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Juno Takano 2025-09-21 16:16:02 -03:00
commit b99c45b013
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@ -0,0 +1,14 @@
+++
date = 2022-06-22
+++
<em>
a chave
desliza na trava
e clica
mais uma vez o sol
derrama sua luz na cozinha
</em>

View file

@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2022-07-12
+++
<em>
mais que o relógio
o fogo me diz as horas
e agora
</em>

View file

@ -0,0 +1,82 @@
+++
date = 2022-07-18
+++
é importante o afeto
é importante a vontade
é importante para mim,
que tenha lido essas palavras
é importante a memória
e o esquecimento é importante
ter levado a sério
levado a sério
o sério onde vive um poema sério
é também o tédio
preso naquele mesmo raio
de um átomo de césio
todo dia eu vivi sempre tão a sério
hoje mais uma noite eu espero
até que volte, aquele abraço e só ele
tirando o lixo
percebo a Lua depois do perigeu,
cortada pela metade ela preenche as nuvens de luz
eu olho uma gata brincar e rio
espero
está no seu tempo
ela pula nas árvores da rua
ela corre no espaço e o espaço repara
ela não tem medo da madrugada
são quatro horas e a carne
não é mais fraca
de hoje até ontem,
um buda feito de bronze,
não atravessa o fogo
derrete a estátua
são
mais de mil graus
na crosta do Sol
e meus olhos também ardem
no espelho da Lua
todo o planeta
por que tentou entender
palavras difusas
que não dizem nada?
estava só
cuspindo meu espírito
toda confusão, todo delírio
para ser justamente isso
ter
um universo inteiro dentro de cada ser
sem a ilusão de ter entendido
não...
apenas
dia após dia o exorcismo
o mundo em chamas
pede pela queda
implosão completa
e ainda assim os pilares
parecem atravessar a noite
na calada ameaça da morte
sento com demônios e fantasmas
sem
olhos de fada só sento
e deixo falarem deixo cantarem deixo se cansarem
e a porta
que estava fechada, agora guardada
abre e fecha
sem a aparência forçada da vitória,
sem surpreender-se com a derrota,
passa e resvala
até o fim

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@ -0,0 +1,40 @@
+++
date = 2022-07-25
+++
a força está nesse ritmo
conjura e converte
faz reunir
sei
e você tem medo
se amedronta
quando a vê dentro dos meus olhos
pronta
para ser derramada mas
redonda
e ainda,
se não vê-la?
e se pela não-terra, a tela
onde não escorre água nem mata
você achar que fui encontrada
que através dela
vai me ver
ou contorná-la?
é a você que devo?
impressões e textos?
o seu carimbo
cobra um banqueiro estrangeiro
sua moral cobra
sua rede cobra
suga pelo furo do seu dente
de cobra
para me ver comportada e posta
pronta:
só quem divide o comando comanda
mas da pedra dessa rodabanca
unguentos e antídotos na folha dobrada
pronta e guardada
deixe posta, é certo
que necessite
_22 de novembro de 2020_

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@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2022-07-30
+++
<em>
novas auroras
o mesmo cor-de-rosa
promessa cumprida
</em>

View file

@ -0,0 +1,14 @@
+++
date = 2022-08-08
+++
<em>
nas alturas
alta traição
devolvo seus presentes
roupas rasgadas
dúvidas e medos
pode ficar
</em>

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@ -0,0 +1,19 @@
+++
title = "gênero, família, taxonomia"
date = 2022-08-12
+++
como algo do qual estava
desesperadamente tentando me livrar
preciso falar sobre isso
neste ângulo, e talvez
talvez não seja este
como você vê ou vive
e está bem
mas eu preciso falar sobre,
porque há também eu acho,
uma necessidade de falar sobre quem
ainda quer ver-se livre

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@ -0,0 +1,24 @@
+++
title = "Manhã, Majestade"
date = 2022-08-17
+++
![Fotografia de uma gata preta à frente de um computador. O computador está com a parte traseira voltada para a frente e é possível ver suas saídas de ar. Há cadernos, um juzu, caneca e apetrechos de papelaria na mesa. Sobre o computador, uma estatueta da Tara Verde e uma caixa de incensos com outro juzu pendurado. Em cima do monitor do computador há a inscrição "Memento mori". A imagem tem um filtro que a reduz apenas a algumas linhas e cores de azul, roxo, amarelo, verde e rosa.](/images/neguinha.jpg)
Chegaram as chuvas do inverno, e com elas também palavras sem fim inundando minha cabeça. As palavras reverberam, multiplicam, eu não consigo deixar de chupá-las como se bebesse no deserto. Eu encontro a força da criação, eu encontro as minhas próprias veias, e eu faço a transfusão. Estou reposta. Eu havia dito que o tempo era escasso, mas o Tempo é um falar e ouvir sem paredes, sem muros, sem fronteiras. Quem irá conter?
Não me interesso pelo debate. Também não quero a convicção. Estou desde antes já ouvindo em excesso, mas palavras sem a mínima consideração são um enorme desperdício. Queria esticar essa manhã até o último grão de uma montanha ser varrido, letra atrás de letra, uma por uma, poesia um lençol onde o corpo deita limpo, sem a frieza da luz noturna, sem a ânsia que eu sinto na rua, sem as memórias de medo que enfiam nos fios, sem as ameaças de controle de famílias e polícias, nada disso.
O Tempo é uma noite que acorda o mundo do avesso, ela é uma morte que prefere a transformação à ressurreição. Não quer repetir. Não quer imortalizar. Não quer instituir ou controlar. O Tempo, Senhora, não observa calada.
Eu coloquei mais uma vez um pé após o outro, cada vez e de novo, eu ouço caírem os pingos da chuva e eu ouço atrás do muro uma casa ser enxaguada e tudo é água. No calendário, os dias que chegam me trazem vontade. Eu estou longe de tudo aquilo que me ameaçou um dia, eu cortei apegos e dependências químicas, e aqui, na retina branca desse céu nublado, onde raramente chove, faroeste paulista, eu quebro os ovos da serpente, seu ninho revirado por duas gatas pretas -- a mais jovem e violenta, e a que rosna ao invés de miar.
A força que me acomete não é a da verdade. A força que me acomete não é a da guerra. Mas a guerra é onde cada dia é vivido. Do chão, não resta uma única mancha. Os talheres estão limpos, são cinco colheres pretas e quatro com cabos coloridos.
Amanhã, serão outras cores. No dia depois daquele, ainda outras. A Rosa do Deserto deve estar respirando aliviada, crescendo suas raízes como quem se alonga depois de ficar apertada em uma caixa.
Como posso não me esquecer de sentir também os nervos dela, e não somente os meus? Logo ao lado, atrás dessa parede, a cada segundo ela coloca toda sua força em beber o Sol, em esticar seus galhos, em abrir-se em flor, mas maior ainda ela estica suas pernas, talvez sinta-se como uma multidão de centopeias, como se tivesse infinitos dedos, buscando no espaço toda direção. Flore e derruba as flores murchas no chão. Nunca foram para a admiração humana. Prossegue e concentra, sem jamais vacilar do seu centro.
Há três pesados sacos de terra onde mais vida poderá ser plantada e nessa manhã nada de muito útil, mas todo o necessário. Eu encontrei vozes que cantavam, e com os pés no molhado, eu abri esse portão com a chave das suas palavras. Deixei que derramasse, até o excesso da ressaca.
Você saiu para a batalha, eu sei que o seu peito queimava porque sou também tão inflamável. Do lado de dentro da parede fria, um pano cor-de-rosa desliza, mais uma vez, a mesa deposta brilha vazia: espaço ilimitado, seu reino, meu agradecimento.

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@ -0,0 +1,165 @@
+++
title = "Carimbos"
date = 2022-09-08
+++
<center><em>
vergonha é uma dívida
muitas vezes
cobrança indevida
</em></center>
Quarto Crescente \
derruba do céu \
um sorriso \
deixo contigo \
finalmente \
O Tempo passar
um vídeo que nos faça chorar \
enquanto parece \
que até os deuses estão com fome \
minha água escorre \
por cima da tela \
ao menor sinal de empatia
é tão básico sentir \
é tão básico \
dar risada
Lua Cheia \
é só a quinta vigília \
e ontem o céu já chorava \
para mim era eterno mas foi \
um único dia
não estou mais cansada \
de virar cinzas \
eu as abraço e me decoro \
seja incêndio ou comida queimada \
seja fracasso ou mais um email dizendo \
pelo seu interesse obrigada
não vou mais correr atrás \
do tempo pequeno, da notícia parada \
quero ouvir a voz daquela mulher \
que para, senta e pensa \
que levanta, fala e age \
O Tempo, Senhora, e a História \
são garras que pousam, \
se fincam, \
e decolam
não é, não foi \
sobre lógicas passadas \
racismo algorítmico \
burotransfobias \
neurocortadas \
colonialidade, epistemicídios, entre \
outras palavras \
que irritam os ricos
você lembra? \
_rinasce più gloriosa_ \
e mais sutil \
do que com a autoestima equilibrada \
na performance -- da aparência ou do trabalho, eu \
me cultivo de novo \
me replanto e adubo \
eu me transplanto a cada vez \
que aqui retorno, é \
para meu próprio benefício confesso \
preciso gravar \
gritar ao anônimo \
na ausência dos ecos \
_rinasce_ \
_più gloriosa_
ou ainda aquela pergunta, \
**"morreria, se lhe fosse vedado escrever?"** \
não consigo mais crer \
em sentimentos sublimes assim \
apego \
também é isso \
eu vivo \
para viver o visível \
o corpóreo, o que inspiro respiro transpiro \
não me olhe \
e veja algo distinto
<center><em>
jamais iguais
vínculos ancestrais
</em></center>
eu disse: veja bem, eu sou _isso_ \
mas me respondeu: onde está o laudo e o carimbo? \
não há \
dinheiro que pague o atrito \
de que só com papeis eu existo \
será mesmo \
que não poderia mexer um dedo antes disso? \
me irrito \
com seu olhar passivo \
esperando a palavra de um médico \
patético \
com ideias datadas \
antes de Cristo
te esgotam \
psicomplacismos \
ciências recentes \
tabelionatos psíquicos
eu escrevi naquele dia \
outro poema críptico \
mas foi segurando nele \
que me levantei \
e destravei os gatilhos \
a água escorreu \
lavando a poeira e o mijo \
foi \
o cheiro do cloro \
me lembrou que vivo
nem sobre \
este ou aquele pecado \
mas a vontade eterna \
de doar só a metade \
de anular e esquecer \
ter pavor de assumir \
seu próprio legado
<center><em>
dar
importância excessiva
paralisa
</em></center>
essa \
é a minha análise \
pela parede as formigas \
se trombam e se ajudam \
se conversam se encontram \
profundamente caladas \
mesmo se forem pisadas \
caminham sem nem \
um segundo de luto
requento \
o café mais um dia \
me alimento \
como uma criança sozinha \
e são \
treze horas de novo \
é hora de renascer \
mais uma vez \
retorno \
eterno \
retorno

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@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2022-09-11
+++
<em>
poder
o calor de um sol
batendo nas paredes de sabão
</em>

View file

@ -0,0 +1,16 @@
+++
date = 2022-09-20
+++
![](/images/areia6.png)
<center>
cozinha
com ervas daninhas
eu respiro
e ofereço
a minha paciência rachada
</center>

View file

@ -0,0 +1,27 @@
+++
date = 2022-09-28
+++
<em>
o espaço seguro
era um labirinto
no escuro
espelhos são só paredes
vidros
não deixam passar nem o cheiro
não era
sobre identidade coletiva
não era
sobre pureza política
o processo
lento
continuou sem deságue
riscando traços
abrindo buracos
invisto na queda do muro
politburo, realpolitik
psiquiarcado...
demagogi
</em>

View file

@ -0,0 +1,21 @@
+++
date = 2022-10-17
+++
será
que era o momento?
o brilho dos meus olhos
aos poucos
se metamorfazia
e eu ria
às vezes de pânico
às vezes de euforia
a lista de compras
é muito mais comprida
do que vinte linhas
e o dia
tem só a metade das horas
quando a casa não está limpa
segunda
rituais de ressureição
transpiram a cozinha

View file

@ -0,0 +1,17 @@
+++
date = 2022-11-15
+++
na madrugada, os sonhos eram sobre não dar tanta importância. o meu nome, os meus olhos, o transbordo da morte: tudo isso. a voz que falava não era divina, nem tinha nada de sagrado. era só criatividade, só intuição humana, mundana e imperfeita.
a imagem, deslizando por um fio no rastro fino da mente, seu fluxo próprio -- não pude ver direito. reinventava formas de ser escrita, ser prosa, ser poesia. era gesso, estilhaçado.
<em>
morta a flor da nostalgia
teus incêndios
meu coração envenenado
escorrendo
junto à espuma pela pia
</em>

View file

@ -0,0 +1,94 @@
+++
date = 2022-12-28
+++
não vou carregar
meu ser
não vou tentar consertar
remoer
linha nenhuma
ligando esta morte e a próxima
deixar morrer
cada novo nascimento
sem chorar
só navegar no tempo
sem medo
do apego
de pisar formigas
esmagar baratas
escondidas
atrás da pia
a ânsia de sair de casa
comprar
abobrinhas com
agorafobia
a única continuidade
está
entre essa e aquela poesia
os riscos
me lembram
de viver sem alma
lembrando do que resta
abstrato, concreto,
sem essências
só o que importa
por pura necessidade
um coração
aflito
não precisa ser limpo
nem puro nem ungido
para abrir
não precisa ser curado pode ser
tratado
não poderá talvez ser
ressignificado precisará
desaprender
não poderá talvez ser
transformado precisará
desencontrar
o começo
o lugar onde falava
sério
foi o que buscou e evitou todo o percurso
era da onde
queria fugir a todo custo
e onde
desejou chegar com toda sua força
o lugar
onde deitar
e saciar a fome
onde sentir
comunicação
escuta
compreensão
reconhecimento
o espaço
onde tivesse seu próprio ritmo
onde desse as mãos ao Tempo
o lugar... paraíso
neste mundo, esta vida
onde
essas palavras foram lidas
e digeridas
sem o propósito
de fazer crítica
de avaliar
qualquer julgamento
tecer só
teias
transparentes linhas onde pudesse ser
acolhida
da sua queda
livre
não borboleta --
traça
dentro de livros e roupas velhas
um longo inverno neste casulo
surtiu efeitos

View file

@ -0,0 +1,194 @@
+++
title = "30 dias inteira"
date = 2022-05-27
+++
abra
a aba
dentro da pasta
palavras guardadas
teriam
dia
gnose
são
ideias que já
chegam passadas
como
uvas enrugadas
o poema
e a estátua
não tenho tempo
ou dinheiro
para pagar médicos
patéticos
é completamente
patético
dar dinheiro a médicos
como pode
tornar em indústria
o cuidado do corpo
é indigno
de pena
digno
de derramar ainda mais lágrimas
só dá pra
chorar
por saber que é caro ter vida
é caro ter onde
pisar
dormir a vigília
é caro
caríssimo
sentar pra ouvir
um professor abusivo
é caro
e está ficando
cada vez mais caro
ao contrário
cacs pululam
pela artéria rondon
onde passam também
transfobias gringas
chegam
ciberneticamente
injetada
corroi até o íntimo
refaz
percepções
transforma
corpos dissidentes
em conteúdo
em recurso
em assim-chamados
engajamentos
atentos
os corpos não eram
desde o começo não eram
passivos
se não talvez por desejo mas
jamais
inativos
intentos
estão olhando e codando de volta
retorno
olho o olho
no espelho está roxo
beijos por cima
dos vasos quebrados
doem
doem memórias do quanto não podem
as pontes entre as tantas maneiras
não há uma só vida
não há uma única linha
a história
era desde a sua primeira glória
feito rizoma
para além da rodovia
das estradas abertas ladeadas de cana
havia
desde muito antes desse antes
raízes para todos os lados
água descendo e subindo
um corpo muito
muito bem hidratado
cada memória
vive em mim
cada memória
retorna para sempre
em mim
cada memória
se rememora
daqui
para frente e para trás
eu respiro memórias
e expiro esquecimento
é um deságue
morrer de novo
por dentro
estou para fora
sou a desordem ouvindo
que não é essa a hora
estou poesia
porque para ser emprego para ser turbina
querem laudos e papeis com tintas medicinas psiquiatrias essas rimas
assim
chatíssimas
fui
fogo
fui fumaça
na serra descendo
na catarata
esse ritmo
não quer dizer nada
imperfeita flor que cresce no mato
não precisa ser aguada
não era
desde o começo
sobre seu próprio nome
já estava escrito
em tudo
manter viva
manter-se viva
manter viva a memória
de que não éramos menos
nem tínhamos limite
não éramos instrumento
nem objeto nem barreira
sem fronteira
sem
nada a ser perdoado
eu me lembro
e me esqueço
dores eu choro
e alegrias escrevo
me lembro eu
me esqueço
não me carrego
me deixo
é muito doído
lembrar o tempo inteiro
ouvi até que
não era para falar nada
se fosse ser diagnosticada
é para chorar ou dar risada
da linha riscada
puro incêndio pura fumaça
ciência importada
jovem e ingênua
sabe de nada
seu marco inicial
uma poeira soprada
fui
caminhando
abrindo espaço
um canto
enchi de papeis
de grafite e borracha fiz
presilhas metálicas seguravam o maço
fiz
cachoeiras despencarem do que era só um pedaço fiz
incontáveis erros raros acertos
fiz
sublimar dores e riscos em risos descontrolados mas
quando foi que estive sozinha?
se suas palavras
sim suas
estavam todo o tempo chegando pela linha
essa mesma
dependurada entre nós
pelos lados de cada via
pelo poste
passaram os bytes carregando tudo que você dizia
obrigada
pelas suas palavras eu estou
até agora e para sempre
dada à sintonia
reescrita
escrita de forma,
leitura cursiva

View file

@ -0,0 +1,129 @@
+++
title = "Carnaval, continuado"
date = 2022-12-04
+++
a crise é do sensível
o vulnerável
foi proibido e hoje
sentir é um desperdício
como os besouros
de pernas no ar eu me pergunto
se é porque o chão é plano demais
se jamais esperava
não ter onde agarrar
impacto
implícito...
sentir tornou-se risível
e os mitos
esconderam-se
na casca de um desejo agressivo
o amor
reprimido
tornou-se transfóbica
capacitista
polícia — desperdício
da sua vontade de vida
para não me encontrar
na sua esquina
para não ter que ouvir
nem falar
me refez
em um espantalho agressivo
sempre algoz
sempre vírus
derrubar
o monolito
pelo menos com esse poder divino: o criativo
imaginar
e não só discutir o que já foi dito
nem anjo
nem demônio
ser humano
tão distante
da sua imaginação zuckerida
20 linhas, um martírio
tentando digerir algoritmos
eterna colônia
bandeira em chamas
na Lua ou em Marte
dias finitos
sonhando independências
que não foram dadas por príncipes
no vento a bandeira parada
não sento, não medito
é de pé que me pergunto
quão raso é meu carinho
e o pulso da Terra ainda bate
na trava
tentando digerir circuitos
ainda que lógicos, cíclicos
onde me repito
presa no tubo de uma fibra de vidro
meus olhos ainda são os mesmos
no dia de hoje ainda estão vivos
confuso discurso onde neurodivirjo
dissido
na letra de um médico
na bula de um livro
quem disse que acabaram os anos de chumbo
era só o inverno
triste plantio
nasceram
rosas de Hiroshima
equilíbrio
dopamínico
passo no crédito
a serotonina
20 linhas jamais caberia
minha vontade de ver estas paredes
autogeridas
como um parto por mãos amigas
20 linhas
bandeira preta
outra nostalgia
ouvi
que falar era um traço alístico
se quiser eu repito
não nasci para ser
o bode dos seus sacrifícios
palavra é poder
inabalada
não precisa de inocências,
não precisa de demônios,
não precisa de nenhuma alma
para ser culpada
eu mesma assumo e sublimo
a história de redenção
já tinha sido contada
respiro
água filtrada
supera
verdade e imaginação
vou rebobinar a fita
para ser devolvida
espera
guarde e remita
eu já fui,
já voltei
os lacres estão abertos
pouco a pouco
estou sarando a ferida

View file

@ -0,0 +1,46 @@
+++
title = "Kalanchoe, Prolifera"
date = 2022-12-09
+++
aranhas tecem
sobre a minha cabeça vejo
as geografias
da ânsia e do medo
conto
novas histórias, cresço
decanto memórias são como
o pequeno ponto perdido
no fundo do filtro em que
bebo
segundos são horas e o enredo
está se desdobrando nos dias
o tempo de papel onde queimo
lembranças gravadas no seio
vi
brotarem de novo e de novo
no isopor da marmita
drenada no trinco da xícara
do pote de sorvete
de amaciante
Planta da Vida Eterna
será
essa vida grande
se puder cuidar
da minha-sua necessidade
sem reputação a zelar
sem nada a defender
no olho do furacão
pedras voam e afundam
a água só gira
não sou água
não sou pedra
não sou a autora
o dedo contra a tecla
só a poesia
nasço
vivo
morro assim que lida

View file

@ -1,9 +1,7 @@
---
title: "Ranço"
date: 2021-03-07
categories:
- "poetica"
---
+++
title = "Ranço"
date = 2021-03-07
+++
Ranço eu também tenho
da máscara

View file

@ -0,0 +1,81 @@
+++
title = "Reciclagens"
date = 2022-06-13
+++
<center><em>
pela sua identidade
matriz multiplicada
resta apenas
uma diagonal recortada
</em></center>
As primeiras ressacas ainda eram leves, quase não faziam nada no meu corpo. Depois foi crescendo cada vez mais a força sugante não do Tempo, esquecido e alinear, abinário, mas da força motora de um relógio seco, de tudo neste mundo separado.
Este pequeno tempo era uma partícula morta girando sem destino no raio de um átomo de césio.
Que adianta ter teorias para falar sobre, se este tempo é ser desperdiçado?
Do que adianta falar sobre para uma plateia que não se vê em guerra, para a qual todo tempo está parado?
Escrever foi antes sobre encontrar um ponto onde amarrar uma linha. Mas no mundo concreto, não há linhas.
Escrever foi antes sobre pensar, ou dialogar, ainda que consigo. Mas no mundo concreto não há diálogo possível, apenas performance, apenas a identidade como algo repetido.
Fico feliz pela sua alegria.
O Tempo não acompanha essa mesma via onde andam os carros. Ela não segue raciocínios. Tanto não acompanha que coisas como vias e carros, apesar de existirem, dependem de recursos insustentáveis. A que tempo pertencem? Não podem pertencer a este mesmo tempo, que vai continuar depois delas, apenas a uma ideação de que essa experiência é passageira, que este planeta é descartável pois há outros para serem explorados.
<center> <em>
imaginação desperdiçada:
alta performance --
entre impérios doentes
relações cortadas
</em></center>
É nessa hora que seus olhos reviram, que minha voz se distancia no vácuo, como um fantasma.
Assim descortina como o Estado depende das catedrais onde tecnocratas lavam suas mãos. Sistemas de crenças desde há muito tempo programados para monitorar e modelar o pensamento.
O que é a saúde e a doença, que gêneros existem, quem pode habitar qual território. Quando líderes se empolgam demais, mostram como o Estado pode ser usado para praticamente qualquer coisa. É apenas um ritual, um rito de legitimação. Pode ser histórico, pode ser mortal, e pode também ter fim.
É impossível não falar sobre o conflito. Posicionar-se sempre de forma cortês, não tocar em assuntos _delicados._ Seguir em frente, palavras medidas, contente e autocensurada, trabalhando e estudando para ser cada vez mais eficiente em ajudar a acelerar os sonhos de gringos e seus agregados. Eu ouço uma voz dizer que é possível, mas ela vem de um lugar tão neutro que até seu vômito radicalesco é bem visto como limpo, cheiroso e digno de não ser banido.
A posição chamada _adulta_ é uma onde reprimimos tudo e apenas fazemos todo o necessário para sobreviver. Tudo fica guardado para a confidência de alguém que nunca está lá para te ouvir e quando está tem muito para fazer além de te escutar e acolher.
Na esteira desse tempo, não há afago, carinho, abraço. Pessoas sensíveis e vulneráveis tomam muito tempo, deveriam deixar de ser assim, deveriam crescer, é isso? São como... crianças, como... gente dependente... são... inúteis! Era essa a palavra. O útil, eficaz e consistente também, sem se esquecer de sorrir e passar uma energia boa para não deixar ninguém desconfortável.
Desconfortável.
Corta para um outro tempo. Meu rosto é como uma poça d'água e meu rosto é um vulcão que a cada aleatório minuto acorda e dispara, sem pêndulo, sem volta cronometrada. Eu não sou flor atóxica, asas de fada, o esforço em ser uma _boa pessoa_... com uma faca bem amolada.
Pouco cuidado se teve com este nome, fizeram dele tudo que quiseram. Poetisas me ensinaram a não persistir em ser vítima de nada, nem ter medo do poder. De fazer o poder, de usar ele para revigorar quando de novo é a hora de ser reciclada. É ao mesmo tempo curta e longa a estrada. Em um planeta que pousamos, havia gente que não se afirmava, nem sequer essa peneira usava, e perguntaram para que serve essa casca.
Nada mais perfeito do que errar horrivelmente. Mas o Tempo... não é essa pressão de culpa e vergonha. O Tempo só se repara no vácuo depois da explosão. Ele é a água, e a minha língua quando a sente também vira água. Às vezes meu peito pensa na morte e chora... e às vezes se pergunta como viver agora, sem temer o desperdício. Meu pensamento é um ciclo, ele se repete, repete, repete...
Não há tempo para perseguir laudos, não há tempo para hidratar meus poros e reduzir o frizz, não há tempo para fazer a curva da sobrancelha alinhar-se com meu nariz não há tempo para saber como convencer alguém na próxima entrevista de que tenho lugar no seu plano escasso de exploração não há... tempo nem para lamentar-se.
Eu escrevi essas palavras e não há tempo para deixá-las mais interessantes. Ainda assim, já teria imensa, plena felicidade, se elas te fizessem se sentir um pouco mais aberta, que sua corpa se amolecesse por uma fração deste Tempo grande, e tudo tivesse valido a pena.
E você soubesse, ali onde nos encontramos: _"nada pode ser consertado"._
Este Tempo, me ensinaram, este Tempo, memória viva e memória passada, neste Tempo, não há como se arrepender de nada, tudo segue a direção -- imparável, imbatível -- de ser _retransformado_. É inevitável que te desfaçam, é inevitável a derrota. Deste chão inevitável é que brotam poemas e plantas, é nele que nascem suculentas e flores de morango, é nele que se refletem águas e nuvens, é nele que crescem tuberosas e espadas.
Não há para onde ir, só mesmo ser morte e ser renascimento.
_Eu soquei essas palavras num pilão, e seu cheiro encheu ardendo toda minha sala. Eu servi essas palavras nas suas mãos, e águas quentes escorreram sobre ervas escaldadas. Eu embrulhei a xícara em um pano manchado de açafrão, e o vapor nublou a lente que os meus olhos enquadra._
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願わく は 此の 功徳 を 以て \
**普く 一切 に 及ぼし** \
我等 と 衆生 と 皆 共 に \
仏道 を 成ぜん こと を
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