Import 2016

This commit is contained in:
Juno Takano 2025-10-16 15:59:12 -03:00
commit f0f6bd4b89
16 changed files with 377 additions and 0 deletions

View file

@ -0,0 +1,28 @@
+++
date = 2016-02-28
+++
a man carrying bags
walks by my post
the bags chain him down
to this curly world
thin and pale is
the skeletons outdoor
glasses hang intense
trying to see God
one shoulder points upright
his limbs lowly row
not for the first time
crosses me this ghost
bridges we had burned
cutting up the flow
and deeper was the cut
that made up our souls
in the river now
the bridges come and go
still the same bags
chain us to this world

View file

@ -0,0 +1,34 @@
+++
date = 2016-03-29
+++
por dentro,
um rio seco escorre
partido de terras escuras
com arbustos em folhas e flores
por dentro,
num soluço do tempo,
o rio seco engole.
no fundo nós sabemos
quem deposita as pedras
no chão do nosso estômago —
sabemos, já descobrimos!
e ainda assim, nus e com frio,
descansamos os pés
dentro do rio,
este rio seco,
que por dentro escorre
sabemos também,
para onde ele vai
sabemos os sabores e os tons
das flores comestíveis
que nos aguardam
ainda assim,
sofremos. nus, e com frio.
os pés dentro do rio.

View file

@ -0,0 +1,6 @@
+++
date = 2016-05-19
+++
viva esta vida
e morra.

View file

@ -0,0 +1,7 @@
+++
date = 2016-05-26
+++
cedo ou tarde
levamos o lixo
pra fora

View file

@ -0,0 +1,29 @@
+++
date = 2016-06-11
+++
aqui debaixo, os olhos sempre pingam. são puro fel, pura verdade, estão sempre limpos, sem ciscos. sem mistério.
aqui, entre o começo e o fim, tudo está sempre seco. é assim mesmo, sempre desnudado, à flor de tudo. como uma mão desluvada no inverno -- dura, aflita, translúcida.
aqui, depois que os sonhos implodiram, fica só a sensação do pó, da fumaça. fica este ar que nem se respira, nem falta. é como viver, e sempre tinha sido.
como é a praia antes de chegarmos? as ondas já batiam, se enrolavam, espumavam, e iam. assim nós as esperamos, mas elas nunca vinham por nós, ou porque as aguardávamos. também não se importavam se estaríamos lá. contudo, era fatal o nosso encontro. nós íamos e elas nos ofereciam as conchas. você se lembra quando catamos as conchas?
na Mãe dos Homens, sempre olho os prédios e às vezes vejo Vênus e também a Lua. as sacadas às vezes piscam, às vezes dependuram a bandeira nacional. assim passou também do calor ao frio, como uma presidente, que germina e morre.
seu rosto tem esse brilho, que às vezes escurece. e junto com ele, todo o resto. é completamente impessoal, e ao mesmo tempo, nada neste mundo tem outra origem que não seja você. o que é que faz o vento soprar as ondas? em Salvador, eu lembro, das pedras.
aqui é assim. os pombos sempre ciscam no asfalto quando espero o ônibus passar. escolhem com cuidado,  mas parecem comer o próprio chão. já não têm tanto medo de gente, e quando voam, voam. vão para cima de um prédio, olham, e descem de novo. só comem e voam, até que morrem. às vezes vejo seu esqueleto cheio de formigas, como uma folha seca da figueira sagrada, de onde o verde escorreu-se todo, deixando só a teia branca das suas veias.
mais abaixo, sempre esta queimação na barriga. não importa o que se faça ou que se coma, sempre este ardor. teria sempre estado aqui também, ou seria a primeira novidade? queria nunca fazer você chorar.
mesmo uma única estrela é miséria. às vezes lembro de um rosto largo e redondo, onde cabia um sorriso enorme. é às segundas e quartas, quando atravesso labirintos brancos de luz, entre escadas rolantes e os símbolos da certeza.
você lembra do mel das abelhas? nem sei se já alguma vez o comemos... às vezes parece que Isadora está vivendo um sonho bucólico, mas acho que não... teria meu pai sonhado com isso também?
ele disse: _cuidado, felicidade não existe._
para aquela adolescente, que seria este instante, se não a morte? ela queria saber: Deus existe? não se perguntou mais nada, não via o limite, a linha que embrulhava sua dúvida, nem neste embrulho, o seu reflexo.
quando rego as plantas, elas crescem. é simples, como verbos modais. mas também é bruto. seu inverso se apresenta claro e nu, limpo de todas as coisas. é exatamente como o relógio, para frente, para trás, _sempre devido ao desejo_...

View file

@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2016-06-24
+++
<em>
de repente o fogo
desde tão pequena
ele me confunde
</em>

View file

@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2016-09-04
+++
<em>
nuvens cor-de-rosa
mesmo desacreditadas
flores de morango
</em>

View file

@ -0,0 +1,31 @@
+++
date = 2016-09-08
+++
alunos risonhos
voltam para suas casas
dura primavera
---
mesmo no deserto
escutam-se sabiás
um frio na barriga
---
vem a primavera
espero de prontidão.
o fogo dourado
---
olhos na madeira
sem nenhuma nostalgia.
noite mal dormida
---
depois de rezar
nestas doze reverências
escuto seu nome

View file

@ -0,0 +1,43 @@
+++
date = 2016-10-09
+++
eu me lembro
dos casulos vazios das cigarras no pátio
depois da mureta azulejada, na casca da árvore
da cor da sirene presa no topo do pilar azul
e o barulho dos carros na rua
como um chocalho, como um mero efeito de som
de não saber te explicar nada, de nunca tê-lo feito
dos buracos que ficaram nas paredes
os parafusos calados, cheios de um profundo tédio
como se fosse agora, me lembro
de tudo que se considerou bonito
e como parecia já não ter mais forma alguma
de quando nasci, devagar e de repente,
chorei tanto, lembro-me do teu colo
também um abraço confuso, onde não se sabia bem o propósito
da audácia, do relaxamento, lembro-me de escrever de olhos fechados
de prender o ar e privar com sons esses medos
o pavor imenso de estar do seu lado
e como você puxava alguém para tão perto
como dividíamos a mesma miséria, sem rédea
e o caderno sempre ao lado como um cachorro
e aquela música que você ouvia com fome e com raiva
como uma fascinação sutil, como uma fumaça,
que se engancha desde os fios mais finos do fundo do estômago
e nos traz pra cima, feito uma ânsia de vômito
me lembro da explosão debaixo das árvores
e de como era frio no meio da rua, como era cinza e branco
quando atravessávamos as pontes e nos beijávamos
e corríamos dentro do grito de um medo eufórico, desejoso
lembro-me dos tapetes coloridos e suas peles de algodão
do cheiro familiar do quarto, ali mesmo onde me deitava
de nunca ter podido dizer nada, e ainda assim,
ter morrido de uma profunda nostalgia.

View file

@ -0,0 +1,5 @@
+++
date = 2016-10-14
+++
![Fotografia de um ramo de flores jogadas dentro de um tanque, com algumas flores caídas sobre uma barra de sabão. Um prendedor de roupas está ao lado. A foto tem as cores dessaturadas.](/images/uma-morte.jpg)

View file

@ -0,0 +1,75 @@
+++
date = 2016-10-22
+++
tão sensível
como a carne
como o rosto de um rio
e ainda assim
nada faz mover-se
contraiu-se
como um gato no inverno
sem cheiro
nem medo nem repulsa
imóvel,
bebendo dos venenos do oceano
com uma tal fome
imensa, insaciada
mas calada em jejum
feito um anel de fumaça
frágil e lento
sumindo sem receio
olha o vento
e o beija
sem sonhos
com doces dores no peito
barulhos plásticos que comovem
não mais novela
não mais tragédia
nenhuma piedade
lembro-me de aguardar resignada
o tombar de uma araucária
sem nenhuma nostalgia
um só toque
e ouço de novo
tudo o que cantou-se
cada passo da bailarina
devagar escorrem os licores
e por si mesma
a língua enjoa
os olhos cantam abertos
e pela primeira vez
a verdade escapa pelo portão
como um cão afoito
como óleo num funil
para nunca mais
assim cresce uma incerteza
sem água, sem terra, sem amores
e a dúvida tudo engole
deixando só esta nudez
esta fragilidade irrestrita
este vácuo
duro e indomável
de uma vontade imensa
de deixar
esse imenso e irrevogável sim
este sorriso a flutuar
no olho de uma melancolia
o broto imbatível
de uma coragem monstruosa
sem retas, sem curvas
pronta a devorar este mundo

View file

@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2016-11-06
+++
Da janela da nau, olhava o escuro como um quadro. Eram só oito horas, mas com o cheiro forte da madrugada. Em cima do horizonte incógnito, uma larga mancha amarela se arrastava. De certo era cana queimando, no seu espetáculo noturno e ilícito. Em baixo, nada decorava o pretume, se não as placas e as árvores enfiadas na terra. O farol da embarcação iluminava a encosta, revelando a terra vermelha e também a grama. Na melancolia da noite, traduziam-se em tons secos de musgo e de barro. Ao longo das horas esta mesma cena se repetia, envelopada num mormaço frio, onde não se sabe como sentir-se, se não num desconforto aflito, de quem quer ir embora mesmo sem entender o motivo. Sem sono, os sonhos se encadeavam contra o vidro.
De repente, algo de extraordinário brevemente se anuncia. Um campo de luzes inexplicadas, inumeráveis postes amarelados, fortes lanternas penduradas sem motivo. Nenhuma casa, nenhum campo debaixo delas, nem mesmo ruas eu via. Era como se tivessem sido instaladas pelas formigas. Com o movimento da barca, elas dançavam no céu, feito flores de fogo, presas no preto da noite. No fundo, um holofote atirava para cima, mas no princípio parecia uma luz divinal que de repente surge sem nenhuma profecia, perdida nas trevas, para ser vista por poucos. Assim, brevemente me sentia como uma comungante na fila da Eucaristia, que mesmo em dois mil, olha e vê o milagre. Depois de andar ainda mais, também a usina era um espetáculo. Suas estruturas e tubos, todos bem iluminados, sempre pelo mesmo tom quente de amarelo, ao contrário da frieza daquele branco urbano, pareciam um imenso robô que se deitava na noite, respirando fumaças brancas, pacífico até que acordasse com o orvalho molhando sua lata.
Que se pode esperar da viagem? Saí quando ainda era sol, com a saciedade a embalar um sono promissor. Mas sempre interrompe a secura de uma metade, com sua escuridão e a morte doce ou salgada de seus intervalos. Quem viaja às cinco da tarde? O fim da viagem é viajar novamente, a isto não se escapa.
Sem nenhuma euforia, olhava a janela e por vezes havia um sorriso. Ainda que essa tristeza tingisse a noite, não podia evitar estar viva. Este viver não é o estar de pé ou o respirar. Foi-me ensinado. É tudo o que basta, e o que precisamos e buscamos, sem sabê-lo. Com ele, mesmo se me engolisse aquele breu desconhecido do lado de fora, num abandono de todo farol e toda lanterna, ainda que houvesse um profundo medo, e nem mesmo aquele milagroso holofote pudesse aliviar o escuro, poderia andar como uma onça, vagarosamente, até o meu ponto final.

View file

@ -0,0 +1,21 @@
+++
date = 2016-11-17
+++
<em>
sem dono nenhum
um cachorro perambula
passa a primavera
</em>
---
<em>
na rua vazia
piscam luzes de natal
olho as plantas mortas
</em>

View file

@ -0,0 +1,12 @@
+++
date = 2016-11-24
+++
<em>
adeus
a todos os nomes de deus
e aos meus
adeus
</em>

View file

@ -0,0 +1,30 @@
+++
date = 2016-12-20
+++
no gelo
a rachadura se estica
pequenos pedaços de tudo
se espalham
à deriva os corpos
soltos e aflitos
ardendo deslizam
sem certeza de nada
na tundra, gritar é ter medo
só e sem remédio
sem ninguém que lhe note
se esquece
erige a fogueira
imensa promessa
e a incendeia
o fogo, o agir,
num só movimento
toda neve consome
e agora,
olha este mundo em silêncio
e sente.

View file

@ -0,0 +1,23 @@
+++
title = "do caderno terapêutico"
date = 2016-03-06
+++
o sol nasce no oeste
profundamente caladas
as cebolinhas se curvam
_23 de agosto de 2015_
os dias morrem como água
nas feridas destas mãos
já é quarta-feira!
_23 de agosto de 2015_
atravessando a noite escura
o menino semeia nas pedras
num único pulso
cem milhões de figos
_22 de outubro de 2015_