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title = "Eterno Retorno"
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date = 2021-06-05
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**一**
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O Tempo, Senhora, são as falas mornas
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nem quentes, nem frias, nem chocas
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O Tempo, Senhora, é também o silêncio
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é o Espaço Calado
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impreenchível
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irreversível
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passando do passado ao passado
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O Tempo, Senhora
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não aguarda
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não se demora
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não conhece inocência nem perdão nem justiça nem verdades
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não tem valores
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cria e destrói sem grandes sentimentos
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sem palavras
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O Tempo, Senhora
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desconhece análises
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concretas ou psíquicas
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abstratas ou científicas
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O Tempo, Senhora
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não lê poesias, não faz filosofia
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passa como uma onda, e como uma onda se desdobra
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não tem intenções
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não sonha com revoluções
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não assimila nem liberta
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está passando,
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O Tempo, Senhora
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da linha de lá até o agora
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não posso vacilar...
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nunca vou te alcançar
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e não posso
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**二**
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Já faz um tempo que as palavras foram refeitas, e eu não tenho mais a intenção de retornar. Eu já morri, e quando morri da primeira vez, me lembro, já tinha que abandonar a ideia do retorno. Não há nada de especial ou de particular nesta vida, e não há também outra vida além desta. Ela é única, mas para ser vivida como única é preciso um esforço comum, neurótico, recalcado.
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Detesto o intelectual iluminado. Místico, distante, psicológico, ausente do seu próprio corpo, sempre cuspindo vinte livros de distância de cima dos quais te olha falando, falando, falando, falando, falando, falando...
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Quem lê tanto assim? E até quando?
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O Tempo, Senhora, acabou
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começou a correr, sem parar
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e não parou mais
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Eu já senti tanta vergonha que ela começou a me dar asias. Mas foram anos de asias até que finalmente começasse a conseguir vomitar. Não terminei ainda. Eu não quero escrever como quem se desculpa, porque tudo está explícito em cada linha. Se não estiver, do que adiantou tê-las colocado no papel? Toda poesia é um nu. Nu é o retrato do corpo só corpo, e se for mais ou menos do que isso, será mística.
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Nudez, nudez absoluta...
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Contra todo mistério, essa poesia serve para mostrar que nada há de verdadeiro, nada há de belo nem de duradouro. Não há nenhum valor ao qual se ater. Não há nenhuma liderança ou processo ou coletividade organizada, raciocinada, que irá vir salvar e dar solução ou resposta. Tudo isso é vício texano, são drogas exportadas em açúcar e revertidas como pequenas drágeas de sexo em pó, que pela lente da câmera eu vendo sem agonia. São olhos gringos cheirando a minha cocaína.
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Eu não escrevo mais avisos, não estou mais conseguindo. Cada músculo que mexo dispara um outro gatilho. Eu tenho vivido. Vivido no limite, entre uma narrativa e outra, eu estou lutando pra acreditar que sei o que eu mesma vivi e o que eu mesma sinto, mas até hoje se for dizer a verdade, a verdade é que não consigo.
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Odeio desígnios de vítima. Quem vitima, quem vitimiza? Quem vai decidir onde riscar a linha?
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Muito ajuda quem não analisa.
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Isso não é sobre
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a expectativa neurotípica
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sempre buscando
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o meio da pista...
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**三**
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O Tempo, Senhora, é uma carta para o nada. Perdida. É o medo de falar, que mesmo rompido, não leva a resposta alguma. É a dura punição de solidão por não ser expressiva o suficiente. É alguém dizendo que sua timidez ou insociabilidade são compreensíveis na lente externa mas ainda carentes, carentes de alguém que lhe traduza Freud ou algum outro homem morto. Minha história é a desta linha solta no labirinto, que está amarrada a um prego na parede, lembrando-me, dos parafusos calados em cada casa que deixei pra trás pra acreditar em quê, na imortalidade, na ressurreição, no renascimento.
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Sabe, queria muito entender. Ou ouvir que o poético ainda está vivo e pode ser trocado. Seria profundamente poético ouvir que isso é uma nostalgia barata que merece e deve ser esmagada. Mas nada é pior do que sentir-se ao mesmo tempo amada e sozinha. Nada nessa vida nos basta. Nem deveria. Tudo é sobre ter sua linguagem reconhecida, e nenhuma dignidade disso escapa. Não é sobre respeito, mas sobre libertações outras, que nenhuma teoria poderia guardar nos seus bolsos.
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Ninguém pode representar ou ter sua realidade representada
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A representação é o inverso de qualquer realidade
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A realidade é única, e mil vezes única vai sendo multiplicada
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impossível
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não dizer nada
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impossível
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dizer o que basta
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Eu tenho fogo
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tenho
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fogo
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para acender fogões
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órbitas solares, daimaru
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no vento a bandeira parada
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São,
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memórias...
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Eu posso
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explicar os convites
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poderia
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me sentar e dizer por que
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estou triste
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mas nada trará alegria enquanto
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a poesia não puder ser plantada
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ainda que uma só linha trocada
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deixar ser
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coisa viva que escape
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à sua história cristã de batalhas
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batalhas batalhas batalhas
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arte meritocrática
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poeira estelar
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uma mentira vendida
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é uma mentira comprada
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**四**
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Autenticamente o quê? Autêntica é a binária. Autêntica é a ponta fixa da linha rígida, forma triangularizada. Ser hoje autêntica e amanhã me liquefazer em um suco de ambrósias douradas, sou essa espinheira que nasce e dá em tudo quanto é lugar sem querer nem assinar o papel onde cuspo minha bile amarelada. Não tenho o que expressar, sou a negação da negação no conjunto irreal a quadrática. Estou riscando nas paredes, entupindo cápsulas. São só ensaias, ensaias que talvez entravem a anglofonia, monotônica cacofonia onde uma ludista faz sensores e placas.
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O Tempo, Senhora, não vai do um ao dois e do três ao quatro. Cinco ainda é um número binário. Não há ciclos perfeitos, nem quadrados equiláteros. Nada é preciso, nada é exato, e o que eu digo hoje já foi mais que atestado; mas o problema está mesmo entre as orelhas e as ondas que encontram respaldo. Tudo está sendo multiplicado. Hoje não posso mais escrever tanto porque estou recebendo junto a vinte e nove pares o que foi a antes demais trinta já passado.
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Percebe a espiral se abrindo sem nenhum tato?
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Poema verborrágico, prosa do diabo.
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**五**
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Deixo de dizer. Eu leio e logo me canso. Faço esboços e me decido sempre ao combate. Era preciso muito mais tempo, algo como quarenta horas em um dia talvez chegasse.
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Otimistas, produtivistas, psiquistas, toda sorte de quem seja que tente travar guerra com seus onis. Eu me pergunto sobre suas neuroses e recalques, quem é que analisa? Não faz sentido que façam sua própria análise, precisavam de um espelho niilista onde o reflexo se riria. Recuso seu otimismo, a vergonha de ser egoísta, acho de um tédio profundo a sua repetição. Como chamam isso de saúde? Para mim são dependentes de uma imersão religiosa profunda.
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Planta antiga
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précolombina
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semente preta,
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nítida, límpida, lúcida
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não se comove com salvadores
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não espera pela vinda não escuta promessas não quer ter dons de línguas
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nasce e frutifica
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sempre selvagem
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nunca juíza
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aparta
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aproxima
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nos rios que nos ligam
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não tenho medo do que é sagrado
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não reconheço o divino
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no que é limitado
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olho
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para o encontro
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e agradeço por ter te encontrado
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