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date = 2019-01-24
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na água gelada
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o suor como um óleo
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se espalha fazendo
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formas sem cor, sem rastro
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distante do ralo
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de novo
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meu peito decola
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caindo pela grade
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o cheiro do mijo
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alguém está com medo e chora
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você não quer saber notícias ruins
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não quer saber de coisas grandes e graves
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não quer saber das vaidades do mundo
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da tristeza você não quer
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o que é você
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sob o jato de água
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rindo
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tomando tudo nas mãos
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as memórias dos castelos
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ainda vivificadas
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como um musgo que arde nos olhos
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enchendo o nariz de água e de terra
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elas estão
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vívidas
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as galerias, as escadarias, os quadros na parede,
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mas sob o jato de água
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rindo
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que fazer com as palavras que chegam nos ouvidos
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por dentro e por fora
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você não sabe mas está
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dentro do jato de água
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rindo
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mesmo gelada nunca é o bastante você sabe
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há algo enlouquecedor em todo o restante
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mas você está rindo
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dentro da água
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está rindo
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date = 2019-01-26
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_Cachoeira, outubro de 2018_
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date = 2019-01-27
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acolhe-te em si mesmo
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deita no teu
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próprio colo abriga-te
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sejais tua própria lâmpada
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aninha-te na luz das paredes
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dobra teu corpo num
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origami tecendo teias
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abraça e respira, no refugo,
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ressurja, revigore, com apetite
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no olho de novo, sem escolta
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sem culpa sem crimes
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retorne pêndulo incólume
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deita-te, acolhe-me, recolhe-se
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date = 2019-02-10
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De noite a pele se azula e tudo se amontoa numa esfera sonolenta, como uma fumaça de cores sempre frias, mas que nunca se precisam, e cada tipo de dor, e também toda paranoia e coisa comum como essa, vai misturando-se conforme dormem todas as coisas e a noite dobra-se devagar sobre minha cabeça, o tempo alarga-se e as paredes somem, de noite é como uma floresta, e lá fora um campo, uma praia, minhas mãos são como garras pendendo pra fora dos galhos, segurando, com cautela mas também firmes por sua natureza mesmo, de ter alguma segurança nas coisas, de ter alguma necessidade de vida e de encontrar-se com o caos para pelo menos sabê-lo. Quando, de todos os lados a hostilidade se esquece no incógnito, no escuro alto mistério, estou de posse de toda a capacidade que existe, nesse instante me parece afinal, que não era do amor como tinham dele falado que sentia falta. Pois as noites sempre assim estavam, se não com esse brilho tal como o de um rio do Norte, que mistura o verde e o azul igual penas de pássaros, então com um brilho mais amarelado, que vai a amornar as luzes, dando a elas algo de quente, de calor, igual ao fogo quando derrama no papel como se fosse feito para ele, também esse brilho turquesa, deita nos meus olhos nessa noite. São duas coisas bem distintas. É difícil chegar nessa hora, a de ver a chama de uma vela caindo no papel, ver que, mesmo sem que as palavras perturbem a visão, uma coisa é ver e logo converter em observação ou em surpresa, em cima de uma escrivaninha, a chama de uma vela só queima e apaga, mas contra o papel parece esquentar meus próprios olhos, parece esquentá-los, e é como se eles mesmos ficassem amarelos por dentro e por fora. São duas coisas bem distintas. Estão assim. Essa luz turquesa, deixo e amorno, vejo… Gosto dela quando está calma… e na esfera do escuro, é ela quem recorta um rosto, apoiado na própria mão, exausto e inquieto, imerso em sonhos, não posso evitar olhar e achar lindo, as pintas e as cores, as linhas, e com isso ainda, uma disposição a ser verdadeiramente aquele rosto somente… ou as costas, quando o rosto algo murmura e se vira, dormindo as costas agitadas enchem e esvaziam. Há dores e pensamentos, tantos, vejo e ouço passando, gerando no corpo conforme passam, suspiros e outros barulhos que faz, como se fosse um aerofone de sua psique, sensível o corpo transmite, tal como o meu, que suspenso naquelas mãos, que ladeiam o corpo em ângulos tortos, e onde a luz turquesa também desliza, meu corpo é como uma flauta soltando gemidos, e eu queria ser algo como uma esponja disto tudo mas é o ar quando passa, carregando tudo que franze o rosto que vejo, é nele que não posso escolher o que trará, pois trouxe, trouxe ânsias e oásis, camas de pano e luvas de linho, trouxe, livros sobre a Patagônia sobre, os tesouros do senhor de Sipán! Sobre ouro pré-colombiano… Nós nos refrescamos e também nos cobrimos… Sobre essas mãos, contra esses dedos, a luz não me revela nenhum segredo. Olho ao meu redor e tudo está ocorrendo naturalmente. As madrugadas são precisamente assim. É como pensar que a onça descansa durante o dia para caçar à noite.
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date = 2019-02-19
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casebre bom é feito disso
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tempo escasso
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todos os lados
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ao escrever as minhas roupas
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dão calor excessivo
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mesmo que tire insiste que vista
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mesmo que ponha há quem insista
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que troque e mesmo que troque
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há quem
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insista que insista
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algo no peito isola e comanda
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vem de baixo
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e ali
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de todos os lados
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as letras do lado de fora são duras
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são pedras com as quais só se fazem
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muros e treliças
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não portais
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nem estilingues
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ou catapultas
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só represas
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torres de tiro…
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olho para cima sorvendo
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as gotas despencam sobre tudo e mesmo assim
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minha pele é um pararraios no escuro
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espero e ouço nas horas
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o barulho dos gatos por cima dos muros
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as voltas da história e as batidas no peito
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as flores de Angola aparecendo caladas
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nos leds, nas folhas dos livros
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num mapa Isla Grande de Tierra del Fuego e também
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alguém querendo que me abaixe,
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que corte os cabelos, que me cale, que entregue…
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é um herege
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xingando no escuro
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inseguro
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desgovernado o corpo violento se exime
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brandindo bandeiras
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quantas vezes nessa cara o mesmo tapa
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exigindo
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e vindo
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do mesmo lado do muro,
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atesta inocências
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quer que carregue culpa
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vai dançando
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a sua dança de cristo
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querendo que eu sinta suas chamas sem luz
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não quero
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teu drama
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é meu cotidiano tinto
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tua ficção
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na minha janela desperta
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teu reclame
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é a minha moleira que nunca se fecha
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arredia
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fraca e roliça massa de pizza
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se abre redonda até a borda
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quebradiça
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você não acha poética
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a calabresa
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lenta dobrando crocante pra dentro
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não está vendo
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no forno o preto, o amarelo
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tremendo e morrendo
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mas espera
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nos sons do poema de novo a careta
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incerta
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olha e me empresta,
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tua mente completa
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deserta,
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na qual imprime,
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e repete
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como alguém que espera no ponto
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sempre corriqueiro um crime hediondo
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comendo do mesmo pão e bebendo
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da mesma água me empreste
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tuas mãos teus olhos e ouvidos
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me perceba e me beba afinal
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sou eu que engole com os olhos
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a luz laranja no poste da travessa
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tingindo nos fios os picotes de sacola
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são rabiolas
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presas pra sempre só servem mesmo
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de alimento pros olhos e de placas aos pássaros
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sim, sou eu,
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olhando, esperando,
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no silêncio uma vida de novo
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querendo aprender a ser tola pedindo
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que me ensine a ter cada vez mais carinho pois sinto,
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preciso,
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não tornar-me em algo bom ou mesmo limpo
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mas poder dar contornos de cuidado
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fazer
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com a palha um pequeno e caótico ninho
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escolha-me
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na palheta de sombras, nas gavetas redondas,
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no cemitério de pontas, me ache
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no cinzeiro, no fundo, da caixa de costelas,
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nos buracos dos rios,
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nas buchas faltando por entre os parafusos me escolha
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à espreita, ali, sempre à paisana
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me ache e me leve
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enerve
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me imprima e depois me recarregue
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toma tua lança, tua máscara de guerra
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quebre a catraca, inverta a cancela
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reverta a rosa preta de volta ao botão
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enterre-a com sonhos e promessas no chão
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não mais um cético um cínico, não faz assim
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fazendo poesias como um fantasma não
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envigora-me com teus erros
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seja
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imperfeita, voraz
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joga-me
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brinca imatura, enverga, recua
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na tela pintando as cores da rua
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é assim que vai me ensinando
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a não ter medo das letras,
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das crias, das rugas, dos fluidos
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e ter
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até hoje lágrimas de não
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orgulhar-me de ter crescido, é isso
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teus sons na madrugada é que o dizem
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todas as coisas já estão feitas
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insisto
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não preciso dizer nada, deixar cair
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nem um único cílio
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já está
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tudo perfeitamente escrito
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e dito
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desde sempre
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ainda que possa
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dizer e dizer, sem limite, sem grosso, sem fino
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já está
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tudo perfeitamente escrito
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e dito
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date = 2019-04-18
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No meu próprio tempo também devoro. Quero abrir a boca até soltarem-se os côndilos, num ângulo negativo, lentamente como um monstro marinho, imenso, inevitável... Neste meu próprio tempo procuro coisas preciosas que só encontro nele. E lá encontro por vezes algo tão raro, tão grande que consigo suster uma respiração só por horas e horas, ou mesmo dias. São coisas muito pequenas que nos atravessam. No outro tempo. O tempo que passa zunindo e que elege presidentes mas não derruba-os, que faz saírem moedas e notas da caixinha, neste tempo, onde há perfeição, e uma felicidade nostálgica, estranhamente perfeita, cheia de sombras e acidentes bizarros, mas ainda assim algo como uma outra infância, uma exploração do fascínio, uma entrega pelo que é não somente bom como o concebem nas igrejas mas, muito antes disso, _curioso_, uma exploração do caminho a que a vida naturalmente leva quando assim vivida, e como te carrega na direção que você caiu, como se não dependesse mais de alguém te aceitar ou não porque te aceitam de verdade e você não precisa ter coragem o tempo todo... Não basta se realizar e sorrir, sendo feliz, sem este revés. Sem isso, não passa de euforia. Você não pode acreditar em um espetáculo. Ou desejar uma felicidade maior do que aquela que possui quando está só. É como não querer envolver-se com os outros por desejo de conhecer a si. É um desengano. Mas quem está neste tempo? neste tempo estou só: quase ninguém me visita nele. Tenho que ser tudo isso, ser, ser um corpo assim, vivo, e como é forte a pressão que vem quando pega-se o corpo e o coloca no mundo... Como se exige de cada corpo só por estar presente, é visível a tensão na qual vive quase todo corpo, sempre tenso e confuso, ainda que convicto, é difícil, ter que suster uma tranquilidade tão rara e difícil para poder demonstrar na prática que seu corpo não merece ser menos do que isto, este corpo no mundo, nem produtor, nem produto (...)
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71
content/poesia/2019-07-05.md
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date = 2019-07-05
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onde
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vai beber de onde?
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vai deitar na fonte
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vai cantar
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vai comer
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onde?
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||||
vai subir nos montes
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||||
vai encher estantes
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ver o rio subir
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descer
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onde?
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||||
por qual cristo, ou conde
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na veia fechada, as pontes
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||||
no cabelo, o parecer
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onde?
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no meu corpo afronte
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quantas casas onde
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esqueci-me de dizer
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onde?
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vai fazer por onde
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não o que se esconde
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é viver ou viver
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dance
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ou então cante
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nesse tempo, alcance
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corra pra correr
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me ataque, afronte
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mas me descanse
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pra água descer
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dance
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||||
quando os portais num transe
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feito um rastro, volante
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||||
vierem de novo me comer
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||||
me alçar ao fronte
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ao momento, instante
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arranhe
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pelo poço estranhe
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não espere
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não clame
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não me ajude a apodrecer
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onde?
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é o tempo estanque
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eu me preparo
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remonto
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não consigo arrefecer
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dance
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||||
no meu olho falante
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na minha língua arranque
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eu não vim para dizer
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dance
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||||
esqueça o tempo, palanque
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o relógio, o pequeno, o grande
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o parar e o correr
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dance
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contra o concreto, e o vacilante
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contra o terror e o prometer
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||||
dance
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97
content/poesia/2019-07-22.md
Normal file
97
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date = 2019-07-22
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o rosto na foto
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o rosto ausente
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um rosto no colo
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rosto presente
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o rosto no copo
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rosto não mente
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o rosto futuro
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rosto crescente
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o rosto na moto
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rostos em frente
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o rosto em foco
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rosto potente
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o rosto na tela
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é displicente
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o rosto passado
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rosto sem dentes
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||||
o rosto lavado
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impaciente
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o rosto no tempo
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tempo presente
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um rosto na foto
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ou rosto quente
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é um rosto com tudo
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passado o pente
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o rosto sem furos
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rosto decente
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||||
o rosto encerado
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rosto de gente
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um rosto delgado
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sem precedentes
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não rosto marcado
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é um rosto crente
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o rosto sem pele
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rosto contente
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||||
um rosto em paz
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ou que intente
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o rosto que quer
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ser transparente
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o rosto sem olhos
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rosto silente
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||||
o rosto que crê
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e repreende
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||||
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||||
descolonizar a América
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||||
descolonizar
|
||||
descolonizar
|
||||
descolonizar a América
|
||||
|
||||
te repreende
|
||||
o rosto que crê
|
||||
o rosto silente
|
||||
rosto sem olhos
|
||||
sem trans presentes
|
||||
o rosto quer mais
|
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que você tente
|
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rosto em paz
|
||||
rosto contente
|
||||
um rosto sem pele
|
||||
rosto dormente
|
||||
é rosto marcado
|
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de precedentes
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||||
um rosto delgado
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||||
rosto doente
|
||||
esse rosto acabado
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não é decente
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o rosto e seus furos
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abrindo a corrente
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é um rosto com tudo
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escondendo os dentes
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o rosto na foto
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nunca é inocente
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rosto machucado
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impaciente
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||||
não foi lavado
|
||||
é comida pra lente
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rosto escaneado
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I.A. doente
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o rosto na tela
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||||
rosto potente
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||||
o rosto em foco
|
||||
os rostos em frente
|
||||
um rosto na moto
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||||
muitas patente
|
||||
o rosto futuro
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||||
no corpo na mente
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o rosto aprendiz
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rosto presente
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um rosto no colo
|
||||
o outro ausente
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na foto sem rosto
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o rosto não mente
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um rosto é no tempo
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o tempo presente
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date = 2019-09-25
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<em>
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mesmo sem terem nome
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você encontra os portões
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de novo e de novo
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</em>
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5
content/poesia/2019-10-08.md
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@ -0,0 +1,5 @@
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date = 2019-10-08
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32
content/poesia/2019-11-13.md
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||||
date = 2019-11-13
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+++
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||||
um spot de luz quadrado
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grande
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||||
fixado ao teto
|
||||
e outros três menores
|
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paredes revestidas com papel de parede
|
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painel/cabeceira em L na cor cinza
|
||||
com
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||||
uma tomada dupla
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uma caixinha para antena
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||||
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uma cama box de solteiro com quatro almofadas
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uma escrivaninha na cor
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cinza
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com uma cadeira estofada com pés de madeira
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um abajur de madeira
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janela veneziana de correr
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com tela de proteção na cor branca
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persiana de rolo
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em bom estado
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um armário na parte superior
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com duas portas
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uma caixinha para telefone
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tomada simples
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um interruptor duplo com tomada
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guarda-roupa com três portas
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de correr
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sendo uma delas
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espelhada.
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22
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22
content/poesia/2019-12-16.md
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date = 2019-12-16
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eu conecto \
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lembro \
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_me_ lembro \
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eu mesma anoto \
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retorno \
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e invoco \
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retomo \
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essa concentração \
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cem mil vezes se necessário \
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amarro os cadernos \
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como âncoras titânicas \
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toneladas nesse Oceano forte \
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é onda do leste \
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estou aqui \
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de pé \
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eis o convite \
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quem está pronta \
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a reentravar esse mundo?
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content/poesia/2019-12-18.md
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11
content/poesia/2019-12-18.md
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date = 2019-12-18
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<em>
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cuidado
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que o piso
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é liso
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</em>
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content/poesia/a-passagem-secreta.md
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12
content/poesia/a-passagem-secreta.md
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title = "A Passagem Secreta"
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date = 2019-11-24
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<center><em>meu refúgio é a poesia</em></center>
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você me disse algo confuso, não me lembro bem o que tinha sido, parecia algo muito diferente dessa escritoterapia que me une os fios do tempo e da vida. o que faço eu com tuas ferramentas cristianas, o limo e o cheiro que nelas tem, se não observar e esmiuçar também, pô-las na lupa, ver seu desenho, descobrir para que são e como me afetam. é o que você tem , o que herdou, posso entendê-lo, mas para mim são como instrumentos de tortura.
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<center><em>os ovos carregam a vida</em></center>
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testo as águas dizendo ou ouvindo algo, qualquer coisa, quero ver se me aflige, e aflige — está na sua mente este deus pesado, e você busca encontrá-lo, no mundo ou na morte, mas busca — já me haviam ensinado, mas você sempre quer que eu esqueça, entre teus instrumentos vejo, o que, para apagar e contorcer as memórias, entortá-las, fazer parecer que teria sido eu — eu, você aos poucos ensina, faz a linha, me risca, para que seja eu, e tenha de insistir em sê-la, e defendê-la, esta eu, na beira da rodovia ou no lixo, a deixa, eis-me aqui, desfeita — bebe-me, come-me, nunca se dá por satisfeita...
|
||||
52
content/poesia/angelica-215.md
Normal file
52
content/poesia/angelica-215.md
Normal file
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title = "Angélica 215"
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date = 2019-11-09
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de novo no rastro e na sombra
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meus tiros todos em cheio
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e ali
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vejo falsas soldados
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no parapeito
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atirando na contramão
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eu luto e desafio fantasmas
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meus seios vazios de novo
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se enchem de esperança de graça
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de força e fogo desordeiro
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as crianças juntam as mãos
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oram e agradecem
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é assim que une-se a elas
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a mão quente do deus da guerra
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e o Tempo
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e o rio de lama vermelha
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e a gota de chuva ácida na telha
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são soda ardente
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na minha garganta que azia
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depois
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os olhos se vão
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como fendas no campo de centeio
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eu
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sempre no meio
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fazendo a cerveja com as mãos
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entro na água e ligo as bolhas
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seu corpo é como o maior dos guardiões
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me esconde
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e estapeia
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num acordo eu acordo de novo
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é a tua íris brilhando no escuro
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assim
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nem preciso ver
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nem preciso dizer
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explicar
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só o sorriso mesmo
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é você que me arranca
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daqui
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deste mundo pequeno
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falando
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finalmente
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a única língua que eu aprendi
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56
content/poesia/consultorio.md
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56
content/poesia/consultorio.md
Normal file
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||||
title = "Consultório"
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date = 2019-12-16
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animais raros na encosta sentem-se perdidos
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chegam e vivem quase em silêncio
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incomoda-lhes a verdade alheia
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ou o desejo
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todo senso egoísta
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mais ou menos preciso
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quem está sozinha
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concentrada
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refinando
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pondo brilho no fio desta faca
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com a qual defende um pequeno território
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sacos de areia
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paredes de madeira
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meia rima
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rima inteira
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sou
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parapeito
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extrema unção
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verdade fácil
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excesso de doutrinação
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soltas as pirilampos
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brincam em ser fadas
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fadas
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incendiárias
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prendendo a respiração
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olhando para o outro lado
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espero o Sol no ocidente ocupado
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vejo
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fogo nas caravelas
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bandeirantes em pânico
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memoriais
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desconhecidos
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estou no plantão com o Fogo Vermelho
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vejo chegar
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vejo partir-se em três
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são nove peças finais
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um freio
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um leque de metal
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uma viola, mizinha arrebentada
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uma cortina de juta
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duas casas de terra
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dois lembretes em forma de estatueta
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uma roda de olhos tranquilos
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girando como areia
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redemoinho
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poeira velha
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fraco rastro dos caminhos
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content/poesia/declamacao-na-prateleira-preta.md
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68
content/poesia/declamacao-na-prateleira-preta.md
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title = "Declamação na prateleira preta"
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date = 2019-08-07
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o verbo
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contra o verbo
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a técnica
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contra a técnica
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a guerra
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contra a terra
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a vida contra a vida
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é muito pouco ainda
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estar do lado certo da história
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fazer o justo dizer o correto
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muito pouco ainda
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pois não é questão de justiça
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de dentro
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do lado de dentro
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do esqueleto na cela
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na quarta parede
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fechada
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há redenção e não justiça
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justiça terrível desgraça
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a justiça julga a justiça
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busquemos justiça mas
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é justiça terrível justiça
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que justiça, quem justiça
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e a quem justiça
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mas justiça
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invariavelmente justiça
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a alguém, quase sempre quem?
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justiça sem enganos, justiça.
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as manchas de tinta
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são lindas
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fazendo tons dos mais estranhos, se juntando
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a parede
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transpira
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andam por todo o mundo, em todas as direções,
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ratos, cachorros, gatos, baratas, onças, formigas
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o dia todo um barulho de água
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caindo da laje aqui dentro tudo está seco
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mas úmido
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– sem janelas –
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num silêncio assim
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como que numa caixa
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admito minha carência de remédios
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minha tensão
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as dores no corpo
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e as premonições
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vejo meus olhos são periscópios sou toda
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ultravioleta minhas mãos são
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feitas para dosar letras meus ouvidos engolem e devolvem
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duas roxas canaletas não importa ter escrito senão lembrado
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da beleza, tê-la visto, procurado, e descartado a transcendê-la
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sou
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agora desanuviadamente
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uma parede fria que a luz quente acende
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se apaga no escuro dorme
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enrijece
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treme
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se estica
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como um canto que chega aos tiros
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e termina lento
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6
content/poesia/diarios-da-casa-dobrada-002.md
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6
content/poesia/diarios-da-casa-dobrada-002.md
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title = "Diários da casa dobrada 002"
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date = 2019-11-19
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Tudo está em tradução. Sem subestimar você nunca teria um mercado de estudantes pra explorar. Estamos sempre vertendo. É preciso. Vamos fazendo a língua — eles correm atrás. Nós estamos sempre ouvindo e refazendo esse pão que querem tirar. Preservamos e tiramos o pó. Há quem queira colocar mais pressão, mas tudo está dizendo que o caminho é o de arrancar essas fronteiras do chão e dar de todo o coração até que se extingua esta medicina que o havia separado do restante do meu corpo e o desejado para apartar seu desejo reprimido. Estou só tentando firmar meus pés de novo. Eu já estou formada, todo este corpo já foi e já voltou, sempre torna-se assim mas é tanto para um só corpo, como se o espaço fosse pouco, e se não posso escrever, de fato escapo. Vou sempre tentando pagar a conta dessa letra escrita, é ela no fim que eu busco. Quero ouvi-la ser dita, cantada, quero lambê-la, vê-la ser escrita, e lida, sentir o cheiro dela quando faz cheiro, e se ela dança quero ser sua bailarina. Os olhos fixam-se sempre no corpo mas não é por isso que somos importantes. É lindo tornar até mesmo o corpo poderoso, mas é no desajuste que alguém se fixa e aí nasce todo o restante. Você quer empoderar-se mas isso exige um cuidado que a dor da culpa ensina mal. Se o poder que você conhece é o deste deus da morte que nas igrejas se cultua, quem irá segurar a sua ira? Em tudo estará o diabo, como se pudesse também possuí-la? Não queria explicar-me de novo e de novo. Se alguém se fixa demais nisso então a carne vira um objeto. A carne é uma continuidade, uma ligação imediata com o todo, não existe lá _a carne_ e então uma outra coisa. Não há pecado. Olho o corpo e vejo isso. Se ele engana ou fere, é natural que se corrige mas o que eu faço com o invisível? Se sou eu também só véu tênue de censura na tua ecologia — Como posso viver com você se sinto que quando me ver perder o controle vai partir para cima como se fosse sua oportunidade de atacar e punir feito polícia? O corpo que quer ser outra coisa é que complica-se. Não conhece o amor, então também o separa e faz em outra coisa, um conjunto de demonstrações. E as procura. Faz isso também com a mente. Assim considera a inteligência como separada da sabedoria, externa, mística, para ser alcançada na distância. Antes e depois de topar com um dos dois já está aflito. Retêm o saber e crê ser sua transmissão impossível. Isto nulifica o sujeito, ele torna-se nada, então preenche este nada com os objetos já que sobre eles não se esperava que pudesse ter aprendido... Diz ter sido separado e se acomoda na busca por ser reunido. Este movimento é eterno, e não posso perder um segundo dessa vida, nem colocar ela em nada. Ou sou ela toda ou estou perdida. Se alguém insinua que sou complicada demais é porque está preparando-se para me trucidar. Já assisti todos os filmes. Você não pode olhar a carne e querer dela mais do que é. Não pode sonhar com a pureza e depois querer o prazer. Não pode. Querer rebelar-se e depois impor-se. Não quero repetir, ser pessoa, personalidade, só isso, quando sinto inchando na caixa torácica que minha sobrevivência está ameaçada, e que só não o digo porque a sobrevivência me foi tirada como palavra, porque quiseram garanti-la, quiseram fornecê-la, torná-la em propriedade quantificada, isso já é palavra cantada desse coral de superegas implantadas, mas é de um tédio enorme ter de adequar-se a esta cultura e suas tanatocracias quando eu poderia, poderia, não posso ter outro poder que não o meu, outra cara que não a minha, outra experiência e outra fome de criação que a minha. Olho este oceano inteiro e sei que não é para alguém tão mesquinho quanto um deus que se deveria entregar essa vida. Às vezes alguém tenta me pressionar com as armas que eu mesma aprendi a usar para defender-me. Preciso olhar por muito tempo para entender. Mas uma hora eu sempre chego.
|
||||
122
content/poesia/fogo-na-vigilia.md
Normal file
122
content/poesia/fogo-na-vigilia.md
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||||
title = "Fogo na Vigília"
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date = 2019-10-25
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grávida
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e de madeira
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foi quebrada em Roma
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e jogada no Tibre
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da Igreja de Santa Maria
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Transpontina
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isso mesmo
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Maria
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era dia de Sínodo
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de ouvir, de ouvido
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assim são os bispos
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católicos ou autoincumbidos
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fazem parecer
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mas têm os tímpanos rígidos
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fecham-se e regurgitam
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vivendo do próprio vômito
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comendo da própria carne
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vendendo seu próprio mito
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do próprio suor
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querem ser vida
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bebe o sangue
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pois tornou-o no Cristo
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não foi isso?
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que altiva
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sua ética capitalista
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nem protestante, nem socialista
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mas uma só hóstia
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eucarística
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não mata minha fome
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demoníaca
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foi assim que erigiram
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alimentaram
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século após século
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demônios de quem ninguém tinha falado
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criaram
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quando exorcizaram
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só libertaram-me
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não foi?
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para fora do teu corpo então
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já que quer ser divina criação
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outra
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coisa pura sem pecado
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todo mal originado
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deixa-me ver
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nunca consegui me esquivar de fato
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das tuas exigências angelicais
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sempre que ficou do lado do bem e da pureza
|
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deixei
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fique então
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este é o teu lugar
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teu púlpito urdido
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||||
você se cega perto de estetas
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tantas imagens de santos
|
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louvores e glórias
|
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glória
|
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laica, religiosa, legalista
|
||||
na tua formalidade binária
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como uma cachoeira inteira
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||||
caindo no ralo da pia
|
||||
|
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mas e aqui
|
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neste Mundo enorme
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abandonado para a chegada de Vênus
|
||||
fazer a criação
|
||||
depois do caos
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||||
dos Padres da Igreja
|
||||
e seus enganos
|
||||
do seu apocalipse
|
||||
sua guerra de destruição
|
||||
a Era de Javé
|
||||
o deus da guerra
|
||||
no fim
|
||||
pra mim
|
||||
é a era de ouro
|
||||
a Terra Prometida
|
||||
a paz que não seria
|
||||
trazida pela polícia
|
||||
nunca entendi
|
||||
quando você falou de família
|
||||
|
||||
vão logo para o céu
|
||||
daqui os santos cuidarão
|
||||
levem seus históricos intactos
|
||||
os passados nostálgicos
|
||||
seu apego ao trabalho
|
||||
sua ordem de palavras
|
||||
dizeres, letras no papel fino
|
||||
coisa morta para um Corpo tão vivo
|
||||
nunca caíram seres
|
||||
somente elevaram-se alguns
|
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subiram, foram-se
|
||||
este é o movimento para os céus
|
||||
o do abandono
|
||||
do desejo pelo não-desejo
|
||||
vão
|
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subam então
|
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no altar ou no palco
|
||||
o que lhes aguarda?
|
||||
a dúvida
|
||||
para quem quer
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||||
vida eterna
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||||
fica a eterna questão
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do tempo
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do depois
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da continuidade
|
||||
de nunca ter sabido o que se era
|
||||
ou o que era isso
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||||
tua vida
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||||
e a minha
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nossa linha tão fina
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||||
que a gente cortou
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você partindo pro paraíso
|
||||
ou guardando-se nas paredes do templo
|
||||
com reis sábios
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||||
e velhos profetas
|
||||
andando com os pés juntos
|
||||
somente nas linhas retas
|
||||
47
content/poesia/princesa-isabel-303.md
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47
content/poesia/princesa-isabel-303.md
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|
|
@ -0,0 +1,47 @@
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|||
+++
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||||
title = "Princesa Isabel 303"
|
||||
date = 2019-01-25
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quem viver, viverá
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quem tiver um nome, terá
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contatos no telefone, porá
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que pra caso te procure ou chame
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irá
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||||
aquele que ver, verá
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quem tiver de vir,
|
||||
virá
|
||||
quem for de ouvir
|
||||
ouvirá
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||||
e quem não for
|
||||
será
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||||
mas quem viver
|
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tendo olhos
|
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tendo rins
|
||||
e trovões presos atrás dos olhos
|
||||
quem em silêncio souber
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||||
as línguas desconhecidas…
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||||
quem tiver
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tripas, fluidos,
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||||
dejetos, quem tiver
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bílis, muco, quem tiver suor quem tiver cheiro quem tiver
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lágrimas quem tiver pus quem tiver saudade quem tiver
|
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medo quem tiver gordura quem tiver saliva vômito urina quem tiver sangue
|
||||
as marcas todas na cara
|
||||
saberá
|
||||
|
||||
estará
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||||
recolhendo-se para dentro
|
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em paz mesmo sabendo
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que os demônios é que cuidam deste mundo
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e os anjos vão só os deuses convencendo
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de que o paraíso está tranquilo
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que seus poderes são temidos
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||||
e de que o povo está feliz
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não para cuidar do povo,
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que cuida-se muito bem sozinho
|
||||
mas para cuidar dos deuses
|
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que enfurecem-se com facilidade
|
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e vão causando destruição...
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