crença é só uma outra linha
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me deixa ser minha
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quero ter só o que sei que preciso
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cuide do que é seu e assim vamos ter o que cuidar quando nascerem flores dos nossos ovos chocados com
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fé
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fé na pandaka autista
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quebrando preceitos
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na contramão
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traduza a voz
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da bodhisattva antibinária maitreya no útero de uma mulher travertida
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que traverteu a água onde atravessam homens perdidos
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héteros pecados fascistas
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binária protobiologia
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segura essas palavras são minhas
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se não ouviu ainda essa voz então repita
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imprima
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quantos anos precisamos voltar essa fita?
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regrida desfaça e agora está viva
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sinta o sabor da comida
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justificações
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explicações
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não interessam
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não sou juíza nem polícia
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não cobro pecados
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não mando pro inferno
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invado e rasgo
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dos portões os cadeados
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não roubo mais
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do que carrego
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||||
tão infantil
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falar como me sinto
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||||
regredir
|
||||
|
||||
sinto
|
||||
só sinto
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||||
não há nada para explicar
|
||||
só sentir
|
||||
se ouvindo
|
||||
nada para resolver
|
||||
só ouvir
|
||||
e sentir de novo
|
||||
lido e relido
|
||||
não religo
|
||||
nada foi interrompido
|
||||
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||||
pra que falar
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||||
como me sinto
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||||
se só me repito?
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||||
|
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pra que escrever
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uma só letra
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se anatta?
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||||
melhor seria
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||||
cortar apagar matar
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essa voz insuportável
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querendo expressar-se
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defender-se
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existir
|
||||
|
||||
existir
|
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quem quer prevalecer?
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mato
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quem quer o controle e a perfeição?
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mato
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para quem nunca está bom?
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mato
|
||||
o mestre dourado no trono sentado
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mato
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buda
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mato
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||||
o pecado
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||||
meu capricho e orgulho
|
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mato
|
||||
meu limite atravessado
|
||||
todo autocuidado limitado
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mato
|
||||
minha desorganização meu não-espaço
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mato
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||||
meu tempo parado meu desentendimento
|
||||
mato
|
||||
essa episteme imposta
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||||
essa identidade
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escolhida por um macho
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mato
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com a minha dignidade o que eu faço?
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me abraço
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choro do seu lado
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pra quê?
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||||
seu choro é um pedido
|
||||
pra continuar a ser e sofrer
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pago
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nesse ritmo cansado
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sobrecarregado
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planto
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para comer
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pancs que recolho do mato
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é banquete
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engrossa
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||||
ferve de novo o caldo
|
||||
e repasso
|
||||
|
||||
_segunda, 15 de fevereiro de 2021_
|
||||
305
content/poesia/rotina.md
Normal file
305
content/poesia/rotina.md
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@ -0,0 +1,305 @@
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||||
title = "rotina"
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date = 2021-02-05
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<span class="mono">
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--------------------------------------------------------
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vibe neuroatípica
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- siempre! -
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anticapitalista
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--------------------------------------------------------
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pressa, pressão — uma mesma raiz
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da qual não nasci
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pressa, pressão... uma mesma raiz
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da qual não nasci
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pressa, pressão... uma mesma raiz
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da qual não nasci
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pressa, pressão... uma mesma raiz
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da qual não nasci
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|
||||
pressa, pressão, produção... uma mesma raiz
|
||||
da qual não nasci
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pressa, pressão, produção... uma mesma raiz
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que abati
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grita, cistriarca
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é a hora do seu espanto
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raiva dobrada cobrada
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não será mais meu o pranto
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afeto contrapiso
|
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no canto da parede
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tapo meus ouvidos
|
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não por não querer saber
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mas por ter tão abertamente
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até aqui sabido
|
||||
em excesso ter me dado
|
||||
a receber tantos ditos
|
||||
pelos olhos também
|
||||
tanto ter recebido
|
||||
privilégios achados
|
||||
separando meu lixo
|
||||
é momento de estar já
|
||||
mais que desaprendido
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||||
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não guarde a cala
|
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não porque assim aprendeu
|
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assim deve ser mantida
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não há desculpa ou uma só causa
|
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para os fatos desta vida
|
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||||
não espere nada
|
||||
de um rosto não espere
|
||||
que se mantenha tranquilo ou alegre
|
||||
sequer o observe
|
||||
deixe ser rosto contorcido
|
||||
deixe falar o imprevisto
|
||||
deixe reclamar e xingar é um mimo
|
||||
estou falando comigo
|
||||
|
||||
não recua
|
||||
não revoa
|
||||
deixe ser tudo sentido o próprio sentido
|
||||
não arrume nem cuide em excesso
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pois quem ama em excesso machuca
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não tente dar-lhe constante benefício
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como vai saber você
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o que é bom ou ruim
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para algo distinto?
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se é hora desse rosto sorrir ou chorar?
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só o próprio rosto sabe disso
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estou falando
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comigo
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deixe ser rosto a ouvi-lo
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ouça somente mesmo que
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não puder ter seu dito ouvido
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e recuse a ouvir
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se passar do seu primeiro limite
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e não do terceiro ou de algum que já esteja
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tão atravessado que nem se pode
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pedir que se explique
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é uma quase invisível linha
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que separa o soco no rosto
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de um passo de bailarina
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no tempo pode sempre
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perder a medida
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diga mais firme
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argumente e responda mas alinhe
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uma palavra gruda na outra
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o ouvido neurotípico
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é intolerante a pausas e pensamentos altivos
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quer ser respondido
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imediato desejo convulsivo
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não é a altura do grito
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não espere ser reconhecida
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não espere
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respire
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sua calma é digna
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não é burguesa, acorde bicha
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os ricos estão ansiosos
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dormem rivotril
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acordam cocaína
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compram panetones
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pra engolir patologia
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e pobres nadamos no recalque
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e na dependência autoagressiva...
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não deixe que patologizem
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a sua única saída
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sua calma, é fina
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flor orgânica, atóxica, pura resina
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é por necessidade
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por sobrevivência
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não é calma para ser guardada
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é para ser dividida
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é seu dom sua unção
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seu passo lento
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sua mão inveloz no veloz vento
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é pura salvação
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em um mundo que engole engole
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e te engole primeiro porque
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lenta é a sua pisada atípica
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torta para a esquerda pisa
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do rosto que instantâneo responda também
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deixe a palavra ser sentida
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demora até que fique cozida
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só diga e mantenha seu dizer
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não espere ser sempre acolhida
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não espere que sempre valide seu dito
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só diga e repita
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rearme, repique
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vai falando consigo
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a máscara brilha
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lisa e polida
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lute a luta de expelir essa dor
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ou transmutar
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ou sublimar
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em uma planta viva
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então diga
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sem remorsos
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não é culpa!
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é raiva pura
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de pura cura
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soro y antídoto
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destilada e reduzida
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há tanta gente que jamais sente essa dor
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por mais que se cutuque a ferida
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que nem liga
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não sente o que sente a bicha
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mas rápido exige de quem?
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que seja empática e compassiva
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pois...
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um só grão de arroz
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~ ~ ~ ~
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muda mesmo - verbal mesmo - fala mesmo
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exorcise fale vocalize
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estranha palavra autista
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espaçada, demorada, antianalítica
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pura paranoia sem reputação sem malícia
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são transtornos do apego
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atrasos no desenvolvimento
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pânico! constante déficit da sua atenção
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repartida
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são
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estresses pós-traumáticos um infinito
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de diagnósticos tortos e atrasados
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afaste - não subserviente seja - diga
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segura insegura entre um polo e outro solte
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não olhe nem regule não se
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hiperrresponsabilize - ofereça segurança
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não cobre que não vinga
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com afeto tranquila ira irradia
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bandeira parada no vento tanto respira
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mesmo sem sorrir o bom transpira
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não é um dia após o outro
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se a morte é rotina
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cada dia sentindo-se
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um pouco menos viva...
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sinto
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vindo
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o dharma não-binário de mil pandakas
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cuspindo nas robes douradas
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intactas
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de um arahat horrorizado — blasfêmea aziátik
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assim nasceu maitreya jogando molotovs no Estado
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sonho...
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sonho um sonho
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sonha e realiza agora
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Tara te abraça não separa
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transparente verde a saia
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de debaixo do suco de carne e de livros
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que um titâ recolheu em seu encarte
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depois de mil anos curtindo
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soterrados por páginas tão carregadas
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os corpos
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de um mil anarquistas
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adiante!
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não é comando
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para ansiosa julgar-se essa
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poesia
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já lutou o suficiente
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para não ser apagada
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garantida agora é a hora
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de lutar mais ainda!
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fazer a coisa herdada
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ser sentida ser vivida
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pois está morta se apesar de que respira
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comendo não sente
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o gosto da comida
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