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date = 2017-01-03
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que dizer
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das pedras ainda cálidas
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do murmúrio insistente do riacho
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das mãos molhadas apesar do vento
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que dizer da mesa ainda limpa
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sem nenhum risco, sem pó,
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sem as migalhas de pão preto
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ou das colheres verdes
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brilhando foscas
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depois da lavagem
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que fazer
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agora
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com a memória fresca
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das bochechas róseas
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e o cheiro
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e o som
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de tudo que foi feito
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resta uma fome
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e uma sede
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mas também o vazio
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de um laço
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que não mais prende
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o fracasso
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de não se ter nada a oferecer
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nenhuma euforia
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além da secura dos dias
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que dizer
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se não
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adeus
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date = 2017-01-05
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<em>
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mesmo sabendo
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que sempre haverá guerra
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de novo derramo
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sem nenhuma esperança
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toda minha candura
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date = 2017-01-13
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os passantes
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como os amigos
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atravessam a paisagem
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procurando o mundo
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uma imensa solidão
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nos une e separa
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nos explícitos segredos
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de nossas fechaduras
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ainda tão voraz
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como uma criança
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espero também com fome
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que algo aconteça
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date = 2017-01-20
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<em>
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na manhã refeita
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mais nove vezes o sino
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nuvens de verão
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</em>
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content/poesia/2017-02-15.md
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date = 2017-02-15
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<em>
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mesmo na lua cheia
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meus cabelos
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crescem de novo
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</em>
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content/poesia/2017-02-21.md
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date = 2017-02-21
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> Tem chovido há cinco dias \
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> correndo \
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> o mundo é \
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> uma poça redonda \
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> de água sem sol \
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> onde pequenas ilhas \
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> estão somente começando \
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> a lidar \
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> um jovem menino \
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> no meu jardim \
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> está tirando água \
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> do seu canteiro de flores \
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> quando eu lhe pergunto por que \
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> ele me diz \
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> jovens sementes que nunca viram o sol \
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> esquecem \
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> e se afogam facilmente.
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>
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> -- _Audre Lorde_
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Desde muito longe o casco da embarcação vem se arrastando, rasgando por entre os cardumes e destruindo os corais. Já tão cansado, cheio dos desenhos das águas que cortou, pode-se ver que em parte deseja desfazer-se, diluir-se na água salgada, sem medos nem receios. Deseja cantar, como uma baleia no imenso do oceano, sem esperar que nada nem ninguém lhe ouça ou aplauda, sem esperar nem mesmo o eco do abismo. E também, ao mesmo tempo, quer endurecer-se, tornar-se numa pedra, um diamante. Tornar-se um adorno num pescoço. Quer consertar alguma coisa quebrada, esboçar os desenhos do mundo. Algo lhe impele a persistir indeciso, algo que não se sabe o nome, mas que a tudo divide, dilacera e carrega na fumaça dos dias. Às vezes arde com tal brasa, com um calor jamais visto, nem mesmo nas línguas do inferno, na febre do próprio diabo. Em outros dias, uma frieza, algo que começa desde embaixo. O corpo esguio, de ossos que aparecem tão fácil, não tem com o que resistir ao clima, e mesmo assim sempre o aguenta...
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Insistentemente aceno para a encosta, tendo já levantado a âncora e içado as velas, com as bênçãos do vento convicto e bruto. Mas a maré derradeira tudo devolve à praia. Eu olho os caranguejos andando de lado, e meus olhos cansados se fecham e sonham, sabendo do rosto que via ali. Por um minuto o barulho das ondas me engole, e nenhuma criança brinca na areia molhada.
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Em cima de tudo as nuvens se arrastam, amarradas umas nas outras e nos ventos do céu. Um azul imenso encobre a madrugada. Ainda são quatro horas, e o meu relógio bate sem pressa. Tudo ao redor pode ser visto. Nem uma única palmeira interrompe o horizonte. A abóbada inteira, nua por completo, oferece-se aos olhos, sem vergonha. Enxergando as pedras ao longe, as vilas e as casas, as vitórias-régias, penso que lá poderia achar palavras, licores, e me sento na beira do barco sorrindo, e os peixes choram e riem de nervoso, pedindo com esperança e ternura, que lhes ensine a contar estrelas e prever quando a Lua aparece de novo.
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Na madeira do convés me ajoelho, e da bolsa de lona arranco os diários. Suas capas de couro marcadas do tempo, têm manchas pretas, de carvão e de giz. Lendo as palavras escritas com tinta, uma tristeza gigante se espalha no cais: ondas batendo nos muros de pedra das cidades de areia que erigi. Um a um eu os incendeio, e a fumaça empilha tão bela coluna, que ninguém jamais a poderia imitar. Eu olho e espero, meu rosto em silêncio, até que o fogo me deixa sozinha. Do céu de repente o claro se escorre, e as estrelas acendem a água brilhosa. Queimo na brasa um pedaço de palha, e com ele o primeiro cachimbo do mês. Meus ombros se encaixam no vento marinho, e eu olho as garrafas vazias rolando, ainda com os cheiros fortes do rum. No virar desta noite, junto com o Sol não há nada chegando. Nem as sereias, nem os piratas. Nem mesmo os peixes de hoje regressarão. De manhã, só o que está aqui agora amanhecerá comigo. Um longo e imenso suspiro me arrasta, "Aaaaaah!"
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50
content/poesia/2017-03-17.md
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date = 2017-03-17
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pequena,
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pequena,
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coberta de cinzas
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e lixos miúdos
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pequena,
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pequena,
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minha cidade
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daqui de cima
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vejo finalmente
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seu horizonte embaçado
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e todo seu corpo
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densamente vestido
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no meio dos troncos de pedra
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numa clareira distante
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as costas de um dragão
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se dobram resolutas
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e como piolhos metálicos
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os carros a atravessam
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olho num deslumbre
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os cachos de um prédio
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dependurados
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desde a cabeça onde me sento
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as pontas raspando no chão
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pequena,
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tão pequena,
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finalmente minha
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me engole
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a seco
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e diz
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logo agora
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que finalmente dançamos juntos,
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adeus...
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quero me tornar
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como aquela nau
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sem ninguém ao timão
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trêmula e forte
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navegando sem purezas
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entre o tudo e o nada
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content/poesia/2017-04-10.md
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date = 2017-04-10
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imensa
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inundando este quarto
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até a metade da parede branca
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envolta no silêncio
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forte e viscosa
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sem cheiro de nada
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minhas coxas sobre a cama
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eu a respiro
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e num lamento a vejo
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falo alto o seu nome
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e por todo meu peito
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ela responde
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caladas as telas,
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os brilhos brancos e azuis,
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o barulho infindável,
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– a água e a fumaça –
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consigo ver seus contornos terríveis
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que neste ser tão terrivelmente eram lindos
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por isso corremos
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nos já batidos círculos
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do seu entorno
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agora
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os licores passaram
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e o corvo cansado
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envolto pelo ninho
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assovia
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quando de novo
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a Lua for embora
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quem segurará
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esta enxurrada infernal?
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content/poesia/2017-05-06.md
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date = 2017-05-06
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<em>
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nestas chuvas de outono
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escrevo-te inúmeras cartas
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e me agasalho no papel pardo
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tão cálido e tão doce
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</em>
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6
content/poesia/2017-06-12.md
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date = 2017-06-12
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32
content/poesia/2017-07-28.md
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date = 2017-07-28
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lembrai
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da menina no quintal
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olhando choverem cinzas
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falando com Deus
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ao brincar no concreto
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riscando as ardósias
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esperando a florada…
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e agora
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estes arranjos enchendo a vista
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feitos com tanto cuidado
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com tanto tempo
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embaraçando arames
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dando nós com as unhas
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escolhendo cada flor do teu próprio rosto
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corpos indolentes
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forças desconhecidas
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entregam-me e esperam
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de olhos vazios
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sem luvas
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sem desconfiar de nada
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||||
lembrai
|
||||
da menina no quintal
|
||||
olhando choverem cinzas
|
||||
21
content/poesia/2017-08-01.md
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date = 2017-08-01
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um homem
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quer tocar fogo no mundo
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um outro
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ajoelha-se
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um homem assiste um filme
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um outro tira uma foto da lua
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||||
um homem esquenta colheres no fogo
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||||
um outro levanta pesos
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||||
um homem raspa os cabelos
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||||
um outro
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||||
não homem
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nem nada
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||||
_9 de junho_
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18
content/poesia/2017-08-07.md
Normal file
18
content/poesia/2017-08-07.md
Normal file
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@ -0,0 +1,18 @@
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date = 2017-08-07
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você também vai
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segurar um volante
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sem nada nos olhos
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arrastando as vontades
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nas curvas do mês
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não vai?
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prendendo o sentido
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que vimos queimando
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nas costas das nossas mãos
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||||
chacoalhando a garrafa
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sem nunca abrir a tampa
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||||
sem dar nenhuma notícia?
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68
content/poesia/haikus-de-inverno.md
Normal file
68
content/poesia/haikus-de-inverno.md
Normal file
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||||
title = "Haikus de inverno"
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date = 2017-07-07
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na manhã de inverno
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nasce o sol enfraquecido
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a escola vazia
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---
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se bica de frio
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o pássaro solitário
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chegada do inverno
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---
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até faltam mantas
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na madrugada gelada
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meu primeiro inverno
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---
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na manhã de inverno
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o gorinto reluzindo
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debaixo da ponte
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---
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na manhã de inverno
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esqueço o casaco em casa
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a porta do templo
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lua deste inverno
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pela janela de casa
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a cama refeita
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---
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minhas mãos rachando
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pegam a corda do sino
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inverno acordando
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na mesa da escola
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cai o inverno atribulado
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rabisco papeis
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---
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velhos agasalhos
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sem nenhuma serventia
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são ventos de inverno
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---
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finalmente inverno
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as velhas meias de lã
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servem para nada
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---
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minhas mãos geladas
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sobre o tatami vazio
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o último inverno
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36
content/poesia/hello-pet.md
Normal file
36
content/poesia/hello-pet.md
Normal file
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@ -0,0 +1,36 @@
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title = "Hello, Pet"
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date = 2017-03-20
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<em>
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hello, pet
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did you see me there?
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was I dancing well?
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did I look sad?
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hold me
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hold me
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hold me
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closeby
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a fountain
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slowly
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ceases to sing
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hello, pet
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when will I see you next?
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are you crying yet?
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are you still mad?
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hold me
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hold me
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hold me
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so far
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a thorn tree
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thirsty grows
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downwards
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</em>
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17
content/poesia/naquela-estacao.md
Normal file
17
content/poesia/naquela-estacao.md
Normal file
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@ -0,0 +1,17 @@
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||||
title = "Naquela Estação"
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date = 2017-04-18
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A porta se fechou com seus cliques metálicos, e cada estalo estava solto e calado na imensidão do banheiro. Não para se aliviar de qualquer aflição no ventre, mas para olhar o espelho, ela tinha entrado. Encontrando seus olhos contra a luz forte, e sentindo-se verdadeira no reflexo, ela por um momento perdeu-se olhando cada detalhe. Olhou nos seus olhos, as fibras de seus lábios, suas manchas de nascença. Olhou para suas roupas, para seu cabelo. Naqueles instantes estava imersa, uma excitação sutil, quase imperceptível, lhe tomava a cada mergulho na solidão, ainda que frágil e temporária como aquela. Mas logo reparou quão raso na verdade o espelho era, e na superfície gelada do vidro sua imagem já era como um quadro que, por acaso, se movia. As mãos foram até a porta, e novamente ela ouviu seus barulhos anunciando que de novo seu mundo se diluía na imensidão. Os lábios se preparavam para sorrir, ao mesmo tempo sinceros e aflitos.
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Caminhando até a sala, nenhuma excitação lhe percorria o estômago. Havia somente a mesma incerteza que lhe acompanhava desde o nascimento. O menino estava sentado no sofá, com o mesmo sorriso que ela, pendurado na paisagem do apartamento como alguém que espera o Sol nascer. Ela sentou-se do lado dele, como se devesse. Olharam-se imediatamente nos olhos, porque isto também era devido. Dentro dos olhos um do outro, nadavam devagar, cheios de tudo que não compreendiam, crentes nas ofertas que não estavam sendo feitas, e desejando intimamente, com a esperança de fazê-lo num uníssono. Estar assim era raro, mas ela se lembrava, não podia evitar lembrar-se, de como aqueles olhos eram rasos também. E de repente já pareciam ter um brilho fosco, e nada passava para além de sua retina, nenhum significado, nenhuma esperança, nada senão um rosto, uma tira de carne, esticada sobre ossos, cheia de buracos. Ele falava coisas que eram de seu comum acordo, e dizia que o mundo isto e aquilo, ou fazia promessas com docilidade. Ela respondia, dizia algo que lhe parecesse razoável, até certa medida queria entregar-se e tentar viver alguma coisa. Sabia que o que dizia era verdade, mas sabia também que não tinha importância nenhuma. Por que não podiam simplesmente calar-se, e enxergar, ao mesmo tempo? Ela estava pronta, à beira da verdade, disposta até mesmo a mergulhar de volta na tristeza imensa à qual tudo sempre lhe havia conduzido, não por qualquer patologia, mas porque a vida não era nenhuma euforia, simplesmente por se ter deixado conduzir, às vezes firmemente consciente, às vezes deslizando, as unhas dos dedões raspando no chão sem fazer barulho.
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Eventualmente algo esperado se anunciava, com os sinais das suas mãos. Ele se aproximava e recuava, sempre sorrindo. Sem recusa, ela lhe olhava nos olhos, como vidros na neblina, e se beijavam com o mesmo misto de pouca e alguma emoção. De onde vinha aquela ansiedade? Os olhos dele fechavam, para procurar algo que ninguém encontrava. Aquilo, de novo, num retorno, como das outras vezes. Seu coração pulsava devagar, e uma ansiedade fraquejante lhe tomou todo o corpo. Ela parou de beijá-lo e levantou-se. Sorrisos automáticos apareciam, e palavras dóceis conduziram o menino à porta. Indo embora, ele parecia tranquilo, pois também não queria parecer qualquer outra coisa. Ela fechou a porta, sabendo de tudo que havia sido dito, entremeado no que não disseram. Ela sabia de tudo que podia ser suposto, sabia de cada coisa que estava às claras e, ao mesmo tempo, das quais não poderia jamais ser acusada. Já não sabendo não fingir, vivia como alguém mais que aprendeu a agir adequadamente.
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Seus pés começam a caminhar para a mesa no quarto, onde um computador derramava uma luz azul sobre o colchão. Ela mergulha, desta vez se esquecendo completamente, e por duas horas inteiras se consome em memórias e planos. Estava a sós com tudo o que não era humano, só pura intermediação. Quando a fome lhe visitou, percebeu também como a tela do computador era plana e se levantou. Na cozinha encontrou os fantasmas no silêncio. Olhando o cacto na janela, esqueceu-se por um segundo de tudo, admirando o quanto ele e ela haviam crescido.
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De manhã, foi à padaria encontrar-se com alguém. Quem era mesmo? Ele aparentava estar contente, e ela também. Aparentava. Sabendo disso ela se perguntava se por dentro talvez ele não estivesse, também, quebradiço e com o gosto de areia entre os dentes. Procurava nos seus olhos alguma fascinação, mas também eram foscos e imóveis, como os olhos de um boneco. Quando foram embora, e despediram-se, ela sentiu na firmeza de suas mãos uma esperança sutil, como se tivesse em si algo de um propósito ou uma energia de estar vivendo. As memórias lhe levaram para casa. Conforme suas pernas subiam a ladeira, e sua cabeça falava, na barriga o café se revirava e uma má digestão irrompia. Mas estava tão acostumada àquela sensação insuportável no seu estômago que não era capaz de perceber. De frente ao espelho, encontrou alguma vivacidade olhando para seus próprios olhos, e ao tirar as roupas, sentiu-se bonita. Por que só ela e o cacto lhe pareciam ter vida?
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A água quente contra sua cabeça passava despercebida naquela noite, embora fosse um prazer de longa data. Algo estava preso na sua respiração, e ela não sabia o que era, só sabia perder-se na sensação de ter algo ainda por fazer, mesmo que não tivesse nada. Secou-se e sentou na mesa da sala, olhando na janela duas pombas brancas limpando uma à outra. O céu ainda estava azulado, e cheio de pequenas nuvens. Andando nervosos nessa paisagem, seus olhos encontraram de repente a Lua crescendo calada num canto, e seu corpo todo foi tomado numa fraqueza de água. Talvez tivesse sentido, naquele instante, coçar uma fortuita vontade de chorar em baixo do peito, mas não sabia discernir se o era realmente. Paralisada com o branco intenso da curva gelada, levou as mãos ao rosto querendo sentir-se aquecida. e viu que suas unhas estavam grandes. Exclamou então com surpresa, conforme seus dentes se abriram num sorriso: "Aaaah!"
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title = "O céu e os prédios"
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date = 2017-02-23
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Por uma hora inteira o granizo bateu na parede, e agora o chuvisco despenca sem alarde. Os escritórios ainda estão acesos, mesmo a tarde caindo devagar junto com a chuva. As nuvens engolem a cidade, e junto com ela as paredes do quarto, o metal da janela, e as cinzas recém queimadas, caindo aos estalos na água. Na rua os corpos passeiam, cheios do mundo, provocando em mim uma sempre insistente hesitação. Queria que alguém estivesse aqui, e que me deixasse em paz. Como sempre, minha bexiga me importuna, nunca satisfeita. Eu olho pela janela, o céu e os prédios.
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No muro do prédio vizinho, uma janela me mostra o banheiro. Uma mulher entra e lava as mãos, e eu não a olho nos olhos. É tão doce estar só. Minhas unhas cresceram, e grandes elas me provocam. As mordo com os dentes, sem deixar que se partam. O barulho do fósforo. Uma calma imensa, e com ela, nenhum medo do mundo. Com isto, também, uma preguiça sem fim. Tudo vai acabar tão logo…
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Criaram-me para suster o simbólico. A exatidão pouco me interessa. Minha força é a força de uma menina. Minha vida será, não posso evitar, a vida de uma menina. Sei que já há muito tempo tenho sido assim, alguém que se senta e não diz nada, que olha a própria sede no escuro, que fuma um cigarro na casa vazia. Há, sim, um forte e pujante desejo, e eu já sei como satisfazê-lo, só me falta provar ser capaz. Não nasci para produzir nem criar nada. Vou morrer e nem os ossos ficarão. Sou o avesso de tudo que me ofereceram. O lado de trás, o contrário. Minha natureza é dizer não, e há tanta gente que quer ouvir justamente isto…
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Quero ouvir tudo que você tem a dizer, e irei lhe obedecer diligentemente, mas jamais me enganarei de novo. Não sei mais fingir e fazer as vistas... Olho a sujeira e limpo. Se me pede para mentir, eu minto, mas não sei mais me enganar. Há tanta coisa que não dá para resolver por cima de uma mesa de restaurante, dizendo isto e aquilo, concordando e achando que temos algum consenso. São pregos na parede, onde amarramos os barbantes.
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Há em mim uma lealdade inesgotável. Não me interessa fugir e roubar do pomar de ninguém. A grama do vizinho está seca. Não quero nada seu, e lhe ofereço tudo o que tenho. Sei que é capaz de segurá-lo, já que é tão leve, mas também sei que um dia é você que vai querer conhecer outras coisas… E eu não te culpo por isso. Sou mesmo um tédio irrestrito. Não tenho nada de intenso a oferecer, se não a secura dos dias. Beba comigo até que a garrafa fique vazia. Coloque os dedos pelo bocal.
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Conheci os dois lados do todo. Já sei o que quero, e por isso mesmo decidi ir embora. É de um cinismo tão grande estar viva. Fingir que se entende o que o outro diz. Que se sabe a pergunta e a resposta. Depois de um tempo aqui, você repara: não há nada para dizer, e mesmo assim, todos querem ouvir a mesma coisa. A vida é uma ordem. Sempre se está procurando alguém para oferecer nos sacrifícios. Que problema há em levantar a mão e ser a oferenda? Queimar completamente, sem deixar nem mesmo as cinzas…
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Olhando fotos antigas, vejo como nunca nos conhecemos. Ninguém nunca saberá quem é o outro, mas por um momento pensamos ser assim. Eu olho um rosto nas fotos e me vem uma fraqueza de água, e meu corpo todo se estica aos extremos, quase rompendo esta pele pálida e adoentada. Mas também há fotos tão mais remotas… E nelas, no meu rosto infantil, eu encontro uma tranquilidade imensa. Vejo que eu sempre estive aqui, e não foi nenhum pecado termos errado tanto. Que me enchi de tantas crenças, e que você também é só outro crédulo, inocente, que como eu está planando nas rajadas do mundo…
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Hoje durmo tarde, não estou com medo de estar triste. Eu ainda tenho as fotografias todas. E nelas está impresso um perdão irrestrito a todos os erros que cometemos. Sempre estivemos buscando, desde lá, tornarmo-nos o que nos tornamos. Talvez nunca tivéssemos nos nossos próprios planos, e é muito fortuito que tenhamos nos ajudado a chegar aonde nos separamos.
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Que se pode fazer com o Sol depois que já nasceu? Ninguém pode dizer que não tem medo. A solidão é sempre pulsante, e repetidamente nos pede um suspiro profundo. Ás vezes há uma saciedade inebriante, e às vezes só podemos deitar no chão, e lembrar que chorar, ou não conseguir fazê-lo, são também formas de estar viva. Ás vezes quero me abster de tudo, mas já é suficiente o que me foi arrancado até agora.
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title = "O Corpo que o Rio Levou"
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date = 2017-04-14
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me lembro dele
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todo por dentro
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com suas marcas de cansaço
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e os cabelos embaraçados
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que ninguém podia pentear
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tinha uma pele tão fina
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que tão fácil rasgava
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e manchas de cores
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mudando sem parar
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era tão liso, tão sutil
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eu o pintava com cuidado
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e olhava no espelho
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polindo suas arestas redondas
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pendurava panos
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e passava enfeites de madeira
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nas suas pontas soltas
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todos olhavam
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o corpo que o rio levou
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ele sentava e sorria
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deitava e chorava
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recebia tantas visitas
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que entravam e saíam
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sem medo de se afogar
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andava sem medo
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sozinho e cheio de amigos
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a morder as unhas
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nadando tranquilo no oceano
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sem saber das arraias
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era todo opaco
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de cores sempre neutras
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discreto e soberbo
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eu também gostava
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do corpo que o rio levou
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mas algo lhe atravessava
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desde entre as pernas
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com uma firmeza violenta
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e as linhas firmes do mundo
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rasgaram de uma ponta à outra
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o corpo que o rio levou
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dilacerado assim
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queria desfazer-se
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no meio da fumaça
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e ir embora de novo
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tão cedo quanto pudesse
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estava preso e aflito
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procurando as chaves na grama
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com pulsos cerrados
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e lábios partidos
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não flertava com nada
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de repente
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sem avisar a ninguém
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foi embora nas águas de ontem
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mas seu esqueleto ergueu-se
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ficou, numa nudez absoluta
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e acenou irreconhecível para todos
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– sem resposta –
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escorreram, com o rio,
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os amigos e os amores
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os tapetes, os talheres,
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seis vidas vividas e ainda
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o rio…
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content/poesia/panos-frios.md
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title = "Panos Frios"
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date = 2017-06-26
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"Eu estou indo. Você vem?", ele perguntou olhando para mim. O rosto cansado, os olhos incertos. Ele era um desses tipos produtivos, que saem no mundo e fazem as coisas, que sorriem e dizem bom dia, boa tarde e boa noite, que fazem as piadas das quais rimos, que reagem ao chão sujo, ao pó em cima das coisas, que se irritam quando as pessoas não decidem logo onde vão comer, e que erguem tudo isso sobre longos caniços de algodão. Tinha vencido tão recentemente sua adolescência e já lhe parecia que inumeráveis eras tinham se passado desde então. Como eu, era uma relapsa criança do mundo, nascida e criada no pecado.
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Levantei pegando as coisas devagar, como que para irritá-lo, mas sem saber. Olhei no seu rosto sem ficar por muito tempo, só para ter o vislumbre da sua pressa. "Ainda tenho que lavar as minhas mãos", disse olhando para a cadeira, mergulhado nas listras verdes que desciam contra o fundo branco, fazendo curvas suaves, me levando embora no amarelo envelhecido. Sem saber também, eu era feita de um amor que desconhecia. "Por que você não vai indo na frente?", perguntei.
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"Eu espero", ele respondeu relaxando os olhos, como se fosse justamente o que quisesse ouvir, e dizer. Sua expressão já não estava tão aflita, e agora descansava nos meus ombros, como se visse neles um lugar onde todas as coisas do mundo por um momento dormiam um sono sagrado. Sem perceber, era na minha negligência que encontrava seu único refúgio das horas do dia, do Sol, da força tortuosa da Lua, que jamais se cansava de renascer, da febre que estava sempre queimando dentro dele.
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Cheguei finalmente na porta, a chave nas mãos, os olhos nas flores do lado de fora. Estava quente e a máquina de lavar roupas roncava, forçando violenta os seus parafusos velhos. Tinha o cheiro do meu pai, e eu não sentia. Fechei a porta daquela casa minúscula, que de tão pequena não fazia diferença se aberta ou fechada. Era um ninho de fantasmas e dores, e nenhum de nós sabia que morávamos em uma das grutas do inferno. Ele já estava puxando o pesado portão de ferro com aquelas mãos, aquelas... seus cabelos caindo sobre as costas nuas. Era o portal para a rua onde o calor da primavera castigava a cidade, e ele escorreu feito fumaça pela rampa da garagem. Tranquei com dificuldade aquela trava enferrujada e comecei a dar os primeiros passos a caminho do ponto de ônibus. Um silêncio difícil.
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"Acho que quero parar de comer tanto açúcar", falei de repente. Ele fez um barulho indistinto, algo como um murmúrio, mas também não exatamente isto. Todo som que fazia era para mim nevoento, novo, não dava para ter na memória, porque nunca fazia sentido. Sempre que falava, não lhe entendia, e ainda assim insistia em meu suplício. Depois disso disse algo mais. Algo que me encorajava, que era até sensível e carinhoso. Que vinha do seu íntimo, repleto de tudo que eu sempre quis ouvir dele. Nada tinha de críptico, porque tinha sido aprendido — mas eu não me lembro muito bem. Me lembro, porém, daquele som que veio antes. Aquele murmúrio vago, que linha nenhuma podia riscar o contorno, feito de um dissabor que já tinha se tornado o couro das nossas peles, um ruído que tinha todas as cores da saudade, e de nenhuma delas eu sabia o nome.
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Olhei para o seu rosto mais uma vez. Seus cílios colossais, como galhos de araucária curvando-se para o céu. Por um momento muito breve me perguntei quem estava ali. Quando as coisas iam mal eu lembrava do passado e olhava fotografias. E eu chorava. Não sabia que ele não fazia a mesma coisa. Nem conseguia imaginar que outra coisa fazer. Não sabia naquele tempo que era como olhar fotos de gente morta. E ele? Eis o que nunca soube, nem nunca vou saber, até porque hoje ele já morreu por completo, fundido no passado como um chiclete no asfalto, e não sobrou nada. O que é que ele fazia, no escuro? Viramos a esquina e o ponto de ônibus estava logo ali. Não demorou até aquela nau azul de dezesseis toneladas virar a esquina.
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Será que ele se lembra daquela esquina? De onde eles escorriam com seus letreiros luminosos, que de noite brilhavam cheios de esperança no meio do nada, dizendo Penha, Tucuruvi, Armênia, saciando feito um bálsamo nossas ansiedades instantâneas que se espalhavam cobrindo o que estava ali, gritante e invisível, à flor da nossa pele, feito aquela planta de tomilho no nosso jardim? aquela, que crescia para os lados e nós não entendíamos bem para onde, como se fosse uma planta rasteira? mas nós é que não sabíamos que ela queria ser um arbusto... Ele era realmente terrível, pairando desconectado de tudo, feito um balão sem tripulantes. Será que perdi todos aqueles anos da minha vida?
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Subimos os degraus puxando pelos apoios, e segurando naquelas barras amarelas, nas alças dependuradas ao nosso redor, um único ponto do mundo com um sem-número de lugares onde se apoiar, para os quais os braços se esticavam sem precisarmos pensar. Foi assim até chegarmos na catraca. Pagamos o preço e sentamos finalmente, lado a lado. Nos encostamos e abraçamos. Deitamos na sensação de termos terminado alguma coisa, olhando através do vidro riscado da janela, onde alguém havia escrito o meu nome. Sentia com as mãos suas unhas comidas, e a sua pele era fria contra a minha tão quente, apesar de estarmos, eu e ele, espiritualmente ausentes. Algo acontece com o amor uma hora, eu acho.
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Nossos olhos se fecharam e por um momento nos fazíamos carinho, sem entender muito bem ou ter nada resolvido, sem saber também que os fios só estavam se embaraçando ainda mais, e que os nós estavam se atando pra além de qualquer milagre, que tudo se prendia quanto mais andávamos por cima daquelas teias. Olhei para o seu rosto, que não se importava ou talvez nem percebesse o labirinto no qual tínhamos nos perdido. Ele tinha uma coragem inesgotável, mas ambição nenhuma. Cínico, mas confiante. Seu corpo estava imóvel, apoiado no banco do ônibus. Era um corpo sensível, cheio de marcas e de desejos. Nos entreolhamos de repente, e o silêncio morreu abruptamente: "Eu estou indo. Você vem?"
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title = "Poemas do Exílio"
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date = 2017-01-30
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sua nudez casual
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no dia de nosso enterro
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como uma flor do avesso
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_23? de outubro_
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de soslaio
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escassas visões
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de trás da cortina
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nem uma única flor
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_4 de novembro_
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a língua do dragão
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amarela e preta
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me suga para dentro
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dizendo seu preço
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_14 de novembro_
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às vezes
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a Lua branca e cheia
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ilumina tudo
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às vezes
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desaparece
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deixando as estrelas sozinhas
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às vezes
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_26 de novembro_
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cheio de memórias
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o suco de abacaxi
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em cima da mesa
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_janeiro de 2017_
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||||
depois do aguaceiro
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no parque a pequena árvore
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começa a secar
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||||
_27 de janeiro de 2017_
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title: "Poemas do Regresso"
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date: 2017-05-30
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categories:
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- "poetica"
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as horas
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na mesa da escola
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fumaça
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das linhas do dia
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frio
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vinte e três vezes sem medo
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e agora?
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a muralha
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no rosto
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um brilho
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olho
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e vejo anjos
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meu corpo refeito
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do escuro
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_15 a 20 de maio de 2017_
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<center><em>
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algo que não tinha
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de repente me estranha
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no meio do som
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da escola vazia
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como uma criança descalça
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empunho um fuzil
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sem balas
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sem flores
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só esta fraqueza
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uma vontade espessa
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que me retesa
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mas enche de água
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</em></center>
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---
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<center><em>
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há algo em mim que sente
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e sabe que sente
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só isso
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||||
mais nada
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</em></center>
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---
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<center><em>
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a impressora
|
||||
um dois três
|
||||
folhas de papel
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bom dia
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</em></center>
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18
content/poesia/silent-white-walls.md
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18
content/poesia/silent-white-walls.md
Normal file
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@ -0,0 +1,18 @@
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+++
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||||
title = "Silent White Walls"
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date = 2017-04-18
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+++
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||||
<em>
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||||
|
||||
slowly
|
||||
a silence creeps in
|
||||
through these white walls
|
||||
|
||||
are you
|
||||
drifting away?
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||||
</em>
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||||
24 de junho 06 de 2016
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