77 lines
1.7 KiB
Markdown
77 lines
1.7 KiB
Markdown
+++
|
||
title = "O Corpo que o Rio Levou"
|
||
date = 2017-04-14
|
||
+++
|
||
|
||
me lembro dele
|
||
todo por dentro
|
||
com suas marcas de cansaço
|
||
e os cabelos embaraçados
|
||
que ninguém podia pentear
|
||
|
||
tinha uma pele tão fina
|
||
que tão fácil rasgava
|
||
e manchas de cores
|
||
mudando sem parar
|
||
|
||
era tão liso, tão sutil
|
||
eu o pintava com cuidado
|
||
e olhava no espelho
|
||
polindo suas arestas redondas
|
||
|
||
pendurava panos
|
||
e passava enfeites de madeira
|
||
nas suas pontas soltas
|
||
todos olhavam
|
||
o corpo que o rio levou
|
||
|
||
ele sentava e sorria
|
||
deitava e chorava
|
||
recebia tantas visitas
|
||
que entravam e saíam
|
||
sem medo de se afogar
|
||
|
||
andava sem medo
|
||
sozinho e cheio de amigos
|
||
a morder as unhas
|
||
nadando tranquilo no oceano
|
||
sem saber das arraias
|
||
|
||
era todo opaco
|
||
de cores sempre neutras
|
||
discreto e soberbo
|
||
eu também gostava
|
||
do corpo que o rio levou
|
||
|
||
mas algo lhe atravessava
|
||
desde entre as pernas
|
||
com uma firmeza violenta
|
||
e as linhas firmes do mundo
|
||
rasgaram de uma ponta à outra
|
||
o corpo que o rio levou
|
||
|
||
dilacerado assim
|
||
queria desfazer-se
|
||
no meio da fumaça
|
||
e ir embora de novo
|
||
tão cedo quanto pudesse
|
||
|
||
estava preso e aflito
|
||
procurando as chaves na grama
|
||
com pulsos cerrados
|
||
e lábios partidos
|
||
não flertava com nada
|
||
|
||
de repente
|
||
sem avisar a ninguém
|
||
foi embora nas águas de ontem
|
||
mas seu esqueleto ergueu-se
|
||
ficou, numa nudez absoluta
|
||
e acenou irreconhecível para todos
|
||
– sem resposta –
|
||
|
||
escorreram, com o rio,
|
||
os amigos e os amores
|
||
os tapetes, os talheres,
|
||
seis vidas vividas e ainda
|
||
o rio…
|