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Juno Takano 2025-09-21 14:51:49 -03:00
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date = 2019-01-24
+++
na água gelada
o suor como um óleo
se espalha fazendo
formas sem cor, sem rastro
distante do ralo
de novo
meu peito decola
caindo pela grade
o cheiro do mijo
alguém está com medo e chora
você não quer saber notícias ruins
não quer saber de coisas grandes e graves
não quer saber das vaidades do mundo
da tristeza você não quer
o que é você
sob o jato de água
rindo
tomando tudo nas mãos
as memórias dos castelos
ainda vivificadas
como um musgo que arde nos olhos
enchendo o nariz de água e de terra
elas estão
vívidas
as galerias, as escadarias, os quadros na parede,
mas sob o jato de água
rindo
que fazer com as palavras que chegam nos ouvidos
por dentro e por fora
você não sabe mas está
dentro do jato de água
rindo
mesmo gelada nunca é o bastante você sabe
há algo enlouquecedor em todo o restante
mas você está rindo
dentro da água
está rindo

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date = 2019-01-26
+++
![Foto em preto e branco de um muro de tijolos baianos com uma viga de madeira atravessada à frente. Uma luminária de bambu está fincada no chão e há vasos com plantas próximos do muro.](/images/cachoeira_2018-11-03-07.27.10.jpg)
_Cachoeira, outubro de 2018_

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+++
date = 2019-01-27
+++
![Arte digital com uma linha cortando a imagem da direita para o canto inferior esquerdo. Uma sombra se forma sob a linha, que gradualmente fica mais suave na parte superior. Sob a imagem, a palavra "Allwera" aparece em letra de estilo manuscrito.](/images/allwera.png)

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@ -0,0 +1,17 @@
+++
date = 2019-01-27
+++
acolhe-te em si mesmo
deita no teu
próprio colo abriga-te
sejais tua própria lâmpada
aninha-te na luz das paredes
dobra teu corpo num
origami tecendo teias
abraça e respira, no refugo,
ressurja, revigore, com apetite
no olho de novo, sem escolta
sem culpa sem crimes
retorne pêndulo incólume
deita-te, acolhe-me, recolhe-se

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@ -0,0 +1,5 @@
+++
date = 2019-02-10
+++
De noite a pele se azula e tudo se amontoa numa esfera sonolenta, como uma fumaça de cores sempre frias, mas que nunca se precisam, e cada tipo de dor, e também toda paranoia e coisa comum como essa, vai misturando-se conforme dormem todas as coisas e a noite dobra-se devagar sobre minha cabeça, o tempo alarga-se e as paredes somem, de noite é como uma floresta, e lá fora um campo, uma praia, minhas mãos são como garras pendendo pra fora dos galhos, segurando, com cautela mas também firmes por sua natureza mesmo, de ter alguma segurança nas coisas, de ter alguma necessidade de vida e de encontrar-se com o caos para pelo menos sabê-lo. Quando, de todos os lados a hostilidade se esquece no incógnito, no escuro alto mistério, estou de posse de toda a capacidade que existe, nesse instante me parece afinal, que não era do amor como tinham dele falado que sentia falta. Pois as noites sempre assim estavam, se não com esse brilho tal como o de um rio do Norte, que mistura o verde e o azul igual penas de pássaros, então com um brilho mais amarelado, que vai a amornar as luzes, dando a elas algo de quente, de calor, igual ao fogo quando derrama no papel como se fosse feito para ele, também esse brilho turquesa, deita nos meus olhos nessa noite. São duas coisas bem distintas. É difícil chegar nessa hora, a de ver a chama de uma vela caindo no papel, ver que, mesmo sem que as palavras perturbem a visão, uma coisa é ver e logo converter em observação ou em surpresa, em cima de uma escrivaninha, a chama de uma vela só queima e apaga, mas contra o papel parece esquentar meus próprios olhos, parece esquentá-los, e é como se eles mesmos ficassem amarelos por dentro e por fora. São duas coisas bem distintas. Estão assim. Essa luz turquesa, deixo e amorno, vejo… Gosto dela quando está calma… e na esfera do escuro, é ela quem recorta um rosto, apoiado na própria mão, exausto e inquieto, imerso em sonhos, não posso evitar olhar e achar lindo, as pintas e as cores, as linhas, e com isso ainda, uma disposição a ser verdadeiramente aquele rosto somente… ou as costas, quando o rosto algo murmura e se vira, dormindo as costas agitadas enchem e esvaziam. Há dores e pensamentos, tantos, vejo e ouço passando, gerando no corpo conforme passam, suspiros e outros barulhos que faz, como se fosse um aerofone de sua psique, sensível o corpo transmite, tal como o meu, que suspenso naquelas mãos, que ladeiam o corpo em ângulos tortos, e onde a luz turquesa também desliza, meu corpo é como uma flauta soltando gemidos, e eu queria ser algo como uma esponja disto tudo mas é o ar quando passa, carregando tudo que franze o rosto que vejo, é nele que não posso escolher o que trará, pois trouxe, trouxe ânsias e oásis, camas de pano e luvas de linho, trouxe, livros sobre a Patagônia sobre, os tesouros do senhor de Sipán! Sobre ouro pré-colombiano… Nós nos refrescamos e também nos cobrimos… Sobre essas mãos, contra esses dedos, a luz não me revela nenhum segredo. Olho ao meu redor e tudo está ocorrendo naturalmente. As madrugadas são precisamente assim. É como pensar que a onça descansa durante o dia para caçar à noite.

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@ -0,0 +1,147 @@
+++
date = 2019-02-19
+++
casebre bom é feito disso
tempo escasso
todos os lados
ao escrever as minhas roupas
dão calor excessivo
mesmo que tire insiste que vista
mesmo que ponha há quem insista
que troque e mesmo que troque
há quem
insista que insista
algo no peito isola e comanda
vem de baixo
e ali
de todos os lados
as letras do lado de fora são duras
são pedras com as quais só se fazem
muros e treliças
não portais
nem estilingues
ou catapultas
só represas
torres de tiro…
olho para cima sorvendo
as gotas despencam sobre tudo e mesmo assim
minha pele é um pararraios no escuro
espero e ouço nas horas
o barulho dos gatos por cima dos muros
as voltas da história e as batidas no peito
as flores de Angola aparecendo caladas
nos leds, nas folhas dos livros
num mapa Isla Grande de Tierra del Fuego e também
alguém querendo que me abaixe,
que corte os cabelos, que me cale, que entregue…
é um herege
xingando no escuro
inseguro
desgovernado o corpo violento se exime
brandindo bandeiras
quantas vezes nessa cara o mesmo tapa
exigindo
e vindo
do mesmo lado do muro,
atesta inocências
quer que carregue culpa
vai dançando
a sua dança de cristo
querendo que eu sinta suas chamas sem luz
não quero
teu drama
é meu cotidiano tinto
tua ficção
na minha janela desperta
teu reclame
é a minha moleira que nunca se fecha
arredia
fraca e roliça massa de pizza
se abre redonda até a borda
quebradiça
você não acha poética
a calabresa
lenta dobrando crocante pra dentro
não está vendo
no forno o preto, o amarelo
tremendo e morrendo
mas espera
nos sons do poema de novo a careta
incerta
olha e me empresta,
tua mente completa
deserta,
na qual imprime,
e repete
como alguém que espera no ponto
sempre corriqueiro um crime hediondo
comendo do mesmo pão e bebendo
da mesma água me empreste
tuas mãos teus olhos e ouvidos
me perceba e me beba afinal
sou eu que engole com os olhos
a luz laranja no poste da travessa
tingindo nos fios os picotes de sacola
são rabiolas
presas pra sempre só servem mesmo
de alimento pros olhos e de placas aos pássaros
sim, sou eu,
olhando, esperando,
no silêncio uma vida de novo
querendo aprender a ser tola pedindo
que me ensine a ter cada vez mais carinho pois sinto,
preciso,
não tornar-me em algo bom ou mesmo limpo
mas poder dar contornos de cuidado
fazer
com a palha um pequeno e caótico ninho
escolha-me
na palheta de sombras, nas gavetas redondas,
no cemitério de pontas, me ache
no cinzeiro, no fundo, da caixa de costelas,
nos buracos dos rios,
nas buchas faltando por entre os parafusos me escolha
à espreita, ali, sempre à paisana
me ache e me leve
enerve
me imprima e depois me recarregue
toma tua lança, tua máscara de guerra
quebre a catraca, inverta a cancela
reverta a rosa preta de volta ao botão
enterre-a com sonhos e promessas no chão
não mais um cético um cínico, não faz assim
fazendo poesias como um fantasma não
envigora-me com teus erros
seja
imperfeita, voraz
joga-me
brinca imatura, enverga, recua
na tela pintando as cores da rua
é assim que vai me ensinando
a não ter medo das letras,
das crias, das rugas, dos fluidos
e ter
até hoje lágrimas de não
orgulhar-me de ter crescido, é isso
teus sons na madrugada é que o dizem
todas as coisas já estão feitas
insisto
não preciso dizer nada, deixar cair
nem um único cílio
já está
tudo perfeitamente escrito
e dito
desde sempre
ainda que possa
dizer e dizer, sem limite, sem grosso, sem fino
já está
tudo perfeitamente escrito
e dito

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@ -0,0 +1,5 @@
+++
date = 2019-04-18
+++
No meu próprio tempo também devoro. Quero abrir a boca até soltarem-se os côndilos, num ângulo negativo, lentamente como um monstro marinho, imenso, inevitável... Neste meu próprio tempo procuro coisas preciosas que só encontro nele. E lá encontro por vezes algo tão raro, tão grande que consigo suster uma respiração só por horas e horas, ou mesmo dias. São coisas muito pequenas que nos atravessam. No outro tempo. O tempo que passa zunindo e que elege presidentes mas não derruba-os, que faz saírem moedas e notas da caixinha, neste tempo, onde há perfeição, e uma felicidade nostálgica, estranhamente perfeita, cheia de sombras e acidentes bizarros, mas ainda assim algo como uma outra infância, uma exploração do fascínio, uma entrega pelo que é não somente bom como o concebem nas igrejas mas, muito antes disso, _curioso_, uma exploração do caminho a que a vida naturalmente leva quando assim vivida, e como te carrega na direção que você caiu, como se não dependesse mais de alguém te aceitar ou não porque te aceitam de verdade e você não precisa ter coragem o tempo todo... Não basta se realizar e sorrir, sendo feliz, sem este revés. Sem isso, não passa de euforia. Você não pode acreditar em um espetáculo. Ou desejar uma felicidade maior do que aquela que possui quando está só. É como não querer envolver-se com os outros por desejo de conhecer a si. É um desengano. Mas quem está neste tempo? neste tempo estou só: quase ninguém me visita nele. Tenho que ser tudo isso, ser, ser um corpo assim, vivo, e como é forte a pressão que vem quando pega-se o corpo e o coloca no mundo... Como se exige de cada corpo só por estar presente, é visível a tensão na qual vive quase todo corpo, sempre tenso e confuso, ainda que convicto, é difícil, ter que suster uma tranquilidade tão rara e difícil para poder demonstrar na prática que seu corpo não merece ser menos do que isto, este corpo no mundo, nem produtor, nem produto (...)

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@ -0,0 +1,71 @@
+++
date = 2019-07-05
+++
onde
vai beber de onde?
vai deitar na fonte
vai cantar
vai comer
onde?
vai subir nos montes
vai encher estantes
ver o rio subir
descer
onde?
por qual cristo, ou conde
na veia fechada, as pontes
no cabelo, o parecer
onde?
no meu corpo afronte
quantas casas onde
esqueci-me de dizer
onde?
vai fazer por onde
não o que se esconde
é viver ou viver
dance
ou então cante
nesse tempo, alcance
corra pra correr
me ataque, afronte
mas me descanse
pra água descer
dance
quando os portais num transe
feito um rastro, volante
vierem de novo me comer
me alçar ao fronte
ao momento, instante
arranhe
pelo poço estranhe
não espere
não clame
não me ajude a apodrecer
onde?
é o tempo estanque
eu me preparo
remonto
não consigo arrefecer
dance
no meu olho falante
na minha língua arranque
eu não vim para dizer
dance
esqueça o tempo, palanque
o relógio, o pequeno, o grande
o parar e o correr
dance
contra o concreto, e o vacilante
contra o terror e o prometer
dance

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@ -0,0 +1,97 @@
+++
date = 2019-07-22
+++
o rosto na foto
o rosto ausente
um rosto no colo
rosto presente
o rosto no copo
rosto não mente
o rosto futuro
rosto crescente
o rosto na moto
rostos em frente
o rosto em foco
rosto potente
o rosto na tela
é displicente
o rosto passado
rosto sem dentes
o rosto lavado
impaciente
o rosto no tempo
tempo presente
um rosto na foto
ou rosto quente
é um rosto com tudo
passado o pente
o rosto sem furos
rosto decente
o rosto encerado
rosto de gente
um rosto delgado
sem precedentes
não rosto marcado
é um rosto crente
o rosto sem pele
rosto contente
um rosto em paz
ou que intente
o rosto que quer
ser transparente
o rosto sem olhos
rosto silente
o rosto que crê
e repreende
descolonizar a América
descolonizar
descolonizar
descolonizar a América
te repreende
o rosto que crê
o rosto silente
rosto sem olhos
sem trans presentes
o rosto quer mais
que você tente
rosto em paz
rosto contente
um rosto sem pele
rosto dormente
é rosto marcado
de precedentes
um rosto delgado
rosto doente
esse rosto acabado
não é decente
o rosto e seus furos
abrindo a corrente
é um rosto com tudo
escondendo os dentes
o rosto na foto
nunca é inocente
rosto machucado
impaciente
não foi lavado
é comida pra lente
rosto escaneado
I.A. doente
o rosto na tela
rosto potente
o rosto em foco
os rostos em frente
um rosto na moto
muitas patente
o rosto futuro
no corpo na mente
o rosto aprendiz
rosto presente
um rosto no colo
o outro ausente
na foto sem rosto
o rosto não mente
um rosto é no tempo
o tempo presente

View file

@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2019-09-25
+++
<em>
mesmo sem terem nome
você encontra os portões
de novo e de novo
</em>

View file

@ -0,0 +1,5 @@
+++
date = 2019-10-08
+++
![Fotografia de um rosto com filtro. É possível ver apenas uma silhueta, com sombras para cima e para baixo do rosto formando um formato de vaso.](/images/duna-ii.jpeg)

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@ -0,0 +1,32 @@
+++
date = 2019-11-13
+++
um spot de luz quadrado
grande
fixado ao teto
e outros três menores
paredes revestidas com papel de parede
painel/cabeceira em L na cor cinza
com
uma tomada dupla
uma caixinha para antena
uma cama box de solteiro com quatro almofadas
uma escrivaninha na cor
cinza
com uma cadeira estofada com pés de madeira
um abajur de madeira
janela veneziana de correr
com tela de proteção na cor branca
persiana de rolo
em bom estado
um armário na parte superior
com duas portas
uma caixinha para telefone
tomada simples
um interruptor duplo com tomada
guarda-roupa com três portas
de correr
sendo uma delas
espelhada.

View file

@ -0,0 +1,22 @@
+++
date = 2019-12-16
+++
eu conecto \
lembro \
_me_ lembro \
eu mesma anoto \
retorno \
e invoco \
retomo \
essa concentração \
cem mil vezes se necessário \
amarro os cadernos \
como âncoras titânicas \
toneladas nesse Oceano forte \
é onda do leste \
estou aqui \
de pé \
eis o convite \
quem está pronta \
a reentravar esse mundo?

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@ -0,0 +1,11 @@
+++
date = 2019-12-18
+++
<em>
cuidado
que o piso
é liso
</em>

View file

@ -0,0 +1,12 @@
+++
title = "A Passagem Secreta"
date = 2019-11-24
+++
<center><em>meu refúgio é a poesia</em></center>
você me disse algo confuso, não me lembro bem o que tinha sido, parecia algo muito diferente dessa escritoterapia que me une os fios do tempo e da vida. o que faço eu com tuas ferramentas cristianas, o limo e o cheiro que nelas tem, se não observar e esmiuçar também, pô-las na lupa, ver seu desenho, descobrir para que são e como me afetam. é o que você tem , o que herdou, posso entendê-lo, mas para mim são como instrumentos de tortura.
<center><em>os ovos carregam a vida</em></center>
testo as águas dizendo ou ouvindo algo, qualquer coisa, quero ver se me aflige, e aflige — está na sua mente este deus pesado, e você busca encontrá-lo, no mundo ou na morte, mas busca — já me haviam ensinado, mas você sempre quer que eu esqueça, entre teus instrumentos vejo, o que, para apagar e contorcer as memórias, entortá-las, fazer parecer que teria sido eu — eu, você aos poucos ensina, faz a linha, me risca, para que seja eu, e tenha de insistir em sê-la, e defendê-la, esta eu, na beira da rodovia ou no lixo, a deixa, eis-me aqui, desfeita — bebe-me, come-me, nunca se dá por satisfeita...

View file

@ -0,0 +1,52 @@
+++
title = "Angélica 215"
date = 2019-11-09
+++
de novo no rastro e na sombra
meus tiros todos em cheio
e ali
vejo falsas soldados
no parapeito
atirando na contramão
eu luto e desafio fantasmas
meus seios vazios de novo
se enchem de esperança de graça
de força e fogo desordeiro
as crianças juntam as mãos
oram e agradecem
é assim que une-se a elas
a mão quente do deus da guerra
e o Tempo
e o rio de lama vermelha
e a gota de chuva ácida na telha
são soda ardente
na minha garganta que azia
depois
os olhos se vão
como fendas no campo de centeio
eu
sempre no meio
fazendo a cerveja com as mãos
entro na água e ligo as bolhas
seu corpo é como o maior dos guardiões
me esconde
e estapeia
num acordo eu acordo de novo
é a tua íris brilhando no escuro
assim
nem preciso ver
nem preciso dizer
explicar
só o sorriso mesmo
é você que me arranca
daqui
deste mundo pequeno
falando
finalmente
a única língua que eu aprendi

View file

@ -0,0 +1,56 @@
+++
title = "Consultório"
date = 2019-12-16
+++
animais raros na encosta sentem-se perdidos
chegam e vivem quase em silêncio
incomoda-lhes a verdade alheia
ou o desejo
todo senso egoísta
mais ou menos preciso
quem está sozinha
concentrada
refinando
pondo brilho no fio desta faca
com a qual defende um pequeno território
sacos de areia
paredes de madeira
meia rima
rima inteira
sou
parapeito
extrema unção
verdade fácil
excesso de doutrinação
soltas as pirilampos
brincam em ser fadas
fadas
incendiárias
prendendo a respiração
olhando para o outro lado
espero o Sol no ocidente ocupado
vejo
fogo nas caravelas
bandeirantes em pânico
memoriais
desconhecidos
estou no plantão com o Fogo Vermelho
vejo chegar
vejo partir-se em três
são nove peças finais
um freio
um leque de metal
uma viola, mizinha arrebentada
uma cortina de juta
duas casas de terra
dois lembretes em forma de estatueta
uma roda de olhos tranquilos
girando como areia
redemoinho
poeira velha
fraco rastro dos caminhos

View file

@ -0,0 +1,68 @@
+++
title = "Declamação na prateleira preta"
date = 2019-08-07
+++
o verbo
contra o verbo
a técnica
contra a técnica
a guerra
contra a terra
a vida contra a vida
é muito pouco ainda
estar do lado certo da história
fazer o justo dizer o correto
muito pouco ainda
pois não é questão de justiça
de dentro
do lado de dentro
do esqueleto na cela
na quarta parede
fechada
há redenção e não justiça
justiça terrível desgraça
a justiça julga a justiça
busquemos justiça mas
é justiça terrível justiça
que justiça, quem justiça
e a quem justiça
mas justiça
invariavelmente justiça
a alguém, quase sempre quem?
justiça sem enganos, justiça.
as manchas de tinta
são lindas
fazendo tons dos mais estranhos, se juntando
a parede
transpira
andam por todo o mundo, em todas as direções,
ratos, cachorros, gatos, baratas, onças, formigas
o dia todo um barulho de água
caindo da laje aqui dentro tudo está seco
mas úmido
sem janelas
num silêncio assim
como que numa caixa
admito minha carência de remédios
minha tensão
as dores no corpo
e as premonições
vejo meus olhos são periscópios sou toda
ultravioleta minhas mãos são
feitas para dosar letras meus ouvidos engolem e devolvem
duas roxas canaletas não importa ter escrito senão lembrado
da beleza, tê-la visto, procurado, e descartado a transcendê-la
sou
agora desanuviadamente
uma parede fria que a luz quente acende
se apaga no escuro dorme
enrijece
treme
se estica
como um canto que chega aos tiros
e termina lento

View file

@ -0,0 +1,6 @@
+++
title = "Diários da casa dobrada 002"
date = 2019-11-19
+++
Tudo está em tradução. Sem subestimar você nunca teria um mercado de estudantes pra explorar. Estamos sempre vertendo. É preciso. Vamos fazendo a língua — eles correm atrás. Nós estamos sempre ouvindo e refazendo esse pão que querem tirar. Preservamos e tiramos o pó. Há quem queira colocar mais pressão, mas tudo está dizendo que o caminho é o de arrancar essas fronteiras do chão e dar de todo o coração até que se extingua esta medicina que o havia separado do restante do meu corpo e o desejado para apartar seu desejo reprimido. Estou só tentando firmar meus pés de novo. Eu já estou formada, todo este corpo já foi e já voltou, sempre torna-se assim mas é tanto para um só corpo, como se o espaço fosse pouco, e se não posso escrever, de fato escapo. Vou sempre tentando pagar a conta dessa letra escrita, é ela no fim que eu busco. Quero ouvi-la ser dita, cantada, quero lambê-la, vê-la ser escrita, e lida, sentir o cheiro dela quando faz cheiro, e se ela dança quero ser sua bailarina. Os olhos fixam-se sempre no corpo mas não é por isso que somos importantes. É lindo tornar até mesmo o corpo poderoso, mas é no desajuste que alguém se fixa e aí nasce todo o restante. Você quer empoderar-se mas isso exige um cuidado que a dor da culpa ensina mal. Se o poder que você conhece é o deste deus da morte que nas igrejas se cultua, quem irá segurar a sua ira? Em tudo estará o diabo, como se pudesse também possuí-la? Não queria explicar-me de novo e de novo. Se alguém se fixa demais nisso então a carne vira um objeto. A carne é uma continuidade, uma ligação imediata com o todo, não existe lá _a carne_ e então uma outra coisa. Não há pecado. Olho o corpo e vejo isso. Se ele engana ou fere, é natural que se corrige mas o que eu faço com o invisível? Se sou eu também só véu tênue de censura na tua ecologia — Como posso viver com você se sinto que quando me ver perder o controle vai partir para cima como se fosse sua oportunidade de atacar e punir feito polícia? O corpo que quer ser outra coisa é que complica-se. Não conhece o amor, então também o separa e faz em outra coisa, um conjunto de demonstrações. E as procura. Faz isso também com a mente. Assim considera a inteligência como separada da sabedoria, externa, mística, para ser alcançada na distância. Antes e depois de topar com um dos dois já está aflito. Retêm o saber e crê ser sua transmissão impossível. Isto nulifica o sujeito, ele torna-se nada, então preenche este nada com os objetos já que sobre eles não se esperava que pudesse ter aprendido... Diz ter sido separado e se acomoda na busca por ser reunido. Este movimento é eterno, e não posso perder um segundo dessa vida, nem colocar ela em nada. Ou sou ela toda ou estou perdida. Se alguém insinua que sou complicada demais é porque está preparando-se para me trucidar. Já assisti todos os filmes. Você não pode olhar a carne e querer dela mais do que é. Não pode sonhar com a pureza e depois querer o prazer. Não pode. Querer rebelar-se e depois impor-se. Não quero repetir, ser pessoa, personalidade, só isso, quando sinto inchando na caixa torácica que minha sobrevivência está ameaçada, e que só não o digo porque a sobrevivência me foi tirada como palavra, porque quiseram garanti-la, quiseram fornecê-la, torná-la em propriedade quantificada, isso já é palavra cantada desse coral de superegas implantadas, mas é de um tédio enorme ter de adequar-se a esta cultura e suas tanatocracias quando eu poderia, poderia, não posso ter outro poder que não o meu, outra cara que não a minha, outra experiência e outra fome de criação que a minha. Olho este oceano inteiro e sei que não é para alguém tão mesquinho quanto um deus que se deveria entregar essa vida. Às vezes alguém tenta me pressionar com as armas que eu mesma aprendi a usar para defender-me. Preciso olhar por muito tempo para entender. Mas uma hora eu sempre chego.

View file

@ -0,0 +1,122 @@
+++
title = "Fogo na Vigília"
date = 2019-10-25
+++
grávida
e de madeira
foi quebrada em Roma
e jogada no Tibre
da Igreja de Santa Maria
Transpontina
isso mesmo
Maria
era dia de Sínodo
de ouvir, de ouvido
assim são os bispos
católicos ou autoincumbidos
fazem parecer
mas têm os tímpanos rígidos
fecham-se e regurgitam
vivendo do próprio vômito
comendo da própria carne
vendendo seu próprio mito
do próprio suor
querem ser vida
bebe o sangue
pois tornou-o no Cristo
não foi isso?
que altiva
sua ética capitalista
nem protestante, nem socialista
mas uma só hóstia
eucarística
não mata minha fome
demoníaca
foi assim que erigiram
alimentaram
século após século
demônios de quem ninguém tinha falado
criaram
quando exorcizaram
só libertaram-me
não foi?
para fora do teu corpo então
já que quer ser divina criação
outra
coisa pura sem pecado
todo mal originado
deixa-me ver
nunca consegui me esquivar de fato
das tuas exigências angelicais
sempre que ficou do lado do bem e da pureza
deixei
fique então
este é o teu lugar
teu púlpito urdido
você se cega perto de estetas
tantas imagens de santos
louvores e glórias
glória
laica, religiosa, legalista
na tua formalidade binária
como uma cachoeira inteira
caindo no ralo da pia
mas e aqui
neste Mundo enorme
abandonado para a chegada de Vênus
fazer a criação
depois do caos
dos Padres da Igreja
e seus enganos
do seu apocalipse
sua guerra de destruição
a Era de Javé
o deus da guerra
no fim
pra mim
é a era de ouro
a Terra Prometida
a paz que não seria
trazida pela polícia
nunca entendi
quando você falou de família
vão logo para o céu
daqui os santos cuidarão
levem seus históricos intactos
os passados nostálgicos
seu apego ao trabalho
sua ordem de palavras
dizeres, letras no papel fino
coisa morta para um Corpo tão vivo
nunca caíram seres
somente elevaram-se alguns
subiram, foram-se
este é o movimento para os céus
o do abandono
do desejo pelo não-desejo
vão
subam então
no altar ou no palco
o que lhes aguarda?
a dúvida
para quem quer
vida eterna
fica a eterna questão
do tempo
do depois
da continuidade
de nunca ter sabido o que se era
ou o que era isso
tua vida
e a minha
nossa linha tão fina
que a gente cortou
você partindo pro paraíso
ou guardando-se nas paredes do templo
com reis sábios
e velhos profetas
andando com os pés juntos
somente nas linhas retas

View file

@ -0,0 +1,47 @@
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title = "Princesa Isabel 303"
date = 2019-01-25
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quem viver, viverá
quem tiver um nome, terá
contatos no telefone, porá
que pra caso te procure ou chame
irá
aquele que ver, verá
quem tiver de vir,
virá
quem for de ouvir
ouvirá
e quem não for
será
mas quem viver
tendo olhos
tendo rins
e trovões presos atrás dos olhos
quem em silêncio souber
as línguas desconhecidas…
quem tiver
tripas, fluidos,
dejetos, quem tiver
bílis, muco, quem tiver suor quem tiver cheiro quem tiver
lágrimas quem tiver pus quem tiver saudade quem tiver
medo quem tiver gordura quem tiver saliva vômito urina quem tiver sangue
as marcas todas na cara
saberá
estará
recolhendo-se para dentro
em paz mesmo sabendo
que os demônios é que cuidam deste mundo
e os anjos vão só os deuses convencendo
de que o paraíso está tranquilo
que seus poderes são temidos
e de que o povo está feliz
não para cuidar do povo,
que cuida-se muito bem sozinho
mas para cuidar dos deuses
que enfurecem-se com facilidade
e vão causando destruição...

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