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Juno Takano 2025-10-16 16:35:58 -03:00
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date = 2017-01-03
+++
que dizer
das pedras ainda cálidas
do murmúrio insistente do riacho
das mãos molhadas apesar do vento
que dizer da mesa ainda limpa
sem nenhum risco, sem pó,
sem as migalhas de pão preto
ou das colheres verdes
brilhando foscas
depois da lavagem
que fazer
agora
com a memória fresca
das bochechas róseas
e o cheiro
e o som
de tudo que foi feito
resta uma fome
e uma sede
mas também o vazio
de um laço
que não mais prende
o fracasso
de não se ter nada a oferecer
nenhuma euforia
além da secura dos dias
que dizer
se não
adeus

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date = 2017-01-05
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<em>
mesmo sabendo
que sempre haverá guerra
de novo derramo
sem nenhuma esperança
toda minha candura
</em>

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date = 2017-01-13
+++
os passantes
como os amigos
atravessam a paisagem
procurando o mundo
uma imensa solidão
nos une e separa
nos explícitos segredos
de nossas fechaduras
ainda tão voraz
como uma criança
espero também com fome
que algo aconteça

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date = 2017-01-20
+++
<em>
na manhã refeita
mais nove vezes o sino
nuvens de verão
</em>

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date = 2017-02-15
+++
<em>
mesmo na lua cheia
meus cabelos
crescem de novo
</em>

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@ -0,0 +1,32 @@
+++
date = 2017-02-21
+++
> Tem chovido há cinco dias \
> correndo \
> o mundo é \
> uma poça redonda \
> de água sem sol \
> onde pequenas ilhas \
> estão somente começando \
> a lidar \
> um jovem menino \
> no meu jardim \
> está tirando água \
> do seu canteiro de flores \
> quando eu lhe pergunto por que \
> ele me diz \
> jovens sementes que nunca viram o sol \
> esquecem \
> e se afogam facilmente.
>
> -- _Audre Lorde_
Desde muito longe o casco da embarcação vem se arrastando, rasgando por entre os cardumes e destruindo os corais. Já tão cansado, cheio dos desenhos das águas que cortou, pode-se ver que em parte deseja desfazer-se, diluir-se na água salgada, sem medos nem receios. Deseja cantar, como uma baleia no imenso do oceano, sem esperar que nada nem ninguém lhe ouça ou aplauda, sem esperar nem mesmo o eco do abismo. E também, ao mesmo tempo, quer endurecer-se, tornar-se numa pedra, um diamante. Tornar-se um adorno num pescoço. Quer consertar alguma coisa quebrada, esboçar os desenhos do mundo. Algo lhe impele a persistir indeciso, algo que não se sabe o nome, mas que a tudo divide, dilacera e carrega na fumaça dos dias. Às vezes arde com tal brasa, com um calor jamais visto, nem mesmo nas línguas do inferno, na febre do próprio diabo. Em outros dias, uma frieza, algo que começa desde embaixo. O corpo esguio, de ossos que aparecem tão fácil, não tem com o que resistir ao clima, e mesmo assim sempre o aguenta...
Insistentemente aceno para a encosta, tendo já levantado a âncora e içado as velas, com as bênçãos do vento convicto e bruto. Mas a maré derradeira tudo devolve à praia. Eu olho os caranguejos andando de lado, e meus olhos cansados se fecham e sonham, sabendo do rosto que via ali. Por um minuto o barulho das ondas me engole, e nenhuma criança brinca na areia molhada.
Em cima de tudo as nuvens se arrastam, amarradas umas nas outras e nos ventos do céu. Um azul imenso encobre a madrugada. Ainda são quatro horas, e o meu relógio bate sem pressa. Tudo ao redor pode ser visto. Nem uma única palmeira interrompe o horizonte. A abóbada inteira, nua por completo, oferece-se aos olhos, sem vergonha. Enxergando as pedras ao longe, as vilas e as casas, as vitórias-régias, penso que lá poderia achar palavras, licores, e me sento na beira do barco sorrindo, e os peixes choram e riem de nervoso, pedindo com esperança e ternura, que lhes ensine a contar estrelas e prever quando a Lua aparece de novo.
Na madeira do convés me ajoelho, e da bolsa de lona arranco os diários. Suas capas de couro marcadas do tempo, têm manchas pretas, de carvão e de giz. Lendo as palavras escritas com tinta, uma tristeza gigante se espalha no cais: ondas batendo nos muros de pedra das cidades de areia que erigi. Um a um eu os incendeio, e a fumaça empilha tão bela coluna, que ninguém jamais a poderia imitar. Eu olho e espero, meu rosto em silêncio, até que o fogo me deixa sozinha. Do céu de repente o claro se escorre, e as estrelas acendem a água brilhosa. Queimo na brasa um pedaço de palha, e com ele o primeiro cachimbo do mês. Meus ombros se encaixam no vento marinho, e eu olho as garrafas vazias rolando, ainda com os cheiros fortes do rum. No virar desta noite, junto com o Sol não há nada chegando. Nem as sereias, nem os piratas. Nem mesmo os peixes de hoje regressarão. De manhã, só o que está aqui agora amanhecerá comigo. Um longo e imenso suspiro me arrasta, "Aaaaaah!"

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@ -0,0 +1,50 @@
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date = 2017-03-17
+++
pequena,
pequena,
coberta de cinzas
e lixos miúdos
pequena,
pequena,
minha cidade
daqui de cima
vejo finalmente
seu horizonte embaçado
e todo seu corpo
densamente vestido
no meio dos troncos de pedra
numa clareira distante
as costas de um dragão
se dobram resolutas
e como piolhos metálicos
os carros a atravessam
olho num deslumbre
os cachos de um prédio
dependurados
desde a cabeça onde me sento
as pontas raspando no chão
pequena,
tão pequena,
finalmente minha
me engole
a seco
e diz
logo agora
que finalmente dançamos juntos,
adeus...
quero me tornar
como aquela nau
sem ninguém ao timão
trêmula e forte
navegando sem purezas
entre o tudo e o nada

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@ -0,0 +1,40 @@
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date = 2017-04-10
+++
imensa
inundando este quarto
até a metade da parede branca
envolta no silêncio
forte e viscosa
sem cheiro de nada
minhas coxas sobre a cama
eu a respiro
e num lamento a vejo
falo alto o seu nome
e por todo meu peito
ela responde
caladas as telas,
os brilhos brancos e azuis,
o barulho infindável,
a água e a fumaça
consigo ver seus contornos terríveis
que neste ser tão terrivelmente eram lindos
por isso corremos
nos já batidos círculos
do seu entorno
agora
os licores passaram
e o corvo cansado
envolto pelo ninho
assovia
quando de novo
a Lua for embora
quem segurará
esta enxurrada infernal?

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@ -0,0 +1,13 @@
+++
date = 2017-05-06
+++
<em>
nestas chuvas de outono
escrevo-te inúmeras cartas
e me agasalho no papel pardo
tão cálido e tão doce
</em>

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@ -0,0 +1,6 @@
+++
date = 2017-06-12
+++
![Desenho à mão de um quadrado com os cantos apontando para cima, baixo, direita e esquerda. O quadrado está repleto de símbolos como letras, números e caracteres japoneses e chineses. No centro do quadrado há um recorte com linhas retas se cruzando e formando ângulos retos. Outro recorte no centro deste mostra uma parte ainda mais interior, repleta de linhas curvas que se intercalam, passando por cima e por baixo umas das outras. No núcleo mais interior, um círculo disforme se sobrepõe às curvas, completamente vazio.](/images/reves-rosetta.png)

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@ -0,0 +1,32 @@
+++
date = 2017-07-28
+++
lembrai
da menina no quintal
olhando choverem cinzas
falando com Deus
ao brincar no concreto
riscando as ardósias
esperando a florada…
e agora
estes arranjos enchendo a vista
feitos com tanto cuidado
com tanto tempo
embaraçando arames
dando nós com as unhas
escolhendo cada flor do teu próprio rosto
corpos indolentes
forças desconhecidas
entregam-me e esperam
de olhos vazios
sem luvas
sem desconfiar de nada
lembrai
da menina no quintal
olhando choverem cinzas

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@ -0,0 +1,21 @@
+++
date = 2017-08-01
+++
um homem
quer tocar fogo no mundo
um outro
ajoelha-se
um homem assiste um filme
um outro tira uma foto da lua
um homem esquenta colheres no fogo
um outro levanta pesos
um homem raspa os cabelos
um outro
não homem
nem nada
_9 de junho_

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@ -0,0 +1,18 @@
+++
date = 2017-08-07
+++
você também vai
segurar um volante
sem nada nos olhos
arrastando as vontades
nas curvas do mês
não vai?
prendendo o sentido
que vimos queimando
nas costas das nossas mãos
chacoalhando a garrafa
sem nunca abrir a tampa
sem dar nenhuma notícia?

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@ -0,0 +1,68 @@
+++
title = "Haikus de inverno"
date = 2017-07-07
+++
na manhã de inverno
nasce o sol enfraquecido
a escola vazia
---
se bica de frio
o pássaro solitário
chegada do inverno
---
até faltam mantas
na madrugada gelada
meu primeiro inverno
---
na manhã de inverno
o gorinto reluzindo
debaixo da ponte
---
na manhã de inverno
esqueço o casaco em casa
a porta do templo
---
lua deste inverno
pela janela de casa
a cama refeita
---
minhas mãos rachando
pegam a corda do sino
inverno acordando
---
na mesa da escola
cai o inverno atribulado
rabisco papeis
---
velhos agasalhos
sem nenhuma serventia
são ventos de inverno
---
finalmente inverno
as velhas meias de lã
servem para nada
---
minhas mãos geladas
sobre o tatami vazio
o último inverno

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@ -0,0 +1,36 @@
+++
title = "Hello, Pet"
date = 2017-03-20
+++
<em>
hello, pet
did you see me there?
was I dancing well?
did I look sad?
hold me
hold me
hold me
closeby
a fountain
slowly
ceases to sing
hello, pet
when will I see you next?
are you crying yet?
are you still mad?
hold me
hold me
hold me
so far
a thorn tree
thirsty grows
downwards
</em>

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@ -0,0 +1,17 @@
+++
title = "Naquela Estação"
date = 2017-04-18
+++
A porta se fechou com seus cliques metálicos, e cada estalo estava solto e calado na imensidão do banheiro. Não para se aliviar de qualquer aflição no ventre, mas para olhar o espelho, ela tinha entrado. Encontrando seus olhos contra a luz forte, e sentindo-se verdadeira no reflexo, ela por um momento perdeu-se olhando cada detalhe. Olhou nos seus olhos, as fibras de seus lábios, suas manchas de nascença. Olhou para suas roupas, para seu cabelo. Naqueles instantes estava imersa, uma excitação sutil, quase imperceptível, lhe tomava a cada mergulho na solidão, ainda que frágil e temporária como aquela. Mas logo reparou quão raso na verdade o espelho era, e na superfície gelada do vidro sua imagem já era como um quadro que, por acaso, se movia. As mãos foram até a porta, e novamente ela ouviu seus barulhos anunciando que de novo seu mundo se diluía na imensidão. Os lábios se preparavam para sorrir, ao mesmo tempo sinceros e aflitos.
Caminhando até a sala, nenhuma excitação lhe percorria o estômago. Havia somente a mesma incerteza que lhe acompanhava desde o nascimento. O menino estava sentado no sofá, com o mesmo sorriso que ela, pendurado na paisagem do apartamento como alguém que espera o Sol nascer. Ela sentou-se do lado dele, como se devesse. Olharam-se imediatamente nos olhos, porque isto também era devido. Dentro dos olhos um do outro, nadavam devagar, cheios de tudo que não compreendiam, crentes nas ofertas que não estavam sendo feitas, e desejando intimamente, com a esperança de fazê-lo num uníssono. Estar assim era raro, mas ela se lembrava, não podia evitar lembrar-se, de como aqueles olhos eram rasos também. E de repente já pareciam ter um brilho fosco, e nada passava para além de sua retina, nenhum significado, nenhuma esperança, nada senão um rosto, uma tira de carne, esticada sobre ossos, cheia de buracos. Ele falava coisas que eram de seu comum acordo, e dizia que o mundo isto e aquilo, ou fazia promessas com docilidade. Ela respondia, dizia algo que lhe parecesse razoável, até certa medida queria entregar-se e tentar viver alguma coisa. Sabia que o que dizia era verdade, mas sabia também que não tinha importância nenhuma. Por que não podiam simplesmente calar-se, e enxergar, ao mesmo tempo? Ela estava pronta, à beira da verdade, disposta até mesmo a mergulhar de volta na tristeza imensa à qual tudo sempre lhe havia conduzido, não por qualquer patologia, mas porque a vida não era nenhuma euforia, simplesmente por se ter deixado conduzir, às vezes firmemente consciente, às vezes deslizando, as unhas dos dedões raspando no chão sem fazer barulho.
Eventualmente algo esperado se anunciava, com os sinais das suas mãos. Ele se aproximava e recuava, sempre sorrindo. Sem recusa, ela lhe olhava nos olhos, como vidros na neblina, e se beijavam com o mesmo misto de pouca e alguma emoção. De onde vinha aquela ansiedade? Os olhos dele fechavam, para procurar algo que ninguém encontrava. Aquilo, de novo, num retorno, como das outras vezes. Seu coração pulsava devagar, e uma ansiedade fraquejante lhe tomou todo o corpo. Ela parou de beijá-lo e levantou-se. Sorrisos automáticos apareciam, e palavras dóceis conduziram o menino à porta. Indo embora, ele parecia tranquilo, pois também não queria parecer qualquer outra coisa. Ela fechou a porta, sabendo de tudo que havia sido dito, entremeado no que não disseram. Ela sabia de tudo que podia ser suposto, sabia de cada coisa que estava às claras e, ao mesmo tempo, das quais não poderia jamais ser acusada. Já não sabendo não fingir, vivia como alguém mais que aprendeu a agir adequadamente.
Seus pés começam a caminhar para a mesa no quarto, onde um computador derramava uma luz azul sobre o colchão. Ela mergulha, desta vez se esquecendo completamente, e por duas horas inteiras se consome em memórias e planos. Estava a sós com tudo o que não era humano, só pura intermediação. Quando a fome lhe visitou, percebeu também como a tela do computador era plana e se levantou. Na cozinha encontrou os fantasmas no silêncio. Olhando o cacto na janela, esqueceu-se por um segundo de tudo, admirando o quanto ele e ela haviam crescido.
De manhã, foi à padaria encontrar-se com alguém. Quem era mesmo? Ele aparentava estar contente, e ela também. Aparentava. Sabendo disso ela se perguntava se por dentro talvez ele não estivesse, também, quebradiço e com o gosto de areia entre os dentes. Procurava nos seus olhos alguma fascinação, mas também eram foscos e imóveis, como os olhos de um boneco. Quando foram embora, e despediram-se, ela sentiu na firmeza de suas mãos uma esperança sutil, como se tivesse em si algo de um propósito ou uma energia de estar vivendo. As memórias lhe levaram para casa. Conforme suas pernas subiam a ladeira, e sua cabeça falava, na barriga o café se revirava e uma má digestão irrompia. Mas estava tão acostumada àquela sensação insuportável no seu estômago que não era capaz de perceber. De frente ao espelho, encontrou alguma vivacidade olhando para seus próprios olhos, e ao tirar as roupas, sentiu-se bonita. Por que só ela e o cacto lhe pareciam ter vida?
A água quente contra sua cabeça passava despercebida naquela noite, embora fosse um prazer de longa data. Algo estava preso na sua respiração, e ela não sabia o que era, só sabia perder-se na sensação de ter algo ainda por fazer, mesmo que não tivesse nada. Secou-se e sentou na mesa da sala, olhando na janela duas pombas brancas limpando uma à outra. O céu ainda estava azulado, e cheio de pequenas nuvens. Andando nervosos nessa paisagem, seus olhos encontraram de repente a Lua crescendo calada num canto, e seu corpo todo foi tomado numa fraqueza de água. Talvez tivesse sentido, naquele instante, coçar uma fortuita vontade de chorar em baixo do peito, mas não sabia discernir se o era realmente. Paralisada com o branco intenso da curva gelada, levou as mãos ao rosto querendo sentir-se aquecida. e viu que suas unhas estavam grandes. Exclamou então com surpresa, conforme seus dentes se abriram num sorriso: "Aaaah!"

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title = "O céu e os prédios"
date = 2017-02-23
+++
Por uma hora inteira o granizo bateu na parede, e agora o chuvisco despenca sem alarde. Os escritórios ainda estão acesos, mesmo a tarde caindo devagar junto com a chuva. As nuvens engolem a cidade, e junto com ela as paredes do quarto, o metal da janela, e as cinzas recém queimadas, caindo aos estalos na água. Na rua os corpos passeiam, cheios do mundo, provocando em mim uma sempre insistente hesitação. Queria que alguém estivesse aqui, e que me deixasse em paz. Como sempre, minha bexiga me importuna, nunca satisfeita. Eu olho pela janela, o céu e os prédios.
No muro do prédio vizinho, uma janela me mostra o banheiro. Uma mulher entra e lava as mãos, e eu não a olho nos olhos. É tão doce estar só. Minhas unhas cresceram, e grandes elas me provocam. As mordo com os dentes, sem deixar que se partam. O barulho do fósforo. Uma calma imensa, e com ela, nenhum medo do mundo. Com isto, também, uma preguiça sem fim. Tudo vai acabar tão logo…
Criaram-me para suster o simbólico. A exatidão pouco me interessa. Minha força é a força de uma menina. Minha vida será, não posso evitar, a vida de uma menina. Sei que já há muito tempo tenho sido assim, alguém que se senta e não diz nada, que olha a própria sede no escuro, que fuma um cigarro na casa vazia. Há, sim, um forte e pujante desejo, e eu já sei como satisfazê-lo, só me falta provar ser capaz. Não nasci para produzir nem criar nada. Vou morrer e nem os ossos ficarão. Sou o avesso de tudo que me ofereceram. O lado de trás, o contrário. Minha natureza é dizer não, e há tanta gente que quer ouvir justamente isto…
Quero ouvir tudo que você tem a dizer, e irei lhe obedecer diligentemente, mas jamais me enganarei de novo. Não sei mais fingir e fazer as vistas... Olho a sujeira e limpo. Se me pede para mentir, eu minto, mas não sei mais me enganar. Há tanta coisa que não dá para resolver por cima de uma mesa de restaurante, dizendo isto e aquilo, concordando e achando que temos algum consenso. São pregos na parede, onde amarramos os barbantes.
Há em mim uma lealdade inesgotável. Não me interessa fugir e roubar do pomar de ninguém. A grama do vizinho está seca. Não quero nada seu, e lhe ofereço tudo o que tenho. Sei que é capaz de segurá-lo, já que é tão leve, mas também sei que um dia é você que vai querer conhecer outras coisas… E eu não te culpo por isso. Sou mesmo um tédio irrestrito. Não tenho nada de intenso a oferecer, se não a secura dos dias. Beba comigo até que a garrafa fique vazia. Coloque os dedos pelo bocal.
Conheci os dois lados do todo. Já sei o que quero, e por isso mesmo decidi ir embora. É de um cinismo tão grande estar viva. Fingir que se entende o que o outro diz. Que se sabe a pergunta e a resposta. Depois de um tempo aqui, você repara: não há nada para dizer, e mesmo assim, todos querem ouvir a mesma coisa. A vida é uma ordem. Sempre se está procurando alguém para oferecer nos sacrifícios. Que problema há em levantar a mão e ser a oferenda? Queimar completamente, sem deixar nem mesmo as cinzas…
Olhando fotos antigas, vejo como nunca nos conhecemos. Ninguém nunca saberá quem é o outro, mas por um momento pensamos ser assim. Eu olho um rosto nas fotos e me vem uma fraqueza de água, e meu corpo todo se estica aos extremos, quase rompendo esta pele pálida e adoentada. Mas também há fotos tão mais remotas… E nelas, no meu rosto infantil, eu encontro uma tranquilidade imensa. Vejo que eu sempre estive aqui, e não foi nenhum pecado termos errado tanto. Que me enchi de tantas crenças, e que você também é só outro crédulo, inocente, que como eu está planando nas rajadas do mundo…
Hoje durmo tarde, não estou com medo de estar triste. Eu ainda tenho as fotografias todas. E nelas está impresso um perdão irrestrito a todos os erros que cometemos. Sempre estivemos buscando, desde lá, tornarmo-nos o que nos tornamos. Talvez nunca tivéssemos nos nossos próprios planos, e é muito fortuito que tenhamos nos ajudado a chegar aonde nos separamos.
Que se pode fazer com o Sol depois que já nasceu? Ninguém pode dizer que não tem medo. A solidão é sempre pulsante, e repetidamente nos pede um suspiro profundo. Ás vezes há uma saciedade inebriante, e às vezes só podemos deitar no chão, e lembrar que chorar, ou não conseguir fazê-lo, são também formas de estar viva. Ás vezes quero me abster de tudo, mas já é suficiente o que me foi arrancado até agora.

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title = "O Corpo que o Rio Levou"
date = 2017-04-14
+++
me lembro dele
todo por dentro
com suas marcas de cansaço
e os cabelos embaraçados
que ninguém podia pentear
tinha uma pele tão fina
que tão fácil rasgava
e manchas de cores
mudando sem parar
era tão liso, tão sutil
eu o pintava com cuidado
e olhava no espelho
polindo suas arestas redondas
pendurava panos
e passava enfeites de madeira
nas suas pontas soltas
todos olhavam
o corpo que o rio levou
ele sentava e sorria
deitava e chorava
recebia tantas visitas
que entravam e saíam
sem medo de se afogar
andava sem medo
sozinho e cheio de amigos
a morder as unhas
nadando tranquilo no oceano
sem saber das arraias
era todo opaco
de cores sempre neutras
discreto e soberbo
eu também gostava
do corpo que o rio levou
mas algo lhe atravessava
desde entre as pernas
com uma firmeza violenta
e as linhas firmes do mundo
rasgaram de uma ponta à outra
o corpo que o rio levou
dilacerado assim
queria desfazer-se
no meio da fumaça
e ir embora de novo
tão cedo quanto pudesse
estava preso e aflito
procurando as chaves na grama
com pulsos cerrados
e lábios partidos
não flertava com nada
de repente
sem avisar a ninguém
foi embora nas águas de ontem
mas seu esqueleto ergueu-se
ficou, numa nudez absoluta
e acenou irreconhecível para todos
sem resposta
escorreram, com o rio,
os amigos e os amores
os tapetes, os talheres,
seis vidas vividas e ainda
o rio…

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title = "Panos Frios"
date = 2017-06-26
+++
"Eu estou indo. Você vem?", ele perguntou olhando para mim. O rosto cansado, os olhos incertos. Ele era um desses tipos produtivos, que saem no mundo e fazem as coisas, que sorriem e dizem bom dia, boa tarde e boa noite, que fazem as piadas das quais rimos, que reagem ao chão sujo, ao pó em cima das coisas, que se irritam quando as pessoas não decidem logo onde vão comer, e que erguem tudo isso sobre longos caniços de algodão. Tinha vencido tão recentemente sua adolescência e já lhe parecia que inumeráveis eras tinham se passado desde então. Como eu, era uma relapsa criança do mundo, nascida e criada no pecado.
Levantei pegando as coisas devagar, como que para irritá-lo, mas sem saber. Olhei no seu rosto sem ficar por muito tempo, só para ter o vislumbre da sua pressa. "Ainda tenho que lavar as minhas mãos", disse olhando para a cadeira, mergulhado nas listras verdes que desciam contra o fundo branco, fazendo curvas suaves, me levando embora no amarelo envelhecido. Sem saber também, eu era feita de um amor que desconhecia. "Por que você não vai indo na frente?", perguntei.
"Eu espero", ele respondeu relaxando os olhos, como se fosse justamente o que quisesse ouvir, e dizer. Sua expressão já não estava tão aflita, e agora descansava nos meus ombros, como se visse neles um lugar onde todas as coisas do mundo por um momento dormiam um sono sagrado. Sem perceber, era na minha negligência que encontrava seu único refúgio das horas do dia, do Sol, da força tortuosa da Lua, que jamais se cansava de renascer, da febre que estava sempre queimando dentro dele.
Cheguei finalmente na porta, a chave nas mãos, os olhos nas flores do lado de fora. Estava quente e a máquina de lavar roupas roncava, forçando violenta os seus parafusos velhos. Tinha o cheiro do meu pai, e eu não sentia. Fechei a porta daquela casa minúscula, que de tão pequena não fazia diferença se aberta ou fechada. Era um ninho de fantasmas e dores, e nenhum de nós sabia que morávamos em uma das grutas do inferno. Ele já estava puxando o pesado portão de ferro com aquelas mãos, aquelas... seus cabelos caindo sobre as costas nuas. Era o portal para a rua onde o calor da primavera castigava a cidade, e ele escorreu feito fumaça pela rampa da garagem. Tranquei com dificuldade aquela trava enferrujada e comecei a dar os primeiros passos a caminho do ponto de ônibus. Um silêncio difícil.
"Acho que quero parar de comer tanto açúcar", falei de repente. Ele fez um barulho indistinto, algo como um murmúrio, mas também não exatamente isto. Todo som que fazia era para mim nevoento, novo, não dava para ter na memória, porque nunca fazia sentido. Sempre que falava, não lhe entendia, e ainda assim insistia em meu suplício. Depois disso disse algo mais. Algo que me encorajava, que era até sensível e carinhoso. Que vinha do seu íntimo, repleto de tudo que eu sempre quis ouvir dele. Nada tinha de críptico, porque tinha sido aprendido — mas eu não me lembro muito bem. Me lembro, porém, daquele som que veio antes. Aquele murmúrio vago, que linha nenhuma podia riscar o contorno, feito de um dissabor que já tinha se tornado o couro das nossas peles, um ruído que tinha todas as cores da saudade, e de nenhuma delas eu sabia o nome.
Olhei para o seu rosto mais uma vez. Seus cílios colossais, como galhos de araucária curvando-se para o céu. Por um momento muito breve me perguntei quem estava ali. Quando as coisas iam mal eu lembrava do passado e olhava fotografias. E eu chorava. Não sabia que ele não fazia a mesma coisa. Nem conseguia imaginar que outra coisa fazer. Não sabia naquele tempo que era como olhar fotos de gente morta. E ele? Eis o que nunca soube, nem nunca vou saber, até porque hoje ele já morreu por completo, fundido no passado como um chiclete no asfalto, e não sobrou nada. O que é que ele fazia, no escuro? Viramos a esquina e o ponto de ônibus estava logo ali. Não demorou até aquela nau azul de dezesseis toneladas virar a esquina.
Será que ele se lembra daquela esquina? De onde eles escorriam com seus letreiros luminosos, que de noite brilhavam cheios de esperança no meio do nada, dizendo Penha, Tucuruvi, Armênia, saciando feito um bálsamo nossas ansiedades instantâneas que se espalhavam cobrindo o que estava ali, gritante e invisível, à flor da nossa pele, feito aquela planta de tomilho no nosso jardim? aquela, que crescia para os lados e nós não entendíamos bem para onde, como se fosse uma planta rasteira? mas nós é que não sabíamos que ela queria ser um arbusto... Ele era realmente terrível, pairando desconectado de tudo, feito um balão sem tripulantes. Será que perdi todos aqueles anos da minha vida?
Subimos os degraus puxando pelos apoios, e segurando naquelas barras amarelas, nas alças dependuradas ao nosso redor, um único ponto do mundo com um sem-número de lugares onde se apoiar, para os quais os braços se esticavam sem precisarmos pensar. Foi assim até chegarmos na catraca. Pagamos o preço e sentamos finalmente, lado a lado. Nos encostamos e abraçamos. Deitamos na sensação de termos terminado alguma coisa, olhando através do vidro riscado da janela, onde alguém havia escrito o meu nome. Sentia com as mãos suas unhas comidas, e a sua pele era fria contra a minha tão quente, apesar de estarmos, eu e ele, espiritualmente ausentes. Algo acontece com o amor uma hora, eu acho.
Nossos olhos se fecharam e por um momento nos fazíamos carinho, sem entender muito bem ou ter nada resolvido, sem saber também que os fios só estavam se embaraçando ainda mais, e que os nós estavam se atando pra além de qualquer milagre, que tudo se prendia quanto mais andávamos por cima daquelas teias. Olhei para o seu rosto, que não se importava ou talvez nem percebesse o labirinto no qual tínhamos nos perdido. Ele tinha uma coragem inesgotável, mas ambição nenhuma. Cínico, mas confiante. Seu corpo estava imóvel, apoiado no banco do ônibus. Era um corpo sensível, cheio de marcas e de desejos. Nos entreolhamos de repente, e o silêncio morreu abruptamente: "Eu estou indo. Você vem?"

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@ -0,0 +1,59 @@
+++
title = "Poemas do Exílio"
date = 2017-01-30
+++
sua nudez casual
no dia de nosso enterro
como uma flor do avesso
_23? de outubro_
---
de soslaio
escassas visões
de trás da cortina
nem uma única flor
_4 de novembro_
---
a língua do dragão
amarela e preta
me suga para dentro
dizendo seu preço
_14 de novembro_
---
às vezes
a Lua branca e cheia
ilumina tudo
às vezes
desaparece
deixando as estrelas sozinhas
às vezes
_26 de novembro_
---
cheio de memórias
o suco de abacaxi
em cima da mesa
_janeiro de 2017_
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depois do aguaceiro
no parque a pequena árvore
começa a secar
_27 de janeiro de 2017_

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title: "Poemas do Regresso"
date: 2017-05-30
categories:
- "poetica"
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as horas
na mesa da escola
fumaça
das linhas do dia
frio
vinte e três vezes sem medo
e agora?
a muralha
no rosto
um brilho
olho
e vejo anjos
meu corpo refeito
do escuro
_15 a 20 de maio de 2017_
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<center><em>
algo que não tinha
de repente me estranha
no meio do som
da escola vazia
como uma criança descalça
empunho um fuzil
sem balas
sem flores
só esta fraqueza
uma vontade espessa
que me retesa
mas enche de água
</em></center>
---
<center><em>
há algo em mim que sente
e sabe que sente
só isso
mais nada
</em></center>
---
<center><em>
a impressora
um dois três
folhas de papel
bom dia
</em></center>

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@ -0,0 +1,18 @@
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title = "Silent White Walls"
date = 2017-04-18
+++
<em>
slowly
a silence creeps in
through these white walls
are you
drifting away?
</em>
24 de junho 06 de 2016